Paradise Lost - John Milton

Resumo

"Paraíso Perdido" de John Milton é um poema épico que narra a história bíblica da Queda do Homem: a tentação de Adão e Eva por Satanás e a sua expulsão do Jardim do Éden. O poema começa in medias res, com Satanás e seus anjos caídos despertando no Inferno após serem derrotados e expulsos do Céu por Deus. O objetivo principal de Satanás torna-se corromper a mais nova criação de Deus, a humanidade, concebendo um plano para seduzir Adão e Eva à desobediência.

No decorrer da narrativa, Milton explora os debates entre os demónios no Inferno, a decisão de Satanás de viajar para o Éden, a perspetiva de Deus sobre a Queda iminente (com o Filho a oferecer-se como sacrifício), e a vida idílica de Adão e Eva no Jardim. O anjo Rafael é enviado para avisar Adão sobre o perigo e narra a história da guerra no Céu, culminando na derrota de Satanás e na criação do universo. Apesar dos avisos, Adão e Eva sucumbem à tentação de Satanás, que, disfarçado de serpente, os convence a comer o fruto proibido. A desobediência resulta na sua perda da inocência, na sua condenação e na sua eventual expulsão do Paraíso. O poema termina com Adão e Eva a partirem do Éden, com a promessa de redenção através do Filho de Deus.

Seções do livro

Seção 1 (Livro I): O Inferno e a revolta de Satanás

A história começa com Satanás e seus anjos rebeldes, recém-expulsos do Céu, a acordarem num lago de fogo no Inferno. Derrotados e atormentados, eles refletem sobre sua queda. Satanás, apesar da dor e da humilhação, mantém sua arrogância e determinação em continuar a lutar contra a vontade de Deus, nem que seja por "guerra eterna" ou "vingança". Ele profere um discurso poderoso ao seu tenente, Beelzebub, declarando que, embora não possam derrotar Deus diretamente, podem subverter seus propósitos e trazer o mal onde Ele pretende o bem. Os demónios reunem-se numa planície ardente, e Satanás inspira-os a não perderem a esperança e a construírem um império no Inferno. Eles erguem Pandemonium, um palácio magnífico para seus conselhos.

Personagem Características Personalidade
Satanás Arcanjo caído, líder dos anjos rebeldes. Orgulhoso, ambicioso, carismático. Desafiador, vaidoso, vingativo, persuasivo, mas também profundamente atormentado e melancólico. Sua mente está em "guerra consigo mesma", mas ele se recusa a se submeter a Deus.
Beelzebub Segundo em comando de Satanás. Prudente, mas leal a Satanás, sugere planos de vingança mais indiretos contra Deus, como corromper a humanidade.
Moloch Um dos anjos caídos. Sedento por guerra e vingança aberta, propõe uma batalha direta contra Deus.
Belial Um dos anjos caídos. Astuto e eloquente, defende a inação e a busca da paz, mesmo que seja uma paz preguiçosa e sem honra.
Mammon Um dos anjos caídos. Defende a construção de um império no Inferno, focado em riquezas materiais e na autossuficiência.

Seção 2 (Livro II): O Grande Debate e a Jornada de Satanás

No Pandemonium, os demónios iniciam um grande debate sobre qual seria o próximo passo contra Deus. Moloch defende uma guerra total e imediata, Belial sugere uma paz preguiçosa e passiva, e Mammon propõe a exploração das riquezas do Inferno para construir um reino autossuficiente. No entanto, Beelzebub, por sugestão (não dita) de Satanás, apresenta a ideia de corromper a nova criação de Deus, o Homem, que, segundo rumores, habita um novo mundo. Satanás prontifica-se a empreender a perigosa jornada através do Caos para encontrar e corromper este novo mundo. Na sua saída do Inferno, ele encontra Sin (Pecado), sua filha, e Death (Morte), seu filho incestuoso, guardando os portões. Eles abrem caminho para Satanás, que parte em sua árdua viagem pelo Caos.

