Les Femmes savantes - Molière

Resumo
'As Mulheres Sabichonas' (Les Femmes savantes) de Molière é uma comédia em cinco atos que satiriza a pedanteria, a pretensão intelectual e a busca excessiva e superficial pelo conhecimento, especialmente entre as mulheres da alta sociedade parisiense do século XVII. A peça centra-se na família de Chrysale, cuja esposa, Philaminte, e suas filhas Armande e Bélise, são obcecadas por filosofia, poesia e ciências, desprezando as tarefas domésticas e o bom senso. Henriette, a filha mais jovem, é a única com os pés no chão e deseja casar-se com Clitandre, um homem digno e sensato que não compartilha do afã intelectual da família. No entanto, Philaminte e Armande preferem que Henriette se case com Trissotin, um poeta pretensioso e adulador que elas admiram cegamente. O conflito central surge da disputa entre os dois casamentos propostos e das tentativas de Chrysale de impor a ordem em sua casa, dominada pelas aspirações "intelectuais" de sua esposa. Através de uma série de artimanhas e revelações, a peça expõe a hipocrisia e a superficialidade dos "sabichões", defendendo o bom senso, a modéstia e o amor genuíno contra a falsa erudição e a afetação.

Seções do livro

Seção 1: Ato I

O Ato I estabelece o cenário e os principais conflitos da peça. Henriette, a filha mais jovem de Chrysale e Philaminte, confessa à sua irmã Armande que está apaixonada por Clitandre e deseja casar-se com ele. Armande, por sua vez, despreza o casamento e as preocupações mundanas, pois se dedica inteiramente à filosofia e à busca abstrata do conhecimento. Ela censura Henriette por seus desejos terrenos, revelando seu próprio ressentimento pelo fato de Clitandre ter transferido sua afeição de Armande para Henriette, depois que Armande o rejeitou em favor de suas ambições intelectuais. Clitandre chega e defende sua escolha por Henriette, criticando abertamente a pedanteria e a afetação de Armande e de sua mãe, Philaminte, que está completamente dominada por suas aspirações intelectuais e despreza qualquer coisa que não seja "sabichona". Clitandre elogia a simplicidade e a virtude de Henriette, estabelecendo o contraste fundamental entre a sensatez prática e a falsa erudição que permeia a casa.

