As Artimanhas de Scapin - Molière
Resumo "As Artimanhas de Scapin" (Les Fourberies de Scapin) de Molière é uma comédia farsesca ambientada em Nápoles. A trama gira em torno d...
Resumo
"As Artimanhas de Scapin" (Les Fourberies de Scapin) de Molière é uma comédia farsesca ambientada em Nápoles. A trama gira em torno de dois jovens, Octave e Léandre, que, na ausência de seus pais, casam-se secretamente com jovens de origem aparentemente humilde: Octave com Hyacinte e Léandre com Zerbinette. Quando os pais, Argante e Géronte, retornam com planos de casamentos arranjados para seus filhos, os jovens entram em desespero. Scapin, o astuto e engenhoso criado de Léandre, assume a tarefa de resolver a situação. Ele orquestra uma série de truques, mentiras e disfarces engenhosos para manipular os pais avarentos, tirando-lhes dinheiro sob pretextos falsos (como o "sequestro" de Léandre por piratas turcos) e criando situações cômicas. As artimanhas de Scapin visam garantir a felicidade dos amantes, culminando em revelações de identidades que legitimam os casamentos e um final reconciliador, onde o próprio Scapin, fingindo-se moribundo, obtém o perdão por suas travessuras.
Seções do livro
Seção 1: Ato I
A peça se inicia com Octave e seu criado, Silvestre, em grande aflição. Octave confessa que, aproveitando a ausência de seu pai, Argante, casou-se secretamente com uma jovem pobre e desconhecida, Hyacinte. Para piorar a situação, Argante está prestes a retornar a Nápoles e já tem planos de casá-lo com a filha de seu amigo Géronte. Silvestre, assustado e sem saber o que fazer, expressa seu medo da reação do pai de Octave.
Nesse momento, surge Scapin, o esperto criado de Léandre (filho de Géronte), que é conhecido por sua sagacidade e gosto por pregar peças. Scapin ouve a história e, com seu caráter brincalhão e manipulador, imediatamente se oferece para ajudar os jovens a resolver o problema, prometendo enganar os pais avarentos com suas artimanhas.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Octave | Jovem apaixonado, filho de Argante. | Impulsivo, um tanto ingênuo, facilmente desesperado, mas com convicção em seu amor. |
| Silvestre | Criado de Octave. | Medroso, cauteloso, leal, mas propenso ao pânico e facilmente assustado. |
| Scapin | Criado de Léandre. | Astuto, engenhoso, manipulador, descarado, cheio de recursos, adora pregar peças e se gabar de sua inteligência. |
| Argante | Pai de Octave. | Avarento, autoritário, teimoso, propenso à raiva, preocupado com as aparências e o dinheiro. |
| Géronte | Pai de Léandre. | Igualmente avarento, pomposo, facilmente enganado, lamenta o dinheiro que precisa gastar. |
| Hyacinte | Jovem moça, secretamente casada com Octave. | Doce, virtuosa, sensível, apaixonada, de origem aparentemente humilde. |
| Léandre | Jovem apaixonado, filho de Géronte. | Similar a Octave, um tanto impulsivo, apaixonado por Zerbinette e dependente da ajuda de Scapin. |
| Zerbinette | Jovem cigana, apaixonada por Léandre. | Vivaz, espirituosa, de temperamento forte e livre, aparentemente de origem humilde. |
| Nérine | Governanta de Hyacinte. | Leal e protetora de Hyacinte, guarda segredos importantes sobre sua origem. |
| Carle | Um lacaio, figura menor na trama. | Sem características marcantes, serve para pequenos recados. |
Argante chega e, ao ser confrontado com a notícia do casamento de Octave, fica furioso, recusando-se a aceitar a união e exigindo sua anulação imediata. Ele não dá ouvidos aos apelos de seu filho. Scapin tenta intervir, plantando em Argante a semente da dúvida sobre a verdadeira origem de Hyacinte, insinuando que ela pode não ser tão "pobre" quanto parece.
