El ingenuo - Voltaire

Resumo

"O Ingênuo" é um romance filosófico de Voltaire que narra a história de um jovem Huron (nativo americano) que chega à Bretanha, França, no século XVII. Criado na natureza e desprovido dos preconceitos e convenções da sociedade europeia, o Ingênuo é confrontado com a hipocrisia, a corrupção e a irracionalidade das instituições francesas, incluindo a Igreja e o Estado. Ele se apaixona por Mademoiselle de Saint-Yves, sua bela madrinha, e sua busca por casamento e justiça o leva a Paris e à Bastilha. Lá, ele é educado por um velho jansenista, Gordon, e sua razão natural se aprimora, transformando-o num crítico perspicaz da sociedade. O sacrifício trágico de Mlle de Saint-Yves, que se prostitui para libertá-lo, expõe a depravação da corte e o alto custo da virtude em um mundo corrompido. O livro é uma sátira mordaz da França do Iluminismo, usando a perspectiva do "bom selvagem" para questionar a "civilização" europeia.

Seções do livro

Seção 1

Um jovem, conhecido apenas como o Ingênuo, desembarca na Bretanha, França. Ele é um Huron, um nativo americano, criado no Canadá, e chega à Europa sem conhecimento das suas complexas convenções sociais, religiosas ou políticas. Sua aparência, sua força física e sua fala direta e sem rodeios causam espanto nos habitantes locais. Ele é recebido por um prior benevolente, o Prior de Versac, e sua irmã, Mademoiselle de Kerkabon. Ao descobrirem uma antiga ligação familiar entre o Huron e a família Kerkabon, percebem que ele é, de fato, sobrinho do Prior. O Ingênuo é imediatamente cativado pela sobrinha do Prior e de Mademoiselle de Kerkabon, a bela e inteligente Mademoiselle de Saint-Yves.

Personagem Características Personalidade
O Ingênuo (Huron) Jovem, atlético, forte, desconhecedor das convenções sociais europeias, fala direta e sincera. Honesto, ingênuo (no sentido de inocente e sem malícia), guiado pela razão natural e pelos costumes de sua terra natal.
Prior de Versac Eclesiástico, culto, benevolente, bem-intencionado. Um homem de Deus, mas um tanto ingênuo em sua compreensão do mundo exterior, representa a bondade da Igreja provinciana.
Mlle de Kerkabon Irmã do Prior, solteira, piedosa, um tanto provinciana. Ingênua, carinhosa, mas também presa às convenções e escrúpulos religiosos.
Mlle de Saint-Yves Jovem, bela, inteligente, sobrinha do Prior e Mlle de Kerkabon. De coração puro, sensível, vivaz, representa a beleza e a virtude feminina.

Seção 2

O Ingênuo decide se converter ao cristianismo, mas o faz à sua própria maneira. Ele insiste em ser batizado por imersão total, como os primeiros cristãos, e não por aspersão, o que causa grande escândalo entre os eclesiásticos locais. Sua lógica simples e sua recusa em aceitar dogmas sem questionamento desafiam a autoridade religiosa. Após o batismo, ele se apaixona abertamente por Mlle de Saint-Yves, sua madrinha. Seguindo os costumes de sua tribo, onde uma "salvação" ou um "laço" implica casamento, ele acredita que seu batismo a conecta a ele de forma indissolúvel e que eles devem se casar imediatamente. Essa exigência causa um novo escândalo e constrangimento para a família, pois o casamento entre padrinhos era proibido pela Igreja Católica.

Seção 3

Apesar das proibições e da desaprovação, o Ingênuo demonstra sua coragem e senso de justiça natural. Quando um grupo de huguenotes (protestantes franceses) está sendo perseguido por dragões do rei (soldados católicos), o Ingênuo, sem entender as nuances da guerra religiosa, intervém para protegê-los, lutando bravamente e derrotando os soldados. Sua ação, embora heroica do ponto de vista da razão natural, é vista pelas autoridades como um ato de sedição e heresia, o que aumenta seus problemas com o governo e a Igreja.