Personagem Características Personalidade
Chrysale Pai de Henriette e Armande; marido de Philaminte. Um homem de bom senso, mas fraco e dominado pela esposa. Deseja uma vida familiar normal e detesta a pretensão intelectual que tomou conta de sua casa. Passivo, bem-intencionado, mas covarde. Ele enxerga a futilidade da obsessão de sua família pela erudição, mas não tem a força de vontade para confrontar sua esposa e restabelecer a ordem. Seu humor deriva de sua ineficácia e de suas tentativas frustradas de afirmar sua autoridade.
Philaminte Esposa de Chrysale; mãe de Henriette e Armande. A figura central das "mulheres sabichonas". Obsessiva por filosofia, astronomia, gramática e poesia. Despreza as tarefas domésticas e as preocupações mundanas, buscando uma vida de puro intelecto. Dominante, arrogante, pedante e autoritária. É a força motriz por trás da obsessão "intelectual" da família, cegamente admirando impostores como Trissotin e Vadius. Sua pretensão a torna cômica e, ao mesmo tempo, uma tirana doméstica. Ela acredita ser uma mulher de intelecto superior.
Armande Filha mais velha de Chrysale e Philaminte. Uma "sabichona" como a mãe, mas ainda mais rígida e purista em suas aspirações intelectuais. Recusou Clitandre no passado para dedicar-se ao intelecto. Orgulhosa, dogmática, fria e ressentida. Despreza o casamento e a vida doméstica, preferindo a busca abstrata do conhecimento. Mostra ciúme e despeito por Henriette ter conquistado Clitandre, o homem que ela própria rejeitou. Sua intelectualidade é mais uma máscara para sua amoralidade e frustrações pessoais.
Henriette Filha mais jovem de Chrysale e Philaminte. A voz da razão e do bom senso na família. Deseja casar-se com Clitandre e ter uma vida feliz e normal. Não se importa com as falsas pretensões intelectuais de sua família. Sensata, modesta, gentil e prática. Ela representa os valores tradicionais e o bom senso, em contraste com a artificialidade de sua mãe e irmã. É a heroína romântica da peça, buscando a felicidade no amor e na vida familiar, não na erudição forçada.
Bélise Irmã de Chrysale; cunhada de Philaminte. Uma solteirona que também se considera uma grande intelectual, mas é ainda mais absurda em suas pretensões. Acredita que todos os homens estão apaixonados por ela, mas disfarçam seu amor por respeito à sua sabedoria. Delirante, ingênua e vaidosa. Sua autoilusão é uma fonte constante de humor, especialmente em suas interpretações errôneas das intenções dos homens. É um exemplo extremo da loucura que a pretensão intelectual pode gerar, desconectada da realidade.
Clitandre Jovem cavalheiro, apaixonado por Henriette. No passado, tentou cortejar Armande, mas foi rejeitado. Representa a razão e o bom senso, criticando abertamente a hipocrisia e a superficialidade dos "sabichões". Honesto, direto, corajoso e apaixonado. Ele não tem medo de expressar suas opiniões, mesmo que isso o coloque em conflito com Philaminte e Armande. Valoriza a virtude e a simplicidade de Henriette e busca um casamento baseado no amor e no bom senso.
Ariste Irmão de Clitandre; amigo de Chrysale. Homem de bom senso. Amigável, prático e um conselheiro. Ele ajuda Clitandre e Henriette em seu plano e tenta influenciar Chrysale a ser mais firme contra Philaminte.
Trissotin Um poeta e intelectual pretensioso, adulador, sem talento genuíno, mas que é admirado cegamente por Philaminte, Armande e Bélise. É o favorito de Philaminte para casar-se com Henriette. Falso, pedante, oportunista e bajulador. Seu "intelecto" é superficial e sua arte é medíocre. Ele usa sua falsa erudição para ganhar prestígio e favores sociais, especialmente da família de Philaminte, visando um casamento vantajoso.
Vadius Outro "erudito" e poeta, amigo de Trissotin, com quem mais tarde entra em uma briga por ciúmes e rivalidade intelectual. Pedante, orgulhoso e invejoso. Representa a vaidade e a rivalidade entre os intelectuais falsos. Sua briga com Trissotin revela a superficialidade e a mesquinharia por trás de suas pretensões de sabedoria.
Martine Cozinheira e serva da família. Representa o povo comum e o bom senso. Direta, prática, de temperamento forte e sem rodeios. Ela não teme expressar suas opiniões, confrontando as "sabichonas" e defendendo a importância das tarefas domésticas. É um contraponto cômico à afetação da família.
L'Épine Criado de Chrysale. Obediente, mas muitas vezes atrapalhado ou hesitante devido à confusão na casa.
Julien Criado de Vadius. (Papel menor)
Um Tabelião Personagem que surge no final para realizar o contrato de casamento. (Papel funcional)

Seção 2: Ato II

O Ato II aprofunda os conflitos familiares e as tensões domésticas. Chrysale expressa seu descontentamento com o estado de sua casa: sua esposa e filhas estão tão ocupadas com a ciência e a filosofia que as tarefas domésticas são negligenciadas, e a cozinheira Martine foi demitida por Philaminte por "erros" de gramática. Chrysale, exasperado, tenta impor sua autoridade, afirmando que a verdadeira sabedoria para uma mulher é cuidar da casa e da família, não de livros e astrolábios. No entanto, ele é constantemente interrompido e contradito por Philaminte, que está decidida a reeducar o mundo e fazer de sua casa um centro de aprendizado. Bélise, a irmã de Chrysale, reforça a visão de Philaminte e delira ao acreditar que todos os homens estão secretamente apaixonados por ela, incluindo Clitandre, que ela interpreta mal. Philaminte anuncia sua intenção de casar Henriette com Trissotin, um poeta pretensioso que ela admira cegamente, e que ela convidou para recitar seus mais recentes poemas na casa. Chrysale se opõe veementemente, querendo que Henriette se case com Clitandre.

