Jerusalém, A Emanaçāo do Gigante Albion - William Blake
Jerusalem The Emanation of the Giant Albion Resumo "Jerusalem The Emanation of the Giant Albion" é uma epopeia profética complexa e densam...
Jerusalem The Emanation of the Giant Albion
Resumo
"Jerusalem The Emanation of the Giant Albion" é uma epopeia profética complexa e densamente simbólica de William Blake, publicada entre 1804 e 1820. A obra é o clímax da mitologia pessoal de Blake e narra a queda e a eventual redenção de Albion, o homem arquetípico que representa a Grã-Bretanha e toda a humanidade. Albion, tomado pelo "Selfhood" (egoísmo e razão materialista), adormece e se separa de sua emanação, Jerusalém (que simboliza a liberdade, a imaginação, a cidade celestial e o espírito humano). O poema descreve a luta titânica de Los (o Profeta, a Imaginação e o Espírito da Arte) para despertar Albion, combatendo as forças da razão limitada (Urizen), da paixão enganosa (Vala) e do militarismo (Luvah/Orc). Através de um labirinto de visões míticas, alegorias históricas e ataques diretos à filosofia materialista de Bacon, Newton e Locke, Blake traça o caminho da humanidade através do sofrimento, da divisão e da religião legalista até a revelação da Divina Humanidade (Jesus) e o perdão universal. O poema culmina na ressurreição de Albion e na unificação de toda a vida na Imaginação Divina, restaurando a Jerusalém celestial.
Seções do livro
Seção 1 (Placas 1-25): Ao Público
A primeira seção de "Jerusalem" começa com uma invocação e estabelece o cenário da queda de Albion. Albion, o gigante que representa a humanidade e a Grã-Bretanha, está em um sono profundo de egoísmo e materialismo, tendo se separado de sua emanação divina, Jerusalém. Sua alma está dividida e doente. Los, a figura do Artista e Profeta Divino, lamenta profundamente a queda de Albion e se esforça incansavelmente para reverter a desintegração. Ele trabalha em seus fornos, forjando formas eternas e construindo Golgonooza, a Cidade da Arte e da Imaginação, como um refúgio e um meio para a redenção.
O poema descreve como as "Filhas de Albion" se tornam cruéis e as "Emanações" se separam de seus "Zoa" (as quatro faculdades primordiais do homem: Urizen – razão, Luvah – emoção, Tharmas – instinto, Urthona – imaginação/Los). A natureza se torna tirânica, e a paixão sexual se corrompe em ciúme e possessão. Blake introduz a ideia de que a "Fêmea Vontade" (Female Will) busca dominar o macho, levando à opressão e à degeneração. O Cristo, ou a Divina Humanidade, aparece esporadicamente como uma voz de perdão e salvação, apesar da cegueira de Albion. Los é atormentado por seu próprio Espectro e sua Emanação, Enitharmon, mas persiste em sua tarefa, mantendo viva a centelha da imaginação.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Albion | O homem arquetípico, representando a Grã-Bretanha e a humanidade como um todo. Possuía uma existência divina e unificada antes de sua queda. Agora está em sono profundo, fragmentado e em estado de egoísmo e materialismo. | Apático, adormecido, atormentado por culpa e vergonha. Sua queda é resultado de sua própria incapacidade de perdoar e amar, sucumbindo à razão limitada e ao "Selfhood". |
| Jerusalém | A Emanação de Albion, simbolizando a liberdade, a cidade celestial, a verdade divina, a imaginação, a igreja espiritual e o espírito humano. Separada de Albion, ela sofre e representa a busca pela união e redenção. | Pura, sofredora, amorosa, mas aprisionada e lamentando a separação de Albion. Ela é a personificação do desejo de unidade e amor incondicional. |
| Los | A figura do Artista Divino, o Profeta, a Imaginação e o quarto Zoa (Urthona) em sua forma caída. Ele é o construtor de Golgonooza (a Cidade da Imaginação) e o guardião da visão profética. | Apaixonado, resiliente, sofredor, determinado. Ele encarna a luta da criatividade e da visão contra a desintegração e o materialismo, persistindo em seu trabalho redentor apesar do desespero. |
| Urizen | O Zoa da Razão e da Lei. Antes da queda, era a faculdade de organização. Após a queda, ele se torna um tirano, criador de leis rígidas, religião dogmática e sistemas morais opressivos. | Rígido, frio, dogmático, legalista, cego para a imaginação e o perdão. Ele representa a razão materialista que tenta impor ordem através da restrição e do julgamento, sufocando a vida e a liberdade. |
