Enrique VIII - William Shakespeare

Resumo

A peça "Henrique VIII" de William Shakespeare (muitas vezes intitulada "Tudo é Verdade") dramatiza os eventos que levaram ao divórcio do Rei Henrique VIII da Rainha Catarina de Aragão, seu casamento com Ana Bolena e a subsequente separação da Inglaterra da Igreja Católica Romana. A trama começa com a queda do Duque de Buckingham, orquestrada pelo ambicioso Cardeal Wolsey, o principal conselheiro do Rei.

Enquanto Wolsey desfruta de seu poder, o Rei Henrique começa a questionar a validade de seu casamento com Catarina, pois ela não lhe deu um herdeiro masculino vivo e foi casada anteriormente com seu irmão falecido. Wolsey, vendo uma oportunidade de aumentar sua influência e talvez fortalecer laços com a França, encoraja o divórcio. No entanto, ele não prevê que Henrique se apaixonará por Ana Bolena.

Catarina defende sua honra e a legitimidade de seu casamento no tribunal, apelando à autoridade papal. Mas Henrique, determinado a ter um filho e impaciente com os atrasos do Vaticano, toma o assunto em suas próprias mãos. O orgulho e a ambição de Wolsey acabam por levá-lo à ruína quando Henrique descobre que ele vinha secretamente se opondo ao casamento com Ana Bolena e acumulando riquezas. Wolsey é deposto e morre pouco depois, um homem quebrado.

Ana Bolena é coroada Rainha, e Catarina, exilada e adoecida, morre em paz, reafirmando sua fé e a validade de seu primeiro casamento. A peça culmina com o batizado da Princesa Elizabeth (futura Rainha Elizabeth I), com o Arcebispo Thomas Cranmer profetizando um futuro glorioso para a criança e para a Inglaterra sob seu reinado. A peça explora temas de ambição, queda, fé, poder real e a fundação de uma nova era para a monarquia inglesa.

Seções do livro

Seção 1: Ato I, Cena 1 - 4

A peça começa com o Duque de Norfolk e o Duque de Buckingham discutindo a recente reunião entre Henrique VIII e o Rei Francisco I da França, conhecida como o Campo do Pano de Ouro. Eles criticam o Cardeal Wolsey, atribuindo a ele o alto custo e a vaidade do evento, e expressam desdém por sua ascensão meteórica e sua arrogância. Buckingham o acusa de abuso de poder e de ter planos traiçoeiros. Wolsey entra e, ao ouvir as críticas, ordena a prisão de Buckingham por traição, baseando-se em testemunhos questionáveis de seu ex-supervisor e um monge. Buckingham é levado sob custódia, para o choque dos outros nobres.

Na segunda cena, a Rainha Catarina de Aragão confronta o Rei Henrique VIII sobre os novos impostos impostos aos seus súditos, que estão causando grande sofrimento. Wolsey é inicialmente culpado, mas astutamente joga a culpa no Duque de Buckingham, sugerindo que ele havia influenciado o rei contra o povo. Henrique, impressionado com a preocupação de Catarina, revoga os impostos. No entanto, Wolsey, em particular, já havia orquestrado a prisão de Buckingham e agora se sente ainda mais seguro em sua posição.

A terceira cena mostra o Cardeal Wolsey e seus associados discutindo um baile que ele dará. O Cardeal se orgulha de sua influência sobre o Rei e de como ele pode manipulá-lo.

A quarta cena descreve um banquete e baile luxuoso na casa de Wolsey. O Rei Henrique VIII, disfarçado, chega com um grupo e é calorosamente recebido. É durante este evento que Henrique conhece a jovem Ana Bolena, dama de honra da Rainha, e fica visivelmente encantado por ela. Esta cena planta a semente de um futuro romance real.