Seção 3: Ato III

O Ato III mostra a chegada de Trissotin e a celebração de sua suposta "genialidade" pela família das mulheres sabichonas. Philaminte, Armande e Bélise estão em êxtase com a presença do poeta, que lhes recita seus sonetos e epigramas, elogiados extravagantemente pelas damas, que veem profundidade e beleza onde há apenas pretensão e banalidade. Chrysale tenta se opor a essa farsa, mas é ignorado e ridicularizado por sua falta de "apreciação intelectual". Vadius, outro "erudito" e amigo de Trissotin, é apresentado e também recita um poema, recebendo aplausos igualmente exagerados. No entanto, a cordialidade entre os dois pedantes logo se desfaz quando Trissotin e Vadius começam a discutir violentamente sobre a superioridade de seus próprios trabalhos e a suposta ignorância do outro, revelando a vaidade, a inveja e a rivalidade mesquinha por trás de suas pretensões intelectuais. Essa briga expõe a falsidade de ambos e choca a todos, mas Philaminte e Armande ainda permanecem cegas à verdadeira natureza interesseira de Trissotin. Philaminte, então, reafirma sua decisão de casar Henriette com Trissotin, ignorando as preocupações de todos.

Seção 4: Ato IV

O Ato IV intensifica a disputa pelo casamento de Henriette. Philaminte confronta Chrysale e insiste no casamento de sua filha com Trissotin, citando razões filosóficas e intelectuais para a superioridade do poeta. Chrysale, por sua vez, defende Clitandre e argumenta que a felicidade de sua filha e o bom senso devem prevalecer sobre as fantasias intelectuais de sua esposa. A discussão entre marido e mulher degenera em uma luta pelo poder doméstico, com Philaminte ameaçando divorciar-se de Chrysale se ele não ceder, desafiando sua autoridade. Henriette e Clitandre também imploram por seu amor e pela permissão para se casar. Philaminte, impiedosa e determinada, convoca um tabelião para redigir o contrato de casamento entre Henriette e Trissotin. No clímax do ato, Ariste, irmão de Clitandre, entra com notícias terríveis (falsas) sobre a perda da fortuna da família, criada por um golpe orquestrado para testar a sinceridade e o caráter de Trissotin. Trissotin, ao ouvir sobre a ruína iminente, rapidamente desiste do casamento com Henriette, revelando sua verdadeira natureza interesseira e sua motivação puramente financeira. Vadius também se afasta do possível infortúnio.

Seção 5: Ato V

No Ato V, a verdade sobre a falsa ruína é revelada. Ariste explica que as cartas eram uma farsa para expor a cupidez de Trissotin, o que funciona perfeitamente ao desmascarar o poeta. Trissotin, envergonhado e desmascarado, tenta justificar sua retirada com desculpas esfarrapadas e mostra seu desprezo pelas preocupações financeiras, mas sua hipocrisia é patente para todos. Philaminte, apesar de tudo, ainda tenta defender Trissotin e insistir no casamento, tão cegamente presa à sua admiração pela falsa erudição. No entanto, Chrysale finalmente encontra coragem para afirmar sua autoridade como chefe da família, impulsionado pela exposição da verdadeira índole de Trissotin. Ele insiste que Henriette se casará com Clitandre. Um segundo mensageiro chega com notícias (também falsas, mas que Chrysale e Philaminte acreditam) de que um rico tio de Clitandre legou-lhe uma grande fortuna, o que serve para tranquilizar Philaminte, que vê agora um casamento vantajoso para sua filha (e talvez para si mesma, em termos de prestígio social e financeiro). Com a oposição de Philaminte enfraquecida e a verdadeira natureza de Trissotin exposta, Henriette e Clitandre são finalmente autorizados a se casarem, e a ordem e o bom senso são restaurados na casa de Chrysale. Martine, a cozinheira, é recontratada, simbolizando o retorno à normalidade.