Seção 2: Ato II
O segundo ato revela que Léandre, o filho de Géronte, também tem seu próprio problema amoroso: ele se apaixonou por Zerbinette, uma jovem cigana, e agora precisa de dinheiro para resgatá-la dos ciganos que a mantêm sob sua custódia. Desesperado, Léandre pede a ajuda de Scapin. Scapin, com ar de superioridade, garante que tem um plano infalível para tirar dinheiro dos velhos avarentos.
Scapin se aproxima de Géronte com uma história elaborada. Ele afirma que Léandre foi sequestrado por um pirata turco que exige um resgate de quinhentas coroas, sob pena de levar Léandre para a escravidão ou vendê-lo. Géronte, extremamente pão-duro, lamenta a situação com expressões cômicas de desespero por ter que gastar tanto dinheiro, mas Scapin o pressiona com argumentos convincentes e aterrorizantes sobre o destino de Léandre.
Com sua retórica persuasiva e ameaças, Scapin consegue arrancar as quinhentas coroas de Géronte, que chora por cada moeda gasta. Scapin então entrega o dinheiro a Léandre, que o utiliza para pagar os ciganos e libertar Zerbinette.
Simultaneamente, Scapin continua sua manipulação com Argante. Ele inventa uma história dramática sobre como Octave foi coagido a se casar com Hyacinte por um vilão espadaúdo que o ameaçou de morte. Scapin consegue enganar Argante, fazendo-o acreditar que Octave é uma vítima e que precisa de mais dinheiro para subornar um advogado e anular o casamento. Argante, apesar de relutar, começa a ceder.
Seção 3: Ato III
No terceiro e último ato, as artimanhas de Scapin atingem seu clímax. Os pais, Argante e Géronte, estão cada vez mais confusos, irritados e endividados devido às intervenções de Scapin.
A cena mais famosa e cômica da peça ocorre quando Scapin convence Géronte de que o irmão do suposto pirata turco que "sequestrou" Léandre está vindo para se vingar por não ter recebido um resgate maior. Scapin convence o medroso Géronte a se esconder dentro de um saco, alegando ser a única maneira de protegê-lo do agressor. Uma vez Géronte dentro do saco, Scapin começa a espancá-lo com um bastão, enquanto finge estar defendendo-o de diferentes atacantes (um basco, um ladrão, etc.), imitando suas vozes. Géronte, apavorado, grita e apanha de dentro do saco sem perceber que é Scapin quem o está surrando.
Enquanto isso, Zerbinette, já liberta, encontra Argante e, inocentemente, revela toda a verdade sobre a farsa do pirata turco e do "sequestro" de Léandre, detalhando como Scapin enganou Géronte para obter as quinhentas coroas. Argante fica furioso ao descobrir a extensão das mentiras de Scapin e decide se vingar.
Quando Scapin retorna, Argante e Géronte o confrontam, ambos cheios de raiva. Scapin, no entanto, não se abala facilmente e tenta negar tudo ou justificar suas ações com novas mentiras, mas ele é pego em suas próprias contradições.
Para resolver os impasses dos casamentos e garantir um final feliz, a peça introduz as revelações de identidade. Nérine, a governanta de Hyacinte, revela que Hyacinte é, na verdade, a filha perdida de Géronte. Géronte fica extasiado ao reencontrar sua filha e, consequentemente, aceita com alegria o casamento de Octave e Hyacinte.
Para a surpresa de todos, Zerbinette é também revelada como a filha perdida de Argante, que havia sido sequestrada por ciganos na infância. Essa revelação significa que Léandre e Zerbinette, já secretamente casados, têm agora a bênção de seus pais, legitimando sua união.