Personagem Características e Personalidade
Rei Henrique VIII Voluntarioso, facilmente influenciável por seus conselheiros (especialmente Wolsey no início), mas capaz de agir com benevolência (revogando impostos). Busca prazer e companhia, como visto em seu interesse por Ana Bolena. Forte desejo por um herdeiro masculino.
Rainha Catarina de Aragão Digna, moralmente íntegra, piedosa, justa, compassiva com o povo. Defende a justiça e os direitos dos súditos, mas é vulnerável às maquinações políticas. Carrega um profundo senso de dever e honra.
Cardeal Wolsey Ambicioso, inteligente, astuto, manipulador, orgulhoso, sedento por poder e influência. Ele usa sua posição para enriquecer e remover rivais, como Buckingham. Subestima a força da vontade do Rei a longo prazo e a ascensão de outros.
Duque de Buckingham Nobre, orgulhoso, franco e imprudente em suas críticas a Wolsey. Representa a antiga nobreza que se ressente da ascensão de Wolsey. Vítima da inveja e da intriga.
Ana Bolena Inteligente, charmosa, atraente. Inicialmente uma dama de companhia, mas rapidamente capta a atenção do Rei. Ambiciosa ou simplesmente receptiva à atenção real, sua ascensão é um ponto central da trama.
Duque de Norfolk Membro da velha nobreza, desconfia e se opõe ao Cardeal Wolsey, mas de forma mais contida que Buckingham. Aliado dos que se oporão a Wolsey.
Duque de Suffolk Semelhante a Norfolk, um nobre que se opõe a Wolsey.

Seção 2: Ato II, Cena 1 - 4

O Ato II começa com o Duque de Buckingham sendo levado para sua execução. Ele aceita seu destino com dignidade e perdão para aqueles que o traíram, aconselhando os presentes a evitar a inveja e a ambição. Sua morte é um exemplo da impiedosa política de Wolsey.

Na segunda cena, o Rei Henrique expressa suas crescentes dúvidas sobre a legalidade de seu casamento com Catarina, citando a proibição bíblica de casar com a esposa do irmão. Wolsey e o Cardeal Campeius, um legado papal, são convocados para discutir o assunto. Wolsey, vendo uma oportunidade de fortalecer a aliança com a França, encoraja o divórcio, embora ele, no fundo, tenha seus próprios planos para a próxima rainha.

Na terceira cena, Ana Bolena conversa com uma velha senhora, lamentando a posição de Rainha. A velha senhora, com sua sagacidade, a provoca sobre os rumores do interesse do Rei. Ana, inicialmente relutante em aceitar a possibilidade, acaba sendo informada de que foi nomeada Marquesa de Pembroke, com uma renda considerável. Ela começa a aceitar a ideia de seu futuro elevado.

A quarta cena é o ponto culminante do julgamento de divórcio, realizado em um tribunal eclesiástico com os legados papais Wolsey e Campeius presidindo. O Rei Henrique apresenta seu caso, expressando a perturbação de sua consciência. A Rainha Catarina recusa-se a reconhecer a jurisdição do tribunal, afirmando a validade de seu casamento de vinte anos e sua honra imaculada. Ela faz um apelo emocional e direto ao Rei e à sua consciência, antes de se recusar a participar e sair do tribunal, para o choque dos presentes. Ela declara que não será julgada na Inglaterra e que apelará diretamente ao Papa.

Personagem Características e Personalidade
Cardeal Campeius Legado papal enviado pelo Papa para presidir o julgamento do divórcio. Cauteloso, diplomático, busca seguir a lei canônica, mas também está ciente das pressões políticas do Rei. Tenta ser imparcial, mas está preso entre Henrique e Roma.
Velha Senhora Dama de companhia de Ana Bolena. Witty, perspicaz e pragmática. Oferece conselhos realistas e um toque de humor, encorajando Ana a aceitar a fortuna que se aproxima.

Seção 3: Ato III, Cena 1 - 2

Na primeira cena do Ato III, os cardeais Wolsey e Campeius visitam a Rainha Catarina em sua residência, tentando persuadi-la a aceitar a anulação do casamento. Catarina, no entanto, permanece firme em sua posição, acusando Wolsey de ser seu inimigo e de instigar o processo de divórcio por motivos egoístas. Ela defende a legitimidade de seu casamento e recusa-se a desistir de seu título de Rainha. Apesar da pressão dos cardeais, ela se mantém digna e inabalável em sua convicção.