Seção 3 (Livro III): A Perspetiva Divina e a Promessa de Redenção

Enquanto Satanás viaja pelo Caos, Deus Pai, sentado em seu trono no Céu, observa a jornada do Diabo e prevê a Queda do Homem. Ele reafirma a liberdade do arbítrio do Homem e sua própria justiça, insistindo que o Homem cairá por sua própria escolha, e não por decreto divino. Contudo, devido à sua misericórdia, Deus decide oferecer um meio de salvação. Ele pergunta quem entre os anjos se sacrificará para resgatar a humanidade. O Filho de Deus (Cristo) prontamente se oferece para se tornar humano, sofrer e morrer para redimir a humanidade, oferecendo uma nova oportunidade para aqueles que se arrependerem. Os anjos celebram com hinos de louvor a Deus e ao Filho. Satanás, entretanto, chega à esfera do novo universo.

Personagem Características Personalidade
Deus Pai Criador de tudo, onipotente, onisciente e onipresente. Justo, soberano, misericordioso, com uma vontade inquestionável e amorosa, mas também severo em sua justiça.
Deus Filho Segunda pessoa da Santíssima Trindade, a Palavra de Deus. Amante da humanidade, obediente ao Pai, altruísta, disposto a se sacrificar para a redenção.

Seção 4 (Livro IV): A Chegada de Satanás ao Éden e a Vista de Adão e Eva

Satanás, disfarçado de anjo, chega ao Jardim do Éden. Ao ver a beleza e a pureza do Paraíso, ele é invadido por um solilóquio de tormento, onde ele lamenta sua própria queda e inveja a felicidade de Adão e Eva. Ele percebe que seu destino é o inferno, onde quer que vá. Observando Adão e Eva, ele fica impressionado com sua inocência e perfeição. Ele os escuta conversando sobre a única restrição imposta por Deus: não comer do Fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Isso dá a Satanás a chave para seu plano de tentação. Durante a noite, Satanás tenta Eva em um sonho, mas é descoberto e expulso do Éden pelos anjos Gabriel e Uriel, que o haviam identificado.

Personagem Características Personalidade
Adão O primeiro homem, criado por Deus. Inteligente, curioso, racional, amante da natureza, devoto a Deus e a Eva.
Eva A primeira mulher, criada de uma costela de Adão. Bela, graciosa, ligeiramente mais ingénua que Adão, mas igualmente pura e devota.
Gabriel Arcanjo leal a Deus, guarda do Éden. Vigília, poderoso, obediente, confronta Satanás com autoridade.

Seção 5 (Livro V): O Sonho de Eva e o Aviso de Rafael

Eva acorda perturbada por um sonho induzido por Satanás, no qual ela é tentada a comer o fruto proibido. Ela conta o sonho a Adão, que tenta acalmá-la, interpretando o sonho como uma influência maligna externa. Para fortalecer Adão e Eva contra a iminente tentação, Deus envia o anjo Rafael para alertá-los. Rafael chega ao Éden e é recebido com hospitalidade por Adão e Eva. Ele explica a eles a importância da obediência, a natureza do livre-arbítrio e o perigo de Satanás. Em seguida, Rafael começa a narrar a história da Guerra no Céu.

Personagem Características Personalidade
Rafael Arcanjo leal a Deus, "o anjo mensageiro" e um dos sete anjos que estão diante de Deus. Sábio, gentil, paciente, pedagógico, transmite a palavra e os avisos de Deus com clareza.

Seção 6 (Livro VI): A Guerra no Céu

Rafael continua sua narrativa da Guerra no Céu. Ele descreve a rebelião de Satanás contra Deus e o Filho, levando um terço dos anjos a se juntar a ele. A batalha é feroz, com anjos leais liderados por Michael e Gabriel lutando contra as legiões de Satanás. Satanás e seus anjos mostram-se inicialmente formidáveis, chegando a inventar canhões para a batalha. No entanto, os anjos leais contra-atacam, usando rochas e montanhas como projéteis. A batalha é uma exibição de poder divino e infernal, com o lado leal sendo impulsionado pela justiça e o lado rebelde pela fúria.

Personagem Características Personalidade
Abdiel Anjo leal a Deus, que inicialmente se juntou aos rebeldes, mas depois se arrependeu e retornou. Valente, íntegro, fiel, exemplifica a escolha correta pela obediência a Deus, mesmo contra a maioria.

