Belfagor Arquidiabo - Nicolau Maquiavel
Resumo No livro "Belfagor arcidiavolo", Niccolò Machiavelli narra a história de Belfagor, um arquidemônio enviado do Inferno à Terra para i...
Resumo
No livro "Belfagor arcidiavolo", Niccolò Machiavelli narra a história de Belfagor, um arquidemônio enviado do Inferno à Terra para investigar a causa da grande afluência de almas masculinas ao purgatório, atribuída às mulheres. Plutão, o rei do Inferno, e seu conselho decidem que um demônio deve viver como humano por dez anos, casar-se e experimentar os infortúnios da vida conjugal. Belfagor é o escolhido e chega a Florença sob a identidade do rico fidalgo espanhol Roderigo di Castiglia. Ele se casa com Monna Onesta, uma mulher de grande beleza, mas de orgulho, vaidade e extravagância insuportáveis. A vida luxuosa e as exigências da esposa e de sua família levam Roderigo à bancarrota e ao desespero, forçando-o a fugir de seus credores. No caminho, ele é salvo por um camponês esperto chamado Gianmatteo del Bricca. Em gratidão, Belfagor, agora revelando sua verdadeira natureza, faz um pacto com Gianmatteo: ele possuirá mulheres nobres, e Gianmatteo, como exorcista, as libertará em troca de riqueza e fama. O plano funciona com sucesso por um tempo, tornando Gianmatteo rico e famoso, inclusive junto ao rei da França. Contudo, Belfagor, cansado de seu papel, decide atormentar Gianmatteo, ameaçando-o se ele não o libertar de uma possessão futura. No confronto final, Gianmatteo, usando de astúcia, engana Belfagor, fazendo-o acreditar que sua temida esposa, Monna Onesta, está a caminho. Aterrorizado pela perspectiva de reencontrar sua mulher, Belfagor foge imediatamente para o Inferno, preferindo as torturas infernais à miséria do casamento.
Seções do livro
Seção 1: A Discussão no Inferno
A história começa no Inferno, onde uma reunião de demônios é convocada por Plutão, o rei do submundo. Há uma grande preocupação com o número crescente de homens que chegam ao Inferno, todos eles lamentando que foram levados à perdição por suas esposas. Os demônios, acostumados a atribuir os pecados à cobiça, à soberba e à gula, ficam intrigados com a consistência dessas acusações contra as mulheres. Eles suspeitam que a vida conjugal na Terra deve ser algo de extrema maldade para gerar tal sofrimento e levar tantos homens ao pecado. Para resolver essa questão e entender a verdadeira natureza das mulheres e do casamento, Plutão decide enviar um demônio à Terra para viver como humano, casar-se e experimentar essa condição em primeira mão.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Plutão | Rei do Inferno, líder dos demônios. | Sábio, preocupado com a ordem e a verdade, decide investigar as causas dos infortúnios humanos. |
Seção 2: A Missão de Belfagor
A escolha recai sobre Belfagor, um arquidemônio de alta patente. Ele recebe a missão de assumir uma forma humana, casar-se e viver na Terra por dez anos, ou até que a vida conjugal o force a retornar. Para que sua experiência seja o mais realista possível, ele recebe cem mil ducados do tesouro infernal, com a condição de que, ao fim do prazo ou ao seu retorno, devolva o dinheiro ou seja castigado. Belfagor, convencido de que o desafio será fácil e que as lamúrias dos homens são exageradas, parte para a Terra, cheio de confiança.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Belfagor | Arquidemônio, encarregado da missão. | Inicialmente confiante, orgulhoso, subestima os desafios da vida humana e do casamento. |
Seção 3: Belfagor na Terra e o Casamento
Belfagor assume a identidade de Roderigo di Castiglia, um fidalgo espanhol rico e recém-chegado a Florença. Sua reputação de grande fortuna e seu porte elegante fazem dele um partido cobiçado. Após um tempo na cidade, ele decide casar-se e escolhe Monna Onesta, uma jovem de família nobre (os Donati), de beleza estonteante. Apesar de ser linda, Monna Onesta é descrita como excessivamente orgulhosa, vaidosa e exigente. A vida de casado de Roderigo começa com Monna Onesta demandando roupas luxuosas, joias caras, criados numerosos e uma casa grandiosa. O gasto é excessivo, e o dinheiro começa a desaparecer rapidamente.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Monna Onesta | Esposa de Roderigo, filha da família Donati. | Bela, mas extremamente orgulhosa, vaidosa, exigente, extravagante, gastadora e dominadora. |
| Família Donati | Família de Monna Onesta. | Nobres florentinos, aproveitadores, contribuem para a ruína financeira de Roderigo. |
Seção 4: A Ruína Financeira e a Fuga
Os dez anos de matrimônio de Roderigo são um inferno na Terra. Monna Onesta vive num luxo desenfreado, organizando festas constantes, exigindo presentes caros e mantendo uma vida social dispendiosa. Além disso, ela se mostra extremamente controladora e manipuladora, fazendo com que Roderigo nunca tenha paz. Seus irmãos e outros parentes também se aproveitam da generosidade de Roderigo, pedindo dinheiro constantemente. As dívidas acumulam-se rapidamente, e os cento e seis mil ducados de Belfagor se esgotam. Quando os credores começam a pressionar e percebe que está falido, Roderigo, desesperado e atormentado pela esposa e seus parentes, decide fugir de Florença para escapar da prisão por dívidas e da miséria de seu casamento.