| Vala | A Emanação de Luvah (o Zoa da Emoção/Paixão). Simboliza a beleza física, a natureza material e as ilusões sensoriais. Após a queda, ela se torna enganosa, sedutora e destrutiva, personificando a "Fêmea Vontade" em seu aspecto negativo. | Sedutora, enganosa, ciumenta, manipuladora. Ela representa a beleza do mundo natural que, quando separada do espírito, se torna uma armadilha para a alma, levando à idolatria da matéria e à subjugação do espírito. |
| Enitharmon | A Emanação de Los. Ela representa a beleza da forma, o tempo e o espaço, e a musa inspiradora para a criação artística. Frequentemente em conflito com Los, mas também sua companheira na luta criativa. | Criativa, bela, mas também pode ser egoísta e possessiva, refletindo as divisões internas de Los. Ela é tanto uma ajuda quanto um obstáculo na jornada criativa de Los. |
| Luvah | O Zoa da Emoção, Paixão e Amor. Em sua forma caída, ele se torna Orc, o espírito da revolução e do desejo aprisionado. Seu carro é roubado por Urizen, e sua essência é distorcida em conflito e guerra. | Apaixonado, vital, mas também propenso à fúria e à destruição quando corrompido ou aprisionado. Ele representa a energia do amor e do desejo que pode ser tanto criativa quanto destrutiva. |
| Tharmas | O Zoa do Instinto e do Corpo. Ele representa a base material da existência e as emoções mais primárias. Após a queda, ele se torna um espírito lamentoso e desorientado, perdendo sua emanação (Enion). | Melancólico, lamentoso, desorientado. Ele representa a parte mais elemental da existência que sofre profundamente com a desintegração e a perda da unidade. |
| Os Zoas | As quatro faculdades primordiais do homem (Urizen, Luvah, Tharmas, Urthona/Los), que deveriam trabalhar em harmonia. Após a queda de Albion, eles se desintegram e entram em conflito. | Coletivamente, suas personalidades refletem a condição fragmentada da humanidade, marcada por conflitos internos e externos, resultantes da perda da unidade e da harmonia divinas. |
| A Divina Humanidade (Jesus) | A figura de Cristo, não como um dogma religioso, mas como o princípio do perdão universal, do auto-sacrifício e da imaginação redentora. Ele é a essência do amor e da unidade. | Amoroso, perdoador, sacrificador, onipresente, a fonte de toda redenção e o verdadeiro "Self" que transcende o egoísmo. Ele representa a verdadeira natureza de Deus e do homem. |
| Espectros | São as formas egoístas e materialistas da razão e do "Selfhood" de cada indivíduo ou Zoa. Eles assombram e tentam aprisionar a alma. | Enganosos, argumentativos, negativos, críticos, tentam manter o indivíduo preso ao ego e à razão limitada, resistindo ao perdão e à libertação da imaginação. |
| Emanações | São as porções femininas e receptivas de cada ser, que deveriam estar unidas aos seus respectivos Zoas/homens. Representam a beleza, a inspiração e a forma exterior da verdade. Após a queda, elas se separam e se tornam objetos de posse ou crueldade. | As personalidades variam (Jerusalém é pura, Vala é enganosa, Enitharmon é criativa mas pode ser ciumenta), mas todas buscam a união com sua contraparte masculina para restaurar a harmonia e a plenitude. |
Seção 2 (Placas 26-50): Aos Judeus
Esta seção aprofunda as raízes da queda de Albion, explorando as consequências históricas e religiosas da divisão da humanidade. Blake se dirige "Aos Judeus", criticando as leis mosaicas e a religião sacrificial que, em sua visão, solidificaram a opressão e o materialismo. Ele argumenta que a imposição de uma moralidade externa (Urizen) e a veneração de um Deus tribal levaram à fragmentação do homem.
Los continua sua árdua batalha. Ele luta contra seu próprio Espectro, que o tenta com dúvida e desespero, e contra as Emanações que tentam subjugá-lo. As Filhas de Albion, transformadas em Tiranos (Rahab e Tirzah), governam com leis sexuais e rituais de sacrifício, construindo um sistema de terror e vergonha. Blake ataca filósofos como Bacon, Newton e Locke por promoverem uma visão materialista do universo que aprisiona a imaginação. A seção enfatiza o sofrimento de Jerusalém, que é torturada e aprisionada pelas forças da tirania e da religião legalista. Los, impulsionado por sua compaixão e visão profética, é o único que mantém a esperança de redenção, usando a dor e o sofrimento como combustível para seu trabalho criativo nos fornos.
Seção 3 (Placas 51-75): Aos Deístas
Blake direciona esta seção "Aos Deístas", criticando sua visão de um Deus distante e um universo governado por leis mecânicas, sem a participação ativa da Divina Imaginação. Ele argumenta que o Deísmo, ao negar o divino na humanidade e reduzir a religião a uma moralidade racional, falha em reconhecer a verdadeira natureza do perdão e do sacrifício.
