João - William Shakespeare
Resumo A peça "Rei João" de William Shakespeare explora um período tumultuado da história inglesa, centrando-se no reinado de João Sem Terr...
Resumo
A peça "Rei João" de William Shakespeare explora um período tumultuado da história inglesa, centrando-se no reinado de João Sem Terra, irmão de Ricardo Coração de Leão. A trama começa com a legitimidade do Rei João sendo contestada pelo embaixador francês, que apoia as reivindicações de seu sobrinho Arthur, Duque da Bretanha, como herdeiro legítimo do trono inglês. Isso leva a um conflito com a França, liderada pelo Rei Filipe, que insiste na sucessão de Arthur.
Em meio à guerra, João busca uma aliança com a França através do casamento de sua sobrinha Blanche com Luís, o Delfim francês. No entanto, a intervenção do Cardeal Pandulph, legado papal, complica ainda mais a situação. João desafia a autoridade do Papa, resultando em sua excomunhão e na subsequente instigação de uma nova invasão francesa por Pandulph.
Arthur, capturado por João, é destinado a uma morte cruel nas mãos de Hubert de Burgh, mas a compaixão de Hubert salva-o momentaneamente. No entanto, Arthur morre ao tentar escapar, o que causa grande consternação entre os nobres ingleses, muitos dos quais desertam para o lado francês. A Inglaterra está em crise, com a invasão francesa iminente e a lealdade dos barões dividida.
Desesperado, João submete-se ao Papa. Ele é posteriormente envenenado por um monge. Com a morte de João, seu filho, o jovem Henrique III, é coroado. Os nobres ingleses, desiludidos com a perfídia francesa e inspirados pelo patriotismo, unem-se em torno do novo rei para defender a Inglaterra, prometendo lealdade e soberania nacional.
Seções do livro
Seção 1
A peça começa na corte do Rei João da Inglaterra. Um embaixador francês, Chatillon, chega para apresentar uma exigência do Rei Filipe da França: João deve renunciar ao trono em favor de seu jovem sobrinho, Arthur, Duque da Bretanha, que é o herdeiro legítimo segundo a primogenitura. João se recusa categoricamente, declarando sua intenção de defender sua coroa com a espada.
Em seguida, uma disputa familiar é apresentada. Lady Faulconbridge chega com seus dois filhos, Robert e Philip. Robert acusa seu irmão Philip de ser ilegítimo, nascido de um caso entre sua mãe e o falecido Rei Ricardo Coração de Leão. A Rainha Elinor, mãe de João, reconhece a semelhança de Philip com Ricardo. João, divertido e reconhecendo o potencial militar de Philip, oferece-lhe um título e terras se ele renunciar ao seu nome Faulconbridge e se tornar Ricardo Plantagenet, "o Bastardo" do rei Ricardo. Philip aceita prontamente, abraçando sua nova identidade e lealdade a João.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Rei João | Rei da Inglaterra, irmão de Ricardo Coração de Leão. | Ambicioso, astuto, determinado, propenso a decisões impulsivas, mas também inseguro em relação à sua legitimidade. |
| Rainha Elinor | Mãe do Rei João e de Ricardo Coração de Leão. | Forte, influente, protetora de seu filho João, com grande autoridade e sabedoria política. |
| Arthur, Duque da Bretanha | Sobrinho do Rei João, filho de Geoffroy, irmão mais velho de João. | Jovem e inocente, uma figura de peão nas disputas políticas, herdeiro legítimo do trono inglês. |
| Constança | Mãe de Arthur. | Apaixonada, protetora ferrenha de seu filho, dramática, cheia de dor e indignação. |
| Filipe, o Bastardo (Ricardo Plantagenet) | Filho ilegítimo de Ricardo Coração de Leão. | Corajoso, espirituoso, observador, cínico sobre a política, mas leal a quem lhe concede poder e reconhecimento. |
| Rei Filipe da França | Rei da França. | Estrategista, manipulador, busca expandir a influência francesa e usa Arthur como pretexto para a guerra. |
| Chatillon | Embaixador do Rei Filipe da França. | Mensageiro formal e direto, representa a posição francesa. |
| Robert Faulconbridge | Filho legítimo de Lady Faulconbridge. | Ciumento, preocupado com a herança familiar e a honra. |
| Lady Faulconbridge | Mãe de Robert e Philip. | Mulher de segredos, que guarda a verdade sobre a paternidade de Philip. |
Seção 2
As forças inglesas e francesas, incluindo o Duque da Áustria (que matou Ricardo Coração de Leão e porta sua pele de leão, um detalhe historicamente impreciso para esta peça), chegam à cidade de Angiers, na França. As muralhas da cidade estão guarnecidas, e os cidadãos de Angiers se recusam a abrir seus portões para qualquer um dos reis, a menos que provem sua legitimidade ao trono inglês.
O Rei Filipe da França exige que João ceda o trono a Arthur. João recusa, e ambos os reis se preparam para a batalha. O Bastardo ridiculariza o Duque da Áustria. A batalha começa, mas nenhum lado consegue uma vitória decisiva. Os cidadãos de Angiers, que observam do alto, continuam a se recusar a reconhecer qualquer um dos reis.