Seção 5: O Encontro com Gianmatteo e o Pacto
Em sua fuga, Roderigo é perseguido pelos credores e pelas autoridades florentinas. Escondendo-se em uma plantação, ele encontra um camponês chamado Gianmatteo del Bricca, que, movido por compaixão e um pouco de curiosidade, o ajuda a se esconder sob um monte de esterco. Após a fuga dos perseguidores, Roderigo, grato, revela a Gianmatteo sua verdadeira identidade: ele é Belfagor, o demônio. Explicando sua missão na Terra, Belfagor propõe um pacto a Gianmatteo: ele usará seu poder demoníaco para possuir mulheres nobres, e Gianmatteo, ao ser chamado para exorcizá-las, as libertará em troca de fama e grandes recompensas financeiras. Belfagor promete partir apenas quando Gianmatteo o ordenar, mas o adverte para nunca chamá-lo de volta se Monna Onesta estiver por perto.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Gianmatteo del Bricca | Camponês, inicialmente pobre. | Esperto, perspicaz, corajoso (ao lidar com o demônio), oportunista, ambicioso, engenhoso. |
Seção 6: O Início do Plano: As Possessões
O plano de Belfagor e Gianmatteo é posto em prática. Belfagor possui a filha de um rico mercador em Florença. A jovem começa a proferir blasfêmias e segredos familiares, causando pânico. Gianmatteo é chamado, e com grande pompa, "exorciza" a moça simplesmente sussurrando para Belfagor sair, conforme combinado. O demônio parte, e Gianmatteo é aclamado como um santo, recebendo uma enorme recompensa em dinheiro. Em seguida, Belfagor possui a filha de um homem ainda mais proeminente, e o ritual se repete com sucesso, aumentando a fortuna e a fama de Gianmatteo exponencialmente. Ele se torna o exorcista mais procurado da região.
Seção 7: A Posse na França e o Perigo
A fama de Gianmatteo chega à França, onde Belfagor possui a filha do rei Luís VII. O rei, desesperado, manda buscar Gianmatteo, prometendo-lhe riquezas e honrarias se ele conseguir libertar sua filha, e ameaçando-o com a morte se ele falhar ou se recusar. Gianmatteo viaja à França, e antes de realizar o exorcismo, exige uma parte significativa da recompensa. Belfagor, dentro da princesa, reclama com Gianmatteo, dizendo que já o ajudou o suficiente e que está cansado de cumprir sua parte do acordo. Ele adverte que na próxima vez, não sairá tão facilmente. Mesmo assim, Gianmatteo executa o exorcismo, e o demônio parte, libertando a princesa. O rei, aliviado, cumula Gianmatteo de bens e honras, mas o proíbe de deixar a França, alertando que, caso sua filha seja possuída novamente, a vida de Gianmatteo estará em jogo.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Luís VII (Rei de França) | Monarca francês. | Poderoso, grato, mas também autoritário e capaz de ameaçar para conseguir o que quer. |
| A Filha do Rei | Princesa francesa, vítima das possessões. | Inocente, ferramenta para o plano de Belfagor e Gianmatteo. |
Seção 8: O Confronto Final e o Retorno ao Inferno
Não demora para que a filha do rei seja possuída novamente por Belfagor. Gianmatteo é chamado e fica aterrorizado, lembrando-se da ameaça de Belfagor. Ele pede um atraso de alguns dias, o que lhe é concedido. Nesse tempo, ele elabora um plano audacioso. No dia do exorcismo, ele ordena que uma grande orquestra e todos os tocadores de trombetas do reino se posicionem perto da câmara da princesa, prontos para tocar no seu sinal. Quando Gianmatteo começa o exorcismo, Belfagor zomba dele, recusando-se a partir. Gianmatteo, então, dá o sinal, e um ruído ensurdecedor irrompe. Belfagor, surpreso, pergunta a causa de tamanho alarido. Gianmatteo, com uma voz de pânico forçado, grita: "É Monna Onesta, sua esposa, que vem procurá-lo! Ela descobriu onde você está e vem te arrastar de volta!"