Seção 7 (Livro VII): O Triunfo do Filho e a Criação do Mundo

Rafael conclui a história da Guerra no Céu, narrando o terceiro dia da batalha, quando Deus envia o Filho para resolver o conflito. O Filho, em sua majestade divina, sozinho derrota as legiões de Satanás, expulsando-as do Céu através de uma fenda no universo. Após a derrota de Satanás, Deus decide criar um novo mundo para a humanidade, para preencher o vazio deixado pela queda dos anjos. Rafael descreve os seis dias da Criação, com o Filho de Deus como o agente da criação, formando o Céu, a Terra, os luminares, as plantas, os animais e, finalmente, Adão e Eva, culminando no repouso do sétimo dia.

Seção 8 (Livro VIII): As Perguntas de Adão e a Advertência Final

Adão, impressionado com as narrativas de Rafael, faz perguntas sobre a astronomia e os movimentos celestiais. Rafael, no entanto, o adverte para não se preocupar demais com segredos celestiais que não lhe dizem respeito, mas sim com sua própria vida e obediência. Adão então compartilha sua própria história: sua criação, sua solidão inicial, seu pedido a Deus por uma companheira e a subsequente criação de Eva. Ele expressa seu profundo amor e admiração por Eva, confessando que às vezes se sente subjugado por sua beleza. Rafael o adverte novamente, lembrando-o de que a razão deve governar a paixão e que sua lealdade primária deve ser a Deus. Ele se despede, deixando Adão e Eva novamente sozinhos.

Seção 9 (Livro IX): A Queda do Homem

Milton invoca novamente a Musa para cantar a parte mais trágica do poema: a Queda. Satanás, após sete noites de busca, encontra uma serpente no Éden, que ele escolhe como seu disfarce para enganar Eva. Na manhã seguinte, Eva sugere a Adão que trabalhem separadamente para serem mais eficientes, apesar das reservas de Adão sobre os perigos da separação. Ela insiste e Adão, relutantemente, cede. Satanás, na forma da serpente, encontra Eva sozinha e começa a elogiá-la de forma lisonjeira. Ele então a convence a comer o fruto proibido, usando argumentos astutos: o fruto não trouxe morte a ele (a serpente), Deus não puniria o conhecimento, e o fruto poderia até conceder divindade. Eva, tentada pela promessa de sabedoria, come o fruto. Em seguida, ela convence Adão a comer também, temendo ficar sozinha ou que Adão, sem ela, não encontrasse outra companheira perfeita. Adão, por amor a Eva, come o fruto, sabendo que está desobedecendo a Deus. Imediatamente, eles sentem luxúria, vergonha e culpa. Eles se cobrem com folhas de figueira e começam a culpar um ao outro.

Personagem Características Personalidade
Serpente Criatura do Éden, usada por Satanás como disfarce. Astuta, enganosa, manipuladora, fala com eloquência e persuasão quando possuída por Satanás.

Seção 10 (Livro X): Consequências da Queda e o Julgamento Divino

Deus envia o Filho para julgar Adão e Eva. O Filho pronuncia as sentenças: a serpente é amaldiçoada a rastejar e comer pó; Eva terá dores no parto e será sujeita a Adão; e Adão trabalhará com suor e fadiga em uma terra amaldiçoada, e ambos conhecerão a morte. No Inferno, Sin e Death (Pecado e Morte) sentem a Queda do Homem e constroem uma ponte do Inferno para a Terra, abrindo caminho para o mal no mundo. Satanás retorna ao Inferno, vangloriando-se de sua vitória, mas ele e seus anjos são transformados em serpentes como punição por sua blasfêmia. Adão e Eva lamentam profundamente sua condição, brigam e se desesperam, mas finalmente se arrependem e imploram por misericórdia a Deus, encontrando um lampejo de esperança.

Personagem Características Personalidade
Sin (Pecado) Filha de Satanás, nascida de sua cabeça. Bela na parte superior, mas grotesca e demoníaca na parte inferior, simboliza a atração e a repulsa do pecado.
Death (Morte) Filho de Satanás e Sin. Figura sombria e aterrorizante, sempre faminta, simboliza a consequência final do pecado.