Um cidadão idoso de Angiers propõe uma solução: que os dois reis unam suas forças para atacar a cidade. Depois que a cidade for tomada, eles podem dividir os despojos e então lutar novamente entre si para ver quem terá o controle. O Bastardo, desiludido com a moralidade da guerra e a hesitação dos reis, critica a hipocrisia e a ganância.
No entanto, a Rainha Elinor e o Rei Filipe da França propõem uma solução alternativa e mais pacífica: um casamento entre Luís, o Delfim da França, e Blanche da Castela, sobrinha do Rei João. Como parte do acordo, João concederia a Blanche algumas terras francesas e uma vasta soma em dinheiro, e a França retiraria seu apoio a Arthur. Apesar dos protestos indignados de Constança, que vê seu filho ser traído por um acordo de paz, o casamento é selado. Os reis, agora aliados, partem para celebrar.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Duque da Áustria (Lymoges) | Aliado da França, ostenta a pele do leão de Ricardo Coração de Leão. | Arrogante, orgulhoso de sua vitória sobre Ricardo, mas covarde quando confrontado pelo Bastardo. |
| Luís, o Delfim | Príncipe herdeiro da França, filho do Rei Filipe. | Ambicioso, estratégico, disposto a usar alianças e matrimônios para avançar seus interesses. |
| Blanche da Castela | Sobrinha do Rei João. | Jovem e disposta a ser um peão em alianças políticas, sofre as consequências das decisões dos homens. |
Seção 3
Constança está em profunda angústia e fúria pela traição ao seu filho Arthur pelo Rei Filipe da França e pela Rainha Elinor. Ela lamenta a perda de sua causa e a injustiça que Arthur sofreu.
O Cardeal Pandulph, legado papal, chega à corte e exige que João nomeie Stephen Langton como Arcebispo de Canterbury, conforme a vontade do Papa. João se recusa veementemente a permitir que um príncipe estrangeiro dite as nomeações em seu reino. Pandulph, em nome do Papa, excomunga João e ordena que o Rei Filipe da França rompa seu recuo com João e invada a Inglaterra. Filipe fica em um dilema, pois acabou de firmar a paz e o casamento de seu filho. No entanto, Pandulph o persuade, argumentando que um juramento forçado sob excomunhão não é válido, e que Deus o punirá se ele não atacar João.
Assim, a guerra é retomada. O Bastardo confronta e mata o Duque da Áustria em batalha. As forças inglesas, sob o comando de João, capturam Angiers. João, vitorioso, confia Arthur aos cuidados de Hubert de Burgh, seu leal servo, com ordens secretas e ominosas. A Rainha Elinor também pede a Hubert que cuide de Arthur. João parte apressadamente para a Inglaterra.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Cardeal Pandulph | Legado papal, representante do Papa Inocêncio III. | Autoridade eclesiástica, astuto, manipulador, exerce o poder da Igreja sobre os reis seculares. |
| Hubert de Burgh | Leal servo e confidente do Rei João. | Obediente, mas com uma consciência moral, dividido entre a lealdade ao rei e a empatia. |
Seção 4
Hubert de Burgh, agora responsável por Arthur, recebe uma ordem escrita do Rei João para cegar o jovem príncipe. No entanto, Hubert hesita. Ele tenta cumprir a ordem, trazendo ferros quentes e carrascos. Arthur, ciente de seu destino, suplica a Hubert com palavras comoventes e inocentes, descrevendo a dor e o horror que a cegueira lhe causaria. A humanidade de Arthur e sua inocência tocam o coração de Hubert, que decide não cumprir a ordem cruel de João. Ele promete a Arthur que fingirá ter cumprido a ordem e o esconderá.
Enquanto isso, na corte inglesa, os nobres ingleses - Pembroke, Salisbury e Bigot - expressam seu descontentamento com João, especialmente em relação à prisão de Arthur. Eles pedem a libertação do príncipe. João tenta apaziguá-los e anuncia que Arthur morreu. Ao mesmo tempo, ele se arrepende de ter dado a ordem a Hubert, temendo a reação de seus súditos e a mancha em sua reputação.
O Bastardo relata a João que as notícias da morte de Arthur já se espalharam e que o povo está em alvoroço. O Bastardo também informa sobre a morte da Rainha Elinor e da Rainha Constança, que morreram de tristeza pela sorte de Arthur. Quando os nobres veem o corpo de Arthur (que, como veremos, havia saltado das muralhas), eles ficam furiosos e acusam João de assassinato, decidindo desertar para o lado do Delfim francês. Hubert, encontrando os nobres, tenta explicar que Arthur ainda estava vivo quando ele o deixou, mas a evidência do corpo de Arthur (que realmente morreu ao tentar escapar) pesa contra ele. Hubert é levado sob suspeita.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Conde de Pembroke | Nobre inglês. | Representa a voz dos barões, preocupado com a justiça e a estabilidade do reino. |
| Conde de Salisbury | Nobre inglês. | Orgulhoso e moralista, rapidamente se volta contra João ao suspeitar de traição e assassinato. |
| Lorde Bigot | Nobre inglês. | Compartilha das preocupações e da raiva dos outros nobres. |
Seção 5
A situação de João deteriora-se rapidamente. A invasão francesa, instigada por Pandulph, avança. Os nobres ingleses, indignados com a suposta morte de Arthur, aliam-se ao Delfim Luís. Para tentar reverter a maré, João se humilha perante o Cardeal Pandulph e a Igreja Católica, entregando sua coroa e recebendo-a de volta como um vassalo do Papa. Ele espera que a intervenção papal afaste os franceses. Pandulph então ordena que Luís retire suas forças da Inglaterra.