Informações Adicionais

Gênero Literário: Comédia de costumes, comédia de caráter e comédia-ballet (na sua primeira apresentação, incluía interlúdios de dança e música).

Dados do Autor (Molière):
Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), mais conhecido como Molière, foi um dos maiores dramaturgos e atores franceses. Sua obra é um pilar da literatura francesa e é frequentemente encenada até hoje. Ele era o líder de uma trupe de teatro, o Troupe de Molière, que depois se tornou a célebre Comédie-Française. Molière escreveu principalmente comédias que satirizavam os costumes, vícios e hipocrisias da sociedade francesa de sua época, muitas vezes com um tom moralista. Entre suas obras mais famosas estão Tartufo, O Avarento, O Doente Imaginário, O Burguês Fidalgo e Dom Juan. Ele era mestre em criar personagens arquetípicos e em usar o humor para criticar comportamentos sociais e intelectuais. Molière morreu no palco enquanto atuava em O Doente Imaginário.

Moral da História:
A moral principal de As Mulheres Sabichonas é que a busca excessiva e pretensiosa pelo conhecimento, quando desacompanhada de bom senso, modéstia e respeito pela vida prática, leva à hipocrisia, ao ridículo e à desordem. Molière critica a pedanteria e a afetação intelectual que desvalorizam o conhecimento genuíno em favor da mera ostentação. A peça defende o valor do bom senso, da simplicidade, da honestidade e da harmonia familiar, sugerindo que a verdadeira sabedoria reside em um equilíbrio entre o intelecto e as realidades da vida cotidiana, e não na exibição vazia de erudição. A peça também aborda a importância da autonomia individual e da rejeição a casamentos arranjados por pretensão social ou intelectual, em favor do amor e da felicidade pessoal.

Curiosidades do Livro:

  • Inspiração Pessoal: A peça é frequentemente vista como uma sátira a certas figuras intelectuais da sociedade parisiense da época de Molière, incluindo o salão de Madame de Rambouillet e alguns de seus frequentadores, embora Molière negasse ataques pessoais. Trissotin é amplamente considerado uma caricatura do abade Charles Cotin e Vadius, de Gilles Ménage, dois poetas e gramáticos contemporâneos de Molière que eram conhecidos por sua pretensão.
  • Reação na Época: A peça foi um grande sucesso, mas também gerou controvérsia, especialmente entre aqueles que se sentiram visados ou ridicularizados. Alguns críticos acusaram Molière de atacar a cultura e a educação feminina, enquanto outros a elogiaram por expor a hipocrisia e a superficialidade de certos intelectuais.
  • Precursora de Termos: A peça popularizou o termo "femmes savantes" (mulheres sabichonas) para se referir de forma pejorativa a mulheres que demonstravam um interesse pretensioso ou exagerado por estudos e ciência, em detrimento de seus papéis sociais tradicionais.
  • Comédia-Ballet: Como muitas das obras de Molière apresentadas para a corte de Luís XIV, Les Femmes savantes foi inicialmente uma "comédie-ballet", incorporando elementos de música e dança entre os atos, o que era popular na época e agradava ao rei.
  • Temática Atemporal: Apesar de ter sido escrita no século XVII, a crítica à pretensão intelectual, à superficialidade e à hipocrisia permanece relevante, tornando a peça um clássico atemporal que continua a ser encenado e estudado.
  • O Poder da Palavra: A peça satiriza o uso da linguagem para mascarar a falta de conteúdo, com personagens como Trissotin e Vadius utilizando um vocabulário rebuscado, citações latinas e regras gramaticais complexas para impressionar e disfarçar a mediocridade de suas ideias.