Um Conto de um Tubo - Jonathan Swift
Resumo 'A Tale of a Tub' é uma sátira complexa de Jonathan Swift, publicada anonimamente em 1704. A obra entrelaça uma alegoria sobre a his...
Resumo
'A Tale of a Tub' é uma sátira complexa de Jonathan Swift, publicada anonimamente em 1704. A obra entrelaça uma alegoria sobre a história da Igreja Cristã com várias digressões que criticam a "modernidade" na literatura, filosofia e religião. A alegoria central narra a história de três irmãos – Pedro (Igreja Católica Romana), Martinho (Igreja Anglicana) e João (Igreja Presbiteriana/Protestantismo radical) – que herdam um casaco (o Cristianismo) e um testamento do pai (a Bíblia), com instruções para não alterá-lo. Ao longo do tempo, eles desobedecem as regras, alterando seus casacos de várias maneiras, representando as corrupções e desvios das diferentes seitas cristãs. As digressões atacam pedantismo, charlatanismo, fanatismo e a superficialidade da erudição "moderna". O livro é uma crítica mordaz à corrupção, hipocrisia e extremismo, tanto na religião quanto na erudição.
Seções do livro
A Preamble to the Reader / The Bookseller's Dedication / The Epistle Dedicatory
Estas seções introdutórias estabelecem o tom satírico e irónico do livro. Incluem dedicatórias fictícias e prefácios que imitam e parodiam os estilos de escrita da época. O narrador, um "autor moderno", apresenta a sua obra como um meio de distração para a "baleia" (os críticos ou a loucura do mundo), referindo-se à metáfora de atirar um barril (tub) ao mar para desviar uma baleia de atacar o navio. Essas partes são repletas de ironia e metalinguagem, preparando o leitor para a sátira que se seguirá.
An Apology / The Author's Preface
Swift, numa "Apologia" adicionada posteriormente, e o narrador, num "Prefácio do Autor", explicam os propósitos do livro. O narrador declara que seu objetivo é corrigir os "abusos e corrupções" na religião e na erudição. Ele se apresenta como um inovador que busca oferecer "verdades profundas" de uma maneira acessível, embora sua pretensão e divagações já sejam parte da sátira.
Seção I - Introduction
O narrador introduz-se e o seu ambicioso projeto. Ele critica os autores "modernos" e o conhecimento superficial, ao mesmo tempo que se posiciona ironicamente como um deles. Ele discute os desafios da escrita e as pretensões dos escritores, estabelecendo o cenário para a sátira sobre a vaidade intelectual e a falta de substância.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| O Narrador | Autoproclamado "autor moderno", erudito e ambicioso. Representa o tipo de escritor que Swift satiriza. | Pretensioso, pedante, digressivo, divaga com facilidade, acredita na superioridade do pensamento "moderno" e na sua própria importância. Sua voz é a principal ferramenta satírica de Swift. |
Seção II - The Original of All Things, and the Story of the Three Brothers
Aqui começa a alegoria central. Um pai sábio deixa para os seus três filhos – Pedro, Martinho e João – um testamento e três casacos, com instruções estritas para nunca alterarem os casacos nem as regras do testamento. Os casacos representam o Cristianismo e o testamento, a Bíblia. A instrução central é a de seguir a simplicidade e a verdade da fé original.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| O Pai | Símbolo de Deus ou da Tradição Cristã Original. Provedor e legislador. | Sábio, austero, prescreve regras claras para seus filhos sobre a manutenção de seus casacos e a leitura do testamento. |
| Pedro | Alegoria da Igreja Católica Romana. | Astuto, ambicioso, autoritário, inovador nas suas próprias regras, dogmático, tirânico quando no poder, propenso a inventar doutrinas e rituais para aumentar o seu prestígio e controlo. |
| Martinho | Alegoria da Igreja Anglicana (ou o ramo moderado da Reforma). | Razoável, tenta um caminho intermédio, reformista mas não extremista, deseja restaurar a simplicidade original sem destruir completamente a estrutura. |
| João | Alegoria do Protestantismo radical, como o Presbiterianismo e outras seitas não conformistas. | Fanático, iconoclasta, excessivamente zeloso na reforma, propenso a interpretar o testamento de forma literal e rígida, mas também a desobedecê-lo por auto-interpretação extrema, chegando à loucura e à anarquia. |
Seção III - A Digression concerning Critics
Esta seção é uma digressão satírica que ataca os críticos literários. O narrador categoriza diferentes tipos de críticos, desde os "críticos verdadeiros" (abelhas que colhem néctar) até os "críticos superficiais" (aranhas que tecem a partir de si mesmas), ridicularizando a pretensão e a futilidade de muitas críticas da época.
Seção IV - The Story of the Three Brothers Continued
Os irmãos, vivendo na cidade, começam a ser influenciados pelas modas e pelos desejos mundanos. Motivados pela vaidade e pela aprovação social (especialmente de "damas", "nobres" e "duques"), eles inventam maneiras de justificar a adição de adornos e modificações aos seus casacos, desobedecendo as instruções do pai. Isto representa as primeiras corrupções e desvios doutrinários da Igreja Cristã.
Seção V - A Digression in the Modern Kind
Outra digressão, esta é uma metacommentária sobre a própria escrita, especificamente sobre o estilo "moderno". O narrador, ironicamente, elogia as digressões, a falta de ordem e a superficialidade dos autores contemporâneos, satirizando a ideia de que a novidade é inerentemente melhor do que a substância ou a tradição.