No desfecho, Scapin simula um grave acidente (caindo de um telhado e sendo esmagado), aparentando estar à beira da morte. Enquanto "agoniza", ele pede perdão aos dois velhos por suas travessuras. Argante e Géronte, embora ainda zangados, percebem que Scapin, apesar de suas artimanhas, acabou unindo suas famílias e garantindo a felicidade de seus filhos. Com um último suspiro (falso), Scapin consegue o perdão de todos e a peça termina com a reconciliação e a celebração dos casamentos.
Gênero literário: Comédia farsesca, Comédia de costumes.
Dados do autor:
Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), mais conhecido pelo seu nome artístico Molière, foi um dos mais célebres dramaturgos, atores e diretores teatrais franceses do século XVII. Nascido em Paris, abandonou uma vida burguesa e uma carreira como advogado para dedicar-se inteiramente ao teatro. Fundou a trupe "Illustre Théâtre", que enfrentou dificuldades iniciais, mas eventualmente prosperou sob o patrocínio de Luís XIV. As obras de Molière são notáveis pela sua sátira mordaz aos costumes, à hipocrisia e às convenções da sociedade francesa da época, com um humor que varia do sutil ao farsesco. Ele é considerado um mestre da comédia, e suas peças, como "O Tartufo", "O Misantropo", "O Avarento" e "O Burguês Gentil-Homem", continuam a ser encenadas e estudadas globalmente.
Moral da história:
"As Artimanhas de Scapin" oferece várias reflexões, embora o foco principal seja o entretenimento cômico:
- A inteligência sobrepõe-se à autoridade e à avareza: Scapin, um mero criado, consegue manipular e ludibriar seus mestres ricos e autoritários, provando que a astúcia pode ser mais poderosa que o dinheiro ou a posição social.
- Crítica à intransigência parental: A peça ridiculariza a teimosia dos pais em impor casamentos arranjados e sua extrema avareza, que os impede de ver a felicidade dos próprios filhos.
- O amor verdadeiro encontra seu caminho: Apesar dos obstáculos impostos pelos pais e pelas diferenças sociais aparentes, o amor dos jovens casais prevalece e é finalmente aceito.
- As aparências enganam: As jovens Hyacinte e Zerbinette, inicialmente vistas como pobres ou de origem duvidosa, revelam-se de boa família, filhos perdidos dos próprios velhos, legitimando seus casamentos.
Curiosidades:
- "As Artimanhas de Scapin" (Les Fourberies de Scapin) estreou em 1671, sendo uma das últimas peças de Molière antes de sua morte em 1673.
- É frequentemente considerada uma das farsas mais puras de Molière, com um ritmo rápido e foco em situações cômicas e exageradas, em detrimento de uma sátira social mais profunda ou do desenvolvimento psicológico dos personagens.
- A cena do "saco" (le sac de Scapin), onde Scapin bate em Géronte escondido dentro de um saco, é uma das passagens mais célebres, hilárias e icônicas do teatro francês. Molière, que frequentemente atuava em suas próprias peças, provavelmente interpretou o papel de Scapin.
- A peça exibe forte influência da Commedia dell'arte italiana, um gênero teatral popular que utilizava personagens-tipo (como o velho avarento, o servo astuto e os jovens amantes) e a improvisação cômica.
- Ao contrário da maioria de suas grandes comédias, que eram escritas em verso alexandrino, Molière escreveu "As Artimanhas de Scapin" em prosa. Isso contribui para seu caráter mais informal, direto e rápido.
- Embora tenha sido bem-sucedida, alguns críticos da época a consideraram inferior a outras obras de Molière, talvez devido à sua natureza mais leve e farsesca. No entanto, sua popularidade perdurou por séculos e ela é uma das peças mais encenadas do autor.
- A frase "Que diabo ele ia fazer nessa galé?" (Que diable allait-il faire dans cette galère?), dita por Géronte, tornou-se uma expressão idiomática em francês, usada para se referir a alguém que se meteu em uma situação problemática desnecessariamente ou por engano.