No entanto, Luís, que já desembarcou na Inglaterra e conta com o apoio de muitos barões ingleses, recusa-se a obedecer a Pandulph. Ele argumenta que suas reivindicações ao trono são por direito de sua esposa, Blanche, e não apenas pelo apoio papal.
Os nobres ingleses que se juntaram a Luís começam a ter dúvidas sobre a lealdade do Delfim. Um nobre francês moribundo, Mélun, revela a Salisbury e Pembroke que Luís planeja executar todos os nobres ingleses assim que a vitória for assegurada. Isso choca e aterroriza os barões, que rapidamente decidem retornar à lealdade a João.
A sorte de João, entretanto, está selada. As notícias são terríveis: uma parte de seu exército é tragada pelas marés no Wash, e ele próprio é envenenado por um monge em Swinstead Abbey. Ele morre em agonia, rodeado por alguns de seus leais seguidores.
O Delfim Luís, ao saber da morte de João e da deserção dos nobres ingleses, percebe que sua causa está perdida. O Bastardo, agora o principal defensor da coroa inglesa, une os nobres restantes em torno do jovem Príncipe Henrique, filho de João. A peça termina com a coroação de Henrique III e um apelo à unidade nacional contra todas as ameaças estrangeiras, prometendo que a Inglaterra só cairá se lutar contra si mesma.
Gênero literário
Drama histórico, tragédia.
Dados do autor
William Shakespeare (1564-1616) foi um dramaturgo e poeta inglês, amplamente considerado o maior escritor da língua inglesa e o maior dramaturgo de todos os tempos. Muitas vezes chamado de bardo nacional da Inglaterra, suas obras, incluindo 38 peças, 154 sonetos, dois poemas narrativos longos e vários outros versos, foram traduzidas para todas as principais línguas vivas e são encenadas com mais frequência do que as de qualquer outro dramaturgo.
Moral da história
A peça "Rei João" não oferece uma moral única e simples, mas explora temas complexos. Uma das principais lições é a instabilidade do poder e a fragilidade da legitimidade real quando não há um consenso ou força para defendê-la. A peça também destaca a perigosidade da intromissão estrangeira e eclesiástica nos assuntos internos de uma nação, e como a desunião interna pode levar à vulnerabilidade. No final, há um forte apelo ao patriotismo e à unidade nacional como a única forma de garantir a soberania e a estabilidade de um reino. A ambição pessoal e a falta de integridade moral, tanto de João quanto dos barões e do Delfim, são mostradas como forças destrutivas.
Curiosidades do livro
- Fonte Histórica: A principal fonte de Shakespeare para "Rei João" foi a crônica de Raphael Holinshed, "Chronicles of England, Scotland, and Ireland". No entanto, Shakespeare tomou muitas liberdades artísticas com os fatos históricos, focando mais no drama e nos temas políticos do que na precisão cronológica.
- Ausência de Personagens Conhecidos: Curiosamente, alguns dos personagens mais famosos da lenda do Rei João – como Robin Hood e a Carta Magna – não aparecem na peça. A Carta Magna foi um evento crucial no reinado histórico de João, mas Shakespeare optou por omiti-la, possivelmente para focar na ameaça externa e na usurpação do trono.
- O "Vilão" da Áustria: A peça retrata o Duque da Áustria como o assassino de Ricardo Coração de Leão, o que é anacronístico. Na verdade, Ricardo foi morto durante o cerco de Chalus-Chabrol por um arqueiro francês, e o Duque Leopoldo V da Áustria (que era um vassalo do Sacro Império Romano-Germânico) esteve envolvido na prisão de Ricardo, mas não em sua morte. A peça combina figuras históricas e eventos para propósitos dramáticos.
- O Bastardo como Coro Moral: Philip, o Bastardo, é frequentemente visto como a voz da peça, comentando cinicamente sobre a política e a ambição. Ele serve como um coro, oferecendo uma perspectiva prática e, por vezes, idealista sobre os eventos, destacando a hipocrisia e a natureza fútil das guerras por poder.
- Foco na Legitimidade: A peça é um estudo sobre a legitimidade e a moralidade no governo. João é um usurpador de seu sobrinho, e sua luta para manter o trono contra reivindicações legítimas é um tema central, explorando a ideia de que o poder não é apenas sobre a força, mas também sobre a aceitação e o "direito" de governar.