Seção VI - The Story of the Three Brothers Continued
Pedro assume cada vez mais autoridade. Ele "inventa" várias doutrinas e práticas não contidas no testamento do pai, como a indulgência, o purgatório, a transubstanciação, e o celibato. Ele se torna tirânico e rebatiza-se, exigindo submissão total dos seus irmãos. Esta parte satiriza a ascensão do Papado e as inovações doutrinárias da Igreja Católica Romana.
Seção VII - A Digression in Praise of Digressions
Esta seção é uma paródia das próprias digressões. O narrador elogia a virtude de divagar, argumentando que as digressões são um sinal de erudição e genialidade, ao mesmo tempo em que ele mesmo digride, demonstrando a artificialidade e a superficialidade que critica.
Seção VIII - The Story of the Three Brothers Continued
Martinho e João, exaustos da tirania de Pedro, decidem reformar seus casacos e tentar voltar às instruções originais do pai. No entanto, João, com seu zelo excessivo, rasga o casaco em pedaços na tentativa de remover cada adorno. Martinho, mais moderado, tenta remover as adições com cuidado, restaurando o casaco o máximo possível sem o destruir. Esta parte representa a Reforma Protestante, com Martinho sendo a Igreja Anglicana moderada e João, o Protestantismo radical e as seitas não conformistas.
Seção IX - A Digression concerning Madness
Uma das digressões mais famosas do livro, argumenta que grande parte da inovação, conquista e até mesmo da filosofia e da religião, provém de uma certa forma de "loucura" ou autoengano. Swift sugere que a loucura é um estado mental que permite aos indivíduos ignorar a realidade e perseguir suas fantasias, sendo a força motriz por trás de muitas das "grandes" realizações e crenças humanas. Esta seção liga-se diretamente ao fanatismo religioso.
Seção X - The Author's Apology for the Word "Machine" / The Story of the Three Brothers Concluded
João, em seu fanatismo extremo, não só remove os adornos, mas também os remendos originais, tornando seu casaco irreconhecível. Ele se separa completamente de Martinho e entra em conflitos constantes com Pedro e com o próprio Martinho, interpretando o testamento de maneira caótica e fragmentada. João representa as inúmeras seitas protestantes radicais que surgiram após a Reforma, cada uma com suas próprias interpretações extremas, levando à divisão e à discórdia. Martinho continua seu caminho de moderação.
Seção XI - A Digression on the Mechanical Operation of the Spirit
Esta digressão satiriza o "entusiasmo" e a "inspiração" religiosa das seitas não conformistas, reduzindo-os a processos físicos e mecânicos do corpo, como flatulência, movimentos corporais e estados de excitação, em vez de uma genuína intervenção divina. É uma crítica mordaz à hipocrisia e ao fanatismo religioso, desmistificando a pretensão de revelação espiritual.
Seção XII - The Conclusion
O narrador conclui a obra expressando arrependimento por não ter tempo de completar outros projetos ambiciosos e por ter se desviado de seu propósito original. Ele ironicamente se despede, deixando o leitor com uma sensação de incompletude e a sátira da pretensão intelectual.
Gênero literário: Sátira, alegoria, paródia, ensaio.
Dados do autor: Jonathan Swift (1667-1745) foi um escritor, ensaísta, panfletista político e clérigo anglicano anglo-irlandês, amplamente considerado um dos maiores satiristas da literatura inglesa. Nascido em Dublin, Irlanda, é mais conhecido por suas obras satíricas como 'Gulliver's Travels', 'A Modest Proposal' e 'A Tale of a Tub', nas quais criticava a corrupção política, a tolice humana e o fanatismo religioso com humor mordaz e inteligência afiada.
Moral da história: A moralidade central do livro é uma advertência contra o extremismo e o fanatismo em todas as suas formas, especialmente na religião e na erudição. Swift defende a moderação, a razão e a adesão à tradição (representada por Martinho) em oposição à inovação desenfreada (Pedro) ou à destruição zelosa (João). Ele critica a superficialidade da erudição "moderna", a corrupção das instituições e a hipocrisia humana, promovendo a humildade intelectual e a adesão aos princípios estabelecidos em vez de modas ou paixões irracionais.
Curiosidades do livro:
- Publicação Anônima e Controvérsia: Publicado anonimamente em 1704, 'A Tale of a Tub' causou grande escândalo e controvérsia devido às suas críticas abertas à religião e à erudição. A Rainha Anne ficou particularmente ofendida, o que pode ter prejudicado a carreira eclesiástica de Swift e impedido sua promoção a um bispado na Inglaterra.
- Estrutura Inovadora: A estrutura do livro é notavelmente complexa e não linear, com uma mistura de narrativa alegórica e numerosas digressões que interrompem o fluxo principal. Isso imita e parodia os estilos de escrita da época, que Swift via como pretensiosos e desorganizados.
- Significado do Título: O título refere-se a uma prática naval de lançar um barril (tub) ao mar para distrair uma baleia e evitar que ela ataque o navio. Swift sugere que seu livro serve para distrair os "cães raivosos" (críticos e fanáticos) da época, mantendo a razão à tona e evitando que se fixem em ideias perigosas.
- Alegoria dos "Casacos": A alegoria central dos três irmãos e seus casacos (representando o Cristianismo) e o testamento (a Bíblia) é uma das mais famosas da literatura inglesa, ilustrando a história das divisões e corrupções dentro da Igreja Cristã.
- Ambiguidade Satírica: O livro é uma das obras mais complexas e ambíguas de Swift, muitas vezes interpretada como uma defesa da Igreja Anglicana e um ataque ao Catolicismo e ao Protestantismo radical, mas também como uma sátira mais ampla da tolice humana universal.