Seção 4

Para resolver sua situação e obter a permissão para se casar com Mlle de Saint-Yves, o Ingênuo decide ir diretamente a Versalhes para falar com o rei e seus ministros. Ele é aconselhado por um jesuíta, o Padre Tout-à-tous, a procurar a ajuda de um influente jesuíta na corte. Mlle de Saint-Yves, preocupada, faz com que ele prometa que, se ele falhar, ela irá segui-lo.

Personagem Características Personalidade
Père Tout-à-tous Jesuíta, um tanto oportunista, conhecedor dos meandros da corte e da política clerical. Pragmático, astuto, representa a face mais mundana e política da Igreja, capaz de aconselhar para seu próprio benefício.

Seção 5

Ao chegar em Versalhes, o Ingênuo é imediatamente preso e enviado à Bastilha. Suas ações anteriores – defender huguenotes, questionar o batismo, desejar casar-se com sua madrinha e suas cartas diretas e sem cerimônias para o rei – são interpretadas como um perigo para o Estado e a Igreja. Sua honestidade e franqueza são totalmente mal compreendidas pelo ambiente corrupto e cheio de intrigas da corte.

Seção 6

Na prisão da Bastilha, o Ingênuo conhece um velho jansenista chamado Gordon. Gordon, um homem culto e perspicaz, torna-se o mentor do Ingênuo. Ele o educa em filosofia, história, matemática, astronomia e, acima de tudo, na complexidade e nas contradições da civilização europeia. O Ingênuo, com sua mente naturalmente lógica e livre de preconceitos, absorve o conhecimento rapidamente e, ao mesmo tempo, critica as absurdas convenções e injustiças que aprende sobre o mundo exterior. Gordon, por sua vez, redescobre sua própria fé e razão através da perspectiva pura do Ingênuo.

| Personagem | Características | Personalidade |
| Gordon | Velho, erudito, filósofo jansenista, perspicaz, moralista, preso por suas opiniões. | Crítico da corrupção social e eclesiástica, sábio, paciente, ele vê no Ingénu uma mente pura capaz de entender suas verdades. |
| M. de Saint-Pouange | Ministro influente na corte, poderoso, mas corrupto e libertino. | Representa a depravação moral e o abuso de poder da aristocracia na corte francesa, interessado em seus próprios prazeres. |

Seção 7

Mademoiselle de Saint-Yves, desesperada com a ausência do Ingênuo e preocupada com seu destino, decide viajar para Versalhes com sua tia, Mlle de Kerkabon, para procurá-lo. Após muitas dificuldades, ela descobre que ele está aprisionado na Bastilha. Ela tenta por todos os meios obter sua libertação, mas encontra a indiferença e a crueldade da burocracia e da corte. Ela é apresentada a M. de Saint-Pouange, um poderoso ministro, que parece ser a única pessoa capaz de influenciar a libertação do Ingênuo.

Seção 8

M. de Saint-Pouange, aproveitando-se do desespero de Mlle de Saint-Yves, exige um preço hediondo pela liberdade do Ingênuo: ele exige que ela ceda aos seus desejos sexuais. Após uma terrível luta interna entre seu amor e seu senso de honra, e movida pela crença de que é a única maneira de salvar o homem que ama, Mlle de Saint-Yves, com o coração partido, sacrifica sua virtude e honra pessoal.

Seção 9

O Ingênuo é finalmente libertado da Bastilha. Ao reencontrar Mlle de Saint-Yves, ele inicialmente não entende a natureza de seu sacrifício e, com sua mente ainda ligada às noções de honra de sua terra natal, sente-se confuso e ultrajado. No entanto, Gordon, que também é libertado, o ajuda a compreender a profundidade do amor e do sacrifício de Mlle de Saint-Yves. O Ingênuo percebe então a verdadeira nobreza de seu ato, que transcende as hipócritas convenções sociais.

Seção 10

A humilhação e o desgosto do sacrifício de Mlle de Saint-Yves, combinados com a desilusão com o mundo europeu, a levam a uma doença grave. Ela morre pouco depois, uma vítima da depravação da corte e das falsas noções de honra. Em seu leito de morte, ela pede ao Ingênuo que ele se lembre de seu amor e que ele viva uma vida honrada, protegendo sua memória. Sua morte é um lamento trágico sobre a inocência e a virtude esmagadas pela crueldade da sociedade.

