Areopagitica - John Milton
Resumo 'Areopagitica' é um tratado polemista em prosa escrito por John Milton e publicado em 1644, durante a Guerra Civil Inglesa. É uma ap...
Resumo
'Areopagitica' é um tratado polemista em prosa escrito por John Milton e publicado em 1644, durante a Guerra Civil Inglesa. É uma apaixonada defesa da liberdade de imprensa e uma crítica veemente à Ordem de Licenciamento de 1643 do Parlamento Inglês, que exigia que todos os livros fossem aprovados por censores antes da publicação.
Milton argumenta contra a censura prévia de livros de várias perspectivas: histórica, filosófica e prática. Ele traça a origem da censura até a Inquisição Católica, contrastando-a com as práticas da Grécia e Roma antigas. Filosoficamente, ele defende que a verdade emerge do livre confronto de ideias e que a virtude não reside na ignorância do mal, mas na capacidade de escolher o bem após ter conhecido e considerado o mal. Praticamente, Milton aponta que a censura é ineficaz, sobrecarrega os autores e é um insulto à inteligência e à capacidade de discernimento do povo inglês. Ele exorta o Parlamento a revogar a ordem, permitindo que a Inglaterra se torne um farol de conhecimento e liberdade intelectual.
Seções do livro
Seção 1: O Prelúdio e a Invocação ao Parlamento
Milton inicia seu discurso com uma saudação formal e lisonjeira ao Parlamento Inglês, elogiando sua sabedoria e coragem em lutar pela liberdade. Ele se apresenta como um servo da verdade e da justiça, e explica seu propósito: apresentar uma "liberdade de discurso razoável" em defesa da liberdade de imprensa. Ele procura persuadir o Parlamento a reverter a Ordem de Licenciamento de 1643, que ele vê como um erro, uma restrição ao conhecimento e um obstáculo ao progresso intelectual. Milton defende que o controle sobre o que pode ser lido e impresso é não apenas ineficaz, mas também prejudicial à busca da verdade e à formação do caráter virtuoso. Ele apela à razão e ao espírito de liberdade que, segundo ele, o Parlamento representa.
| Partes Envolvidas | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| John Milton | Autor e orador principal; profundo erudito; defensor da liberdade intelectual. | Apaixonado, idealista, retórico, persuasivo, crítico das restrições. |
| O Parlamento Inglês (Long Parliament) | A autoridade legislativa a quem o discurso é dirigido; detém o poder de revogar a ordem de licenciamento. | Representa a autoridade, mas é retratado por Milton como potencialmente sábio e propenso à liberdade, se convencido. |
| Os Licenciadores/Censores | Indivíduos ou a instituição que examina e aprova ou nega a publicação de livros. | Representam a restrição, o controle e a desconfiança em relação à capacidade de julgamento do público. |
Seção 2: As Origens da Censura
Milton mergulha na história para rastrear as origens da prática do licenciamento de livros. Ele argumenta que a censura prévia não era uma prática na Grécia ou Roma antigas, onde o conhecimento e o debate eram valorizados. Em vez disso, ele demonstra que a prática de censurar e queimar livros surgiu com o Papado e a Inquisição Católica Romana, que a utilizaram como uma ferramenta para controlar o pensamento e suprimir a heresia. Ele associa a censura a regimes tirânicos e opressores, argumentando que é incompatível com os princípios da reforma protestante e da liberdade. Ao associar a censura ao Catolicismo (largamente impopular na Inglaterra Protestante da época), Milton tenta desacreditá-la como uma invenção estrangeira e anti-cristã, não digna de ser adotada por um Parlamento que lutava pela liberdade.
Seção 3: A Utilidade da Leitura e a Busca da Verdade
Nesta seção, Milton expõe o cerne de sua filosofia sobre o conhecimento e a verdade. Ele argumenta vigorosamente que a leitura de todos os tipos de livros, mesmo aqueles que podem ser considerados "maus" ou "controversos", é essencial para o desenvolvimento intelectual e moral. Para Milton, a virtude não reside em ser inocente do mal ou em evitar o contato com ideias perigosas, mas sim em ter a capacidade de discernir entre o bem e o mal, e de escolher livremente o bem. Ele compara o ser humano a um campo onde o trigo e o joio crescem juntos, e a remoção prematura do joio pode danificar o trigo. A verdade, segundo ele, emerge do confronto de diferentes opiniões e argumentos. Ele usa a metáfora dos membros desmembrados de Osíris (de um mito egípcio, onde a verdade é como a figura desmembrada que deve ser arduamente reunida), sugerindo que a verdade não é uma entidade monolítica e facilmente alcançável, mas sim algo que deve ser buscado e reconstruído através do livre intercâmbio de ideias.