A segunda cena marca a queda do Cardeal Wolsey. Henrique VIII, já impaciente com a lentidão do processo de divórcio e influenciado por Ana Bolena e outros nobres que detestam Wolsey (Norfolk, Suffolk, Surrey), descobre cartas incriminatórias. Uma delas revela as maquinações de Wolsey para evitar o casamento de Henrique com Ana e outra mostra sua vasta riqueza acumulada e planos para usurpar o poder real, inclusive ao se comunicar secretamente com o Papa para se tornar papa ele mesmo. Furioso, Henrique despoja Wolsey de seus cargos, confisca suas terras e o exílio de suas funções governamentais e eclesiásticas. Wolsey, ciente de sua ruína, lamenta sua queda e reflete sobre sua ambição e orgulho. Ele observa amargamente que, se tivesse servido a Deus com o mesmo zelo com que serviu ao Rei, Deus não o teria abandonado na velhice.

Personagem Características e Personalidade
Conde de Surrey Genro do Duque de Buckingham, busca vingança contra Wolsey por sua execução. É um dos principais nobres a se opor a Wolsey e a influenciar o Rei contra ele. Representa a facção anti-Wolsey da nobreza.

Seção 4: Ato IV, Cena 1 - 2

A primeira cena do Ato IV descreve a magnífica coroação de Ana Bolena como Rainha da Inglaterra, sucedendo Catarina. Dois cavalheiros observam a procissão e comentam sobre a suntuosidade do evento e a felicidade aparente do Rei. Eles também discutem o destino de Wolsey, confirmando sua completa ruína e queda em desgraça. A coroação simboliza a nova ordem e a vitória da vontade de Henrique e de Ana.

A segunda cena mostra a Rainha Catarina em sua casa em Kimbolton, doente e em reclusão. Seu criado, Griffith, relata-lhe a morte do Cardeal Wolsey. Inicialmente, Catarina expressa algum desprezo por seu antigo inimigo, mas Griffith a descreve com compaixão, revelando que Wolsey morreu com grande remorso e dignidade, reconhecendo seus erros e pedindo perdão a Deus. Isso amolece o coração de Catarina, que reconhece as virtudes que Wolsey possuía. Em sua agonia, Catarina tem uma visão de seis figuras celestiais que a consolam e prometem paz. Ela morre pouco depois, fazendo um último pedido para que sua filha, Mary, seja bem tratada e reafirmando que foi a legítima esposa de Henrique VIII, pedindo que o Rei reconheça isso em seu leito de morte.

Personagem Características e Personalidade
Griffith Servo e atendente de Catarina. Leal e compassivo. Traz notícias e consola a Rainha em sua doença, mostrando um lado mais humano da história. Sua descrição da morte de Wolsey revela sua capacidade de ver o bem e o mal nas pessoas.

Seção 5: Ato V, Cena 1 - 5

O Ato V começa com o Rei Henrique expressando sua preocupação com o Arcebispo Thomas Cranmer, que está sob ataque de facções conservadoras na corte, lideradas pelo Bispo Gardiner, que o acusam de heresia. Henrique confia em Cranmer e o valoriza, dando-lhe um anel para provar que ele tem o apoio real.

Na segunda cena, o Conselho Real tenta humilhar Cranmer, que é forçado a esperar na antecâmara como um mero servo. Gardiner e seus aliados o acusam de espalhar ideias heréticas e tentam removê-lo de seu cargo.

A terceira cena mostra o clímax do julgamento de Cranmer. Quando os conselheiros tentam prendê-lo, Cranmer mostra o anel do Rei, revelando o apoio de Henrique. O próprio Rei entra, furioso com o tratamento dado a Cranmer, e repreende severamente os nobres. Ele reafirma sua confiança em Cranmer e garante sua posição, humilhando seus oponentes.

Na quarta cena, há uma leve comédia sobre o tumulto do povo nas ruas para ver a princesa recém-nascida.

A quinta e última cena é o batizado da Princesa Elizabeth (a futura Rainha Elizabeth I). O Arcebispo Cranmer profere uma profecia gloriosa sobre o futuro da Inglaterra sob o reinado da jovem princesa. Ele prevê que ela trará paz, prosperidade, glória e grande fé ao seu reino, tornando-se uma governante amada e venerada, e que seu sucessor (Jaime I) continuará seu legado. A peça termina com uma nota otimista, celebrando o nascimento da futura Rainha e o destino da Inglaterra.