O nome de Monna Onesta, sua esposa, causa um terror indizível em Belfagor. Sem pensar duas vezes, o arquidemônio foge imediatamente do corpo da princesa e retorna ao Inferno, preferindo as chamas e as torturas do submundo à perspectiva de ter que lidar novamente com sua mulher.
Seção 9: O Relato Final de Belfagor
De volta ao Inferno, Belfagor se apresenta diante de Plutão e de todo o conselho de demônios. Ele conta sua experiência, desde o casamento com Monna Onesta até a fuga desesperada e o estratagema de Gianmatteo. Belfagor confessa que as lamentações dos homens eram totalmente justificadas. Ele declara solenemente que o pior tormento na Terra não é a pobreza, a doença ou a perseguição, mas sim a vida ao lado de uma mulher orgulhosa, gastadora e manipuladora. Ele afirma que as torturas do Inferno, por mais cruéis que sejam, são preferíveis à miséria e ao sofrimento que uma mulher má pode infligir. Com isso, Belfagor confirma a tese de que as mulheres são, de fato, a principal causa da perdição de muitos homens e da afluência de almas ao Inferno.
Gênero literário: Novela satírica, conto filosófico, fábula moral.
Dados do autor:
Niccolò Machiavelli (1469-1527) foi um historiador, filósofo, humanista, diplomata e escritor italiano do Renascimento. É considerado o pai da ciência política moderna. Sua obra mais famosa é "O Príncipe", um tratado sobre o poder político. Machiavelli serviu como secretário da Segunda Chancelaria de Florença, responsável por assuntos militares e diplomáticos, o que lhe deu vasta experiência em questões de estado e natureza humana. Suas obras frequentemente exploram temas de poder, moralidade, fortuna e virtude, muitas vezes com um tom pragmático e cínico. "Belfagor arcidiavolo" (ou "Il demonio che prese moglie") é uma de suas obras menores, escrita por volta de 1518, mas que revela seu humor e sua visão crítica da sociedade.
Moral da história:
A moral principal da história é a de que os infortúnios e as "dores de cabeça" causadas por uma mulher má (vaidosa, orgulhosa, gastadora, manipuladora) podem ser piores do que as piores torturas imagináveis, até mesmo as do Inferno. A novela satiriza a condição humana e, em particular, os problemas do casamento e o poder destrutivo da vaidade e da extravagância femininas (na perspectiva misógina da época). Ela sugere que a astúcia e a inteligência podem superar até mesmo o poder demoníaco.
Curiosidades:
- Nome: O título completo e original em italiano é "Novella di Belfagor Arcidiavolo" ou também "Il demonio che prese moglie" (O demônio que tomou esposa).
- Influência: A história de um demônio que vem à Terra e é atormentado por uma mulher não é totalmente original de Machiavelli. Ele se inspirou em contos populares medievais e fábulas sobre demônios e seres sobrenaturais que interagem com o mundo humano, muitas vezes com resultados humorísticos ou satíricos.
- Crítica Social: Embora seja um conto divertido, "Belfagor arcidiavolo" reflete a visão cínica e pragmática de Machiavelli sobre a natureza humana e a sociedade. Pode ser lido como uma crítica satírica às convenções sociais, aos casamentos por interesse e à hipocrisia das elites.
- Misoginia: A obra, como muitas de sua época, apresenta uma visão bastante misógina das mulheres, retratando-as como fontes de infortúnio e perdição para os homens. É importante contextualizar isso com os valores culturais do Renascimento.
- Popularidade: O conto foi bastante popular e influenciou outros escritores e artistas. Existem diversas adaptações e reinterpretações de "Belfagor" ao longo dos séculos, incluindo óperas e filmes.