Seção 4: Críticas Práticas ao Licenciamento
Milton volta-se para os argumentos práticos contra a Ordem de Licenciamento. Ele critica a ideia de que a censura é eficaz, argumentando que as ideias (boas ou más) sempre encontrarão um caminho para circular, independentemente das restrições. Ele também destaca o fardo que o licenciamento impõe aos autores e estudiosos, forçando-os a submeter seus trabalhos à aprovação de um censor que pode não possuir a mesma erudição ou compreensão do assunto. Isso desencoraja a inovação, a erudição e a descoberta. Além disso, Milton considera o licenciamento um insulto à nação inglesa, pois implica que o povo é imaturo, ignorante e incapaz de julgar por si mesmo o que é bom ou ruim para ler. Ele argumenta que a censura não só retarda o progresso do conhecimento, mas também degrada a dignidade intelectual da nação.
Seção 5: Apelo Final e Visão de uma Nação Iluminada
Na conclusão de sua oração, Milton faz um apelo final e apaixonado ao Parlamento. Ele os exorta a revogar a ordem de licenciamento, não apenas por uma questão de justiça para com os autores, mas para o bem maior da na nação. Ele pinta um quadro vívido de uma Inglaterra que, livre da censura, poderia se tornar um farol de conhecimento e um centro de erudição no mundo. Milton expressa sua fé na capacidade do povo inglês de discernir a verdade, desde que lhes seja dada a liberdade de fazê-lo. Ele acredita que a liberdade de imprensa é fundamental para o crescimento espiritual e intelectual da nação, permitindo que a verdade "combata e derrote" qualquer mentira em um campo de jogo justo. Ele sugere que, ao invés de controlar o que se lê, o Parlamento deveria confiar na capacidade do povo de se auto-regular e de seguir o caminho da virtude e da razão.
Gênero Literário: Tratado político, ensaio argumentativo, oratória em prosa.
Dados do Autor:
John Milton (1608-1674) foi um poeta, polemista e funcionário público inglês. É amplamente considerado um dos maiores escritores da língua inglesa e é mais famoso por seu poema épico "Paraíso Perdido". Além de sua obra poética, Milton foi um fervoroso defensor das liberdades civis e religiosas, escrevendo numerosos tratados em prosa sobre tópicos como divórcio, educação e liberdade de imprensa. Durante a Commonwealth inglesa, ele serviu como Secretário para Línguas Estrangeiras do Conselho de Estado, lidando com a correspondência diplomática. Sua vida foi marcada por eventos políticos turbulentos na Inglaterra do século XVII, e ele foi um ardente apoiador da causa parlamentar contra a monarquia.
Moral da Obra:
A principal moral de 'Areopagitica' é que a liberdade de expressão e de imprensa é essencial para a busca da verdade, o florescimento intelectual e a virtude moral de uma sociedade. A censura é tirânica, ineficaz e um obstáculo intrínseco ao progresso do conhecimento e à capacidade dos indivíduos de se desenvolverem moralmente através da escolha informada. A verdade, quando posta em livre e aberto confronto com a falsidade, invariavelmente prevalecerá.
Curiosidades:
- Publicação Irônica: O próprio 'Areopagitica' foi publicado sem licença, desafiando a própria ordem de censura que ele criticava. Milton, na época, era um nome conhecido e a autoria foi imediatamente reconhecida, mas ele não foi processado por isso.
- Nome Clássico: O título 'Areopagitica' faz referência ao Areópago, a colina de Ares em Atenas, onde o conselho judicial e político da cidade se reunia. Milton também alude ao discurso "Areopagiticus" do orador grego Isócrates, que era um apelo aos atenienses para restaurarem seus antigos valores e virtudes. Ao escolher esse título, Milton se posiciona dentro de uma tradição clássica de discurso cívico e apelo à razão.
- Influência Duradoura: Embora a Ordem de Licenciamento de 1643 não tenha sido revogada imediatamente após a publicação de 'Areopagitica' (a lei de licenciamento só expiraria em 1695), o tratado se tornou um texto fundamental na história do pensamento sobre a liberdade de imprensa e de expressão, influenciando pensadores e ativistas por séculos.
- Limites da Liberdade para Milton: É importante notar que, para Milton, a liberdade de expressão não era absoluta. Ele não defendia a publicação de heresias flagrantes, calúnias ou textos que considerasse abertamente contra a moral pública e a fé cristã. Sua defesa era mais especificamente contra a censura prévia (licenciamento) e a favor de um mercado livre de ideias, onde a verdade pudesse ser testada e emergir.