Seção 11

Após a morte de Mlle de Saint-Yves, o Ingênuo, agora mais sábio, mas também mais cínico sobre o mundo europeu, dedica-se a honrar a memória dela. Ele e Gordon se tornam figuras mais respeitadas, com o Ingênuo ganhando uma posição no exército e Gordon sendo liberado de suas acusações. O Ingênuo, antes um "selvagem" ingênuo, é agora um homem iluminado pela razão e pela experiência, capaz de navegar no mundo, embora com um coração marcado pela tragédia. A história termina com o Ingênuo e Gordon lamentando as injustiças e a hipocrisia que testemunharam, mas também encontrando um propósito em suas novas vidas, aplicando a razão e a moralidade que aprenderam.

Gênero literário

Romance filosófico, Conto filosófico, Sátira, Romance de formação (Bildungsroman).

Dados do autor

François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire (1694-1778), foi um escritor, filósofo, dramaturgo e historiador francês. Uma das figuras centrais do Iluminismo francês, Voltaire foi um defensor apaixonado da liberdade de expressão, da tolerância religiosa e da separação entre Igreja e Estado. Ele criticou veementemente a tirania, a superstição e a hipocrisia das instituições de sua época, usando a sátira e o sarcasmo como suas principais armas literárias. Suas obras mais famosas incluem "Cândido ou o Otimismo", "Zadig ou o Destino", "Cartas Filosóficas" e o "Dicionário Filosófico". Ele passou grande parte de sua vida exilado ou longe de Paris devido às suas críticas abertas ao poder.

Moral da história

A moral principal de "O Ingênuo" é uma crítica severa à hipocrisia, à intolerância religiosa e à corrupção da sociedade europeia do século XVII (uma alegoria para a França do século XVIII de Voltaire). Através dos olhos do Ingênuo, um homem da natureza, Voltaire expõe a artificialidade, os preconceitos e a irracionalidade das convenções sociais, dos dogmas religiosos e da justiça arbitrária. O livro defende a razão natural, a simplicidade e a bondade intrínseca do ser humano contra a depravação e a crueldade da "civilização". A história também ressalta a tragédia da inocência e da virtude quando confrontadas com um sistema corrupto e implacável, exemplificado pelo sacrifício de Mlle de Saint-Yves. A verdadeira sabedoria, sugere Voltaire, é adquirida através da experiência crítica e da reflexão sobre as injustiças do mundo.

Curiosidades do livro

  • Crítica à Sociedade: "O Ingênuo" é uma das obras mais diretas de Voltaire em sua crítica às instituições francesas da época. Ele atacou a Igreja (especialmente os jesuítas e a prática do batismo obrigatório), a injustiça da prisão arbitrária (a Bastilha era um símbolo disso), a corrupção da corte e os preconceitos sociais.
  • O "Bom Selvagem": A figura do Ingênuo, um nativo americano que chega à Europa, é um exemplo clássico do "bom selvagem" (bon sauvage), um tropo literário popular no Iluminismo. Ele serve como um espelho para a sociedade europeia, revelando suas falhas e absurdos através de sua perspectiva não corrompida.
  • Publicação e Censura: Publicado em 1767, o livro circulou anonimamente para evitar a censura real e eclesiástica, que Voltaire frequentemente enfrentava. Suas ideias eram consideradas subversivas, e ele tinha experiência em ser perseguido por suas opiniões.
  • Tragédia de Saint-Yves: A história de Mademoiselle de Saint-Yves é particularmente comovente e controversa. Seu sacrifício final para libertar o Ingênuo é uma crítica brutal à posição da mulher na sociedade da época e à natureza predatória do poder. É um dos finais mais trágicos e menos "otimistas" da obra de Voltaire, contrastando com o final mais ambíguo de "Cândido".
  • Elementos Autobiográficos: A experiência do Ingênuo na Bastilha e sua educação por Gordon podem ser vistos como reflexos das próprias experiências de Voltaire com a prisão e sua busca por conhecimento.
  • Aplicações da Razão: O romance ilustra como a razão, mesmo uma "razão natural" não instruída pelas convenções europeias, pode ser uma ferramenta poderosa para questionar e entender o mundo, mas também como a razão pura pode ser esmagada pela crueldade e irracionalidade do poder estabelecido.