A narrativa se concentra na figura de Jesus, a Divina Humanidade, que encarna o princípio do perdão universal e do auto-sacrifício. Blake mostra que o sacrifício de Jesus não é um ato de vingança divina, mas um ato de amor e misericórdia que revela a verdadeira identidade de Deus como perdão. Los continua sua obra, forjando o tempo e o espaço para que a redenção seja possível. Ele percorre as vastas "Cavernas de Albion", testemunhando a miséria e a desolação causadas pelo "Selfhood" de Albion. As Filhas de Albion e as Emanações, em suas formas mais pervertidas (Rahab e Tirzah), continuam a atormentar a humanidade com suas leis de moralidade e sacrifício. Los, apesar do sofrimento, mantém a chama da esperança acesa, vendo que a redenção virá através do reconhecimento do Divino na imaginação de cada indivíduo e da prática do perdão mútuo.
Seção 4 (Placas 76-100): Aos Cristãos
A seção final é dirigida "Aos Cristãos", exortando-os a abandonar o dogma e a religião externa em favor da verdadeira visão de Cristo como a Imaginação Divina e o perdão universal. É aqui que Blake apresenta sua visão final de redenção e unidade.
Albion está à beira da morte espiritual. Ele é salvo não por uma intervenção externa, mas por um ato de perdão e auto-sacrifício da Divina Humanidade (Jesus). Albion, ao ver o rosto de Jesus e perceber a futilidade de seu egoísmo e a beleza do perdão, finalmente acorda de seu sono. Ele joga sua espada nos "Furnos de Aflição" de Los, simbolizando a rejeição da guerra e da vingança. As divisões entre os Zoas, as Emanações e os Espectros começam a se curar. Todos os seres se reúnem na "Grande Ceia do Cordeiro", não como seres separados, mas como partes unificadas da Divina Humanidade. A visão culmina na reunificação de Albion com Jerusalém, a restauração da imaginação e do amor incondicional. O universo se transforma, e a existência é percebida como uma eterna troca de amor e perdão dentro do corpo de Deus, que é o Homem Divino. A Jerusalém celestial é estabelecida na terra, e toda a criação é vista como uma manifestação da Imaginação Divina.
Gênero literário
Poema épico profético, poesia visionária, simbolismo, mitologia, alegoria, ensaio filosófico.
Dados do autor
William Blake (1757-1827) foi um poeta, pintor e gravador inglês, uma figura central na era Romântica, embora muitas vezes considerado à margem de seu tempo devido à sua visão única e mística. Ele rejeitou a racionalidade do Iluminismo e a hipocrisia da Igreja e do Estado, desenvolvendo uma complexa mitologia pessoal que explorava temas de religião, política, moralidade e arte. Blake acreditava na supremacia da imaginação sobre a razão e via o mundo material como uma sombra da realidade espiritual. Suas obras, incluindo "Canções de Inocência e de Experiência", "O Casamento do Céu e do Inferno" e seus "Livros Proféticos", são conhecidas por sua profundidade simbólica, complexidade lírica e ilustrações deslumbrantes, que ele mesmo gravava.
Moraleja
A principal moral de "Jerusalem" é a indispensável necessidade do perdão universal e do amor mútuo para a redenção da humanidade. Blake argumenta que a razão limitada (Urizen), o egoísmo ("Selfhood"), a religião dogmática e o materialismo levam à fragmentação, ao sofrimento e à separação do homem de sua própria divindade. A salvação não vem de leis externas ou sacrifícios rituais, mas de um ato interior de auto-sacrifício da própria vontade e do perdão ilimitado, que é o coração da Divina Humanidade (Jesus). Através da imaginação (Los) e da arte, a humanidade pode superar suas divisões e se reunir em uma unidade espiritual, onde todos são um no Corpo de Deus, que é o Homem.
Curiosidades
- "Jerusalem" é a mais longa e complexa das obras proféticas de Blake, consistindo de 100 placas gravadas com texto e ilustrações. A obra foi criada através de um método de "impressão iluminada" inventado por Blake, no qual ele gravava tanto o texto quanto as imagens em placas de cobre, que eram então impressas e coloridas à mão.
- Devido à complexidade e ao método de produção artesanal, apenas um punhado de cópias de "Jerusalem" foram feitas em vida de Blake, e a obra permaneceu amplamente desconhecida e incompreendida por décadas após sua morte.
- Blake se via como um profeta, e suas obras proféticas como "Jerusalem" são uma tentativa de criar uma nova Bíblia ou mitologia para a Inglaterra, que ele acreditava ter se perdido no materialismo e na opressão.
- O poema se refere a lugares geográficos da Grã-Bretanha, misturando-os com elementos de sua própria cosmologia, sugerindo que a queda e a redenção de Albion não são apenas eventos míticos, mas também se desenrolam na paisagem e na história da Inglaterra.
- A leitura de "Jerusalem" é notoriamente desafiadora devido à sua densidade simbólica, às reviravoltas na mitologia de Blake e à sua estrutura não linear. É uma obra que recompensa múltiplas leituras e estudo aprofundado.