Personagem Características e Personalidade
Thomas Cranmer Arcebispo de Cantuária. Homem gentil, devoto, estudioso e íntegro. É um reformista, o que o torna alvo de intrigas políticas por parte dos conservadores. Sua lealdade ao Rei e sua fé o tornam um personagem resiliente, e ele é um instrumento importante na Reforma Inglesa. O Rei Henrique o protege consistentemente.
Bispo Gardiner Bispo de Winchester. Antigo secretário de Wolsey, mas agora é um dos principais oponentes de Cranmer. Representa a facção conservadora católica na corte. Ambicioso e politicamente astuto, ele tenta derrubar Cranmer.
Lord Chamberlain Um nobre que observa os acontecimentos da corte. Ele inicialmente se junta aos críticos de Cranmer, mas é o primeiro a ceder quando o apoio do Rei a Cranmer se torna evidente.

Informações Adicionais

Gênero literário
Drama Histórico, Tragédia (para alguns personagens, como Wolsey e Catarina), Tragicomédia (dada a resolução otimista com o nascimento de Elizabeth). É uma das peças de "História" de Shakespeare.

Dados do autor
William Shakespeare (1564-1616) foi um dramaturgo, poeta e ator inglês, amplamente considerado o maior escritor da língua inglesa e o maior dramaturgo do mundo. Ele é frequentemente chamado de bardo nacional da Inglaterra. Suas obras, incluindo 39 peças, 154 sonetos, dois longos poemas narrativos e vários outros versos, foram traduzidas para todas as principais línguas vivas e são encenadas com mais frequência do que as de qualquer outro dramaturgo. Henrique VIII foi escrita por volta de 1613, no final de sua carreira, e é frequentemente considerada uma colaboração com John Fletcher.

Moral da história
A moral da história em "Henrique VIII" é multifacetada.

  1. A Fragilidade do Poder e da Ambição: A queda do Cardeal Wolsey serve como um poderoso alerta contra a ambição desmedida e a confiança excessiva no poder secular. Ele perde tudo ao negligenciar seu dever espiritual em favor da política e do engrandecimento pessoal.
  2. A Impermanência da Fortuna Real: A peça demonstra como mesmo aqueles próximos ao trono podem cair em desgraça rapidamente, como Buckingham e Wolsey. A vontade do monarca é suprema, mas também volúvel.
  3. A Dignidade na Adversidade: A Rainha Catarina mantém sua dignidade e integridade moral até o fim, mesmo em face de grande injustiça. Sua firmeza e fé contrastam com a ambição de outros personagens, sugerindo que a honra pessoal é mais duradoura que a posição social.
  4. O Destino de uma Nação: A peça termina com uma visão otimista para a Inglaterra, personificada na Princesa Elizabeth, sugerindo que, apesar das turbulências e da dor pessoal, a nação está a caminho de uma era de glória e prosperidade sob a providência divina.

Curiosidades do livro

  • Colaboração: Acredita-se amplamente que "Henrique VIII" foi uma colaboração entre William Shakespeare e John Fletcher, um dramaturgo que o sucedeu como escritor principal dos King's Men (a companhia de teatro de Shakespeare). A análise estilística aponta para a autoria dividida, com Fletcher escrevendo uma parte significativa da peça.
  • O Incêndio do Globe Theatre: Durante uma das primeiras apresentações de "Henrique VIII" em 29 de junho de 1613, um canhão cenográfico usado para simular o disparo de salvas militares (durante a cena do banquete do Ato I, Cena 4, ou a coroação de Ana Bolena) disparou um projétil que incendiou o teto de palha do Globe Theatre. O teatro original foi completamente destruído, mas ninguém se feriu gravemente.
  • Título Alternativo: A peça era originalmente conhecida como "All Is True" (Tudo É Verdade), um título que sugere a intenção dos autores de retratar os eventos históricos com precisão, embora com a inevitável licença dramática.
  • Última Peça de Shakespeare?: Muitos acadêmicos consideram "Henrique VIII" como a última peça a qual Shakespeare contribuiu significativamente antes de se aposentar para Stratford-upon-Avon, embora sua autoria compartilhada complique essa afirmação.
  • Perspectiva Histórica: A peça é notável por sua representação relativamente simpática de Catarina de Aragão e Wolsey, e uma abordagem mais ambígua de Henrique VIII do que a propaganda Tudor pós-Reforma poderia sugerir. A profecia de Cranmer sobre Elizabeth I e Jaime I serve como uma homenagem política aos monarcas reinantes na época da escrita.