Seção 11 (Livro XI): Visões do Futuro e a Expulsão Iminente

Deus aceita o arrependimento de Adão e Eva e envia o arcanjo Michael para expulsá-los do Éden, mas também para lhes dar esperança para o futuro. Michael, antes de expulsá-los, revela a Adão uma série de visões do futuro da humanidade, para que ele entenda as consequências de sua desobediência e a eventual redenção. Michael mostra a Adão eventos como o assassinato de Abel por Caim, a maldade crescente da humanidade, o Dilúvio Universal e a Arca de Noé. Eva é colocada num sono profundo para poupá-la das visões perturbadoras.

Personagem Características Personalidade
Michael Arcanjo leal a Deus, guerreiro e mensageiro. Forte, resoluto, justo, mas também compassivo, age como guia e instrutor para Adão, revelando o plano divino.

Seção 12 (Livro XII): A Redenção e a Partida do Éden

Michael continua suas revelações, descrevendo a história bíblica desde Abraão e Moisés até a vinda de Cristo. Ele explica como a Lei será dada, como Israel será cativo e como, finalmente, o Messias virá para redimir a humanidade através de sua morte, ressurreição e ascensão. Michael enfatiza que a verdadeira liberdade e salvação vêm da fé e da obediência a Deus, não de leis rituais. Com as visões terminadas e a promessa de redenção revelada, Adão e Eva são finalmente expulsos do Jardim do Éden. Eles partem "com passos lentos e errantes", mas carregam consigo a "Providence as their guide" (a Providência como seu guia) e a esperança de um futuro redentor.

Gênero literário

Poema épico.

Dados do autor

John Milton (1608-1674) foi um poeta, polemista e funcionário público inglês, amplamente considerado um dos maiores escritores da língua inglesa. Nascido em Londres, ele era um erudito profundo, dominando várias línguas clássicas e modernas. Foi um devoto puritano e um fervoroso defensor da Commonwealth inglesa sob Oliver Cromwell, servindo como Secretário de Línguas Estrangeiras. Durante o período da Restauração da monarquia, ele enfrentou perigo devido às suas afiliações políticas. Milton ficou completamente cego por volta de 1652, e 'Paraíso Perdido' foi ditado por ele a amanuenses, incluindo suas filhas, após sua cegueira.

Moral da história

A principal "moral" de 'Paraíso Perdido', conforme declarada pelo próprio Milton no início do Livro I, é "justificar os caminhos de Deus aos homens". O poema busca explicar por que Deus, sendo bom e onipotente, permite o mal e o sofrimento. Ele enfatiza a importância do livre-arbítrio, mostrando que a desobediência de Adão e Eva foi uma escolha consciente, não um destino imposto. A história também explora as consequências da desobediência e do orgulho (exemplificados por Satanás) e a promessa de redenção e salvação através da fé e do sacrifício divino. Em última análise, a moral é que, apesar da Queda e da introdução do mal no mundo, o amor e a justiça de Deus prevalecem, oferecendo esperança e um caminho para a reconciliação.

Curiosidades do livro

  • Cegueira do Autor: John Milton estava completamente cego quando ditou "Paraíso Perdido". O poema foi escrito com a ajuda de escribas, incluindo suas filhas e amigos, a quem ele recitava os versos.
  • Contexto Político: Milton era um ardente defensor da República e de Oliver Cromwell. Após a Restauração da monarquia em 1660, ele foi preso por um tempo e viu seus ideais políticos desmoronarem. Muitos estudiosos veem "Paraíso Perdido" como uma reflexão sobre a perda do paraíso político (a República) e a busca por um novo caminho.
  • Satanás como "Herói": Embora Satanás seja o antagonista, ele é frequentemente visto como uma figura "heroica" ou carismática por muitos leitores, devido à sua indomável vontade, eloquência e desafio contra a autoridade. Ele é um personagem muito mais dinâmico e complexo do que Adão e Eva.
  • Estrutura Original: O poema foi originalmente publicado em 1667 em dez livros. Mais tarde, em 1674, Milton o revisou e expandiu para doze livros (dividindo os livros 7 e 10 da versão original em dois, cada um), imitando a estrutura da "Eneida" de Virgílio.
  • Influência Duradoura: "Paraíso Perdido" é uma das obras mais influentes da literatura inglesa, tendo impactado inúmeros escritores, poetas e artistas, incluindo William Blake, Mary Shelley (com "Frankenstein"), C.S. Lewis e Philip Pullman.