Rasselas - Samuel Johnson
Resumo: "Rasselas, Príncipe da Abissínia" narra a história do jovem príncipe Rasselas, que vive confinado no Vale Feliz, um paraíso artific...
Resumo:
"Rasselas, Príncipe da Abissínia" narra a história do jovem príncipe Rasselas, que vive confinado no Vale Feliz, um paraíso artificial onde todas as suas necessidades são satisfeitas e o sofrimento é desconhecido. Apesar de toda a abundância, Rasselas sente uma profunda insatisfação e anseia por uma felicidade verdadeira e um propósito na vida. Ele compartilha seus pensamentos com Imlac, um sábio poeta e filósofo que viajou pelo mundo e oferece uma perspectiva mais ampla. Juntos, com a irmã de Rasselas, Nekayah, e sua dama de companhia, Pekuah, eles fogem do vale.
Em sua jornada pelo Egito, o grupo busca encontrar o segredo da felicidade em várias formas de vida: pastores, eremitas, filósofos, ricos, pobres e estudiosos. Eles observam a futilidade da riqueza, a melancolia do isolamento, a hipocrisia dos sábios e a loucura da ambição. Cada experiência revela que a felicidade perfeita é inatingível e que cada estado de vida possui suas próprias aflições e desilusões. A busca os leva a refletir sobre a natureza humana, o casamento, o governo, a solidão e a sociedade. Ao final, eles percebem que a felicidade não reside em circunstâncias externas ou em uma escolha de vida definitiva, mas sim em uma disposição interna e na aceitação das imperfeições do mundo. A história culmina sem uma conclusão final sobre onde a verdadeira felicidade pode ser encontrada, refletindo a visão cética de Johnson sobre a capacidade humana de atingir a utopia.
Seções do livro:
Seção 1: O Vale Feliz e a Inquietação de Rasselas
O livro começa apresentando Rasselas, o quarto filho do imperador da Abissínia, que vive no Vale Feliz (Happy Valley). Este vale é um lugar idílico, cercado por montanhas intransponíveis, onde a natureza é exuberante, a música e a arte florescem, e todas as necessidades dos príncipes e princesas são atendidas sem esforço. É um paraíso concebido para protegê-los dos males do mundo exterior. No entanto, aos vinte e seis anos, Rasselas, apesar de viver em meio a tanto esplendor e sem experimentar qualquer carência ou dor, começa a sentir uma profunda melancolia e insatisfação. Ele questiona o propósito de sua existência e busca uma felicidade que transcenda a mera ausência de dor. Ele percebe que a constante satisfação de seus desejos não o torna feliz, mas sim o deixa entediado e ansiando por algo mais significativo. Sua alma anseia por uma compreensão maior da vida e por um destino mais ativo.
| Personagens | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Rasselas | Príncipe da Abissínia; jovem, inteligente, questionador, melancólico, insatisfeito apesar do conforto, idealista. | Curioso, introspectivo, inquieto, filosófico, busca um propósito e a verdadeira felicidade. |
| Imlac | Poeta e filósofo experiente; conselheiro de Rasselas; já viajou pelo mundo. | Sábio, pragmático, observador, culto, desiludido com o mundo, mas ainda capaz de orientar e ensinar. |
| Nekayah | Irmã de Rasselas; princesa. | Inteligente, compassiva, sensível, também busca a felicidade e a sabedoria, propensa à melancolia. |
| Pekuah | Dama de companhia de Nekayah. | Prática, leal, um tanto medrosa, menos filosófica que os outros, mas com bom senso. |
Seção 2: A História de Imlac
Rasselas, em sua angústia, busca a companhia de Imlac, um sábio que vive no vale e que, ao contrário dos outros cortesãos, já teve contato com o mundo exterior. Imlac compartilha sua própria história de vida com o príncipe. Ele nasceu em Abissínia, mas desde cedo sentiu um desejo incontrolável de viajar e conhecer outras terras e culturas. Ele se tornou um mercador e viajou por diversas regiões da África e da Ásia, observando os costumes, a política e a filosofia de diferentes povos. Após acumular conhecimento e fortuna, Imlac dedicou-se à poesia, mas logo percebeu a futilidade da vida de um poeta em um mundo que valoriza mais a riqueza material. Ele descreve a dificuldade de inovar e agradar a todos, a ingratidão e a dependência de patronos. Finalmente, desiludido com a busca pela glória e pela riqueza, ele retornou à Abissínia e acabou por se refugiar no Vale Feliz, buscando tranquilidade e a companhia dos príncipes. Sua narrativa serve para mostrar a Rasselas que a felicidade não é facilmente encontrada no mundo exterior, nem mesmo através da arte ou da exploração.
Seção 3: A Fuga do Vale Feliz
Inspirado pelas histórias de Imlac e ainda mais determinado a buscar a felicidade, Rasselas decide que precisa escapar do Vale Feliz. Ele discute seus planos com Imlac, que o adverte sobre as dificuldades e desilusões do mundo, mas concorda em acompanhá-lo. Rasselas convence sua irmã, a Princesa Nekayah, que também se sente entediada e insatisfeita com a vida reclusa do vale, a se juntar a eles. Nekayah, por sua vez, insiste que sua fiel dama de companhia, Pekuah, vá com eles.
A fuga se mostra um desafio. Eles estudam o terreno por meses, buscando uma passagem pelas montanhas intransponíveis. Finalmente, Imlac descobre uma caverna natural que, com algum trabalho e engenhosidade, pode ser ampliada para permitir a passagem. Com a ajuda de operários que eles secretamente contratam, eles conseguem abrir um túnel. Uma noite, Rasselas, Imlac, Nekayah e Pekuah escapam silenciosamente do Vale Feliz, deixando para trás seu paraíso dourado em busca de uma realidade desconhecida e, esperançosamente, da felicidade.
Seção 4: As Primeiras Observações no Mundo Exterior
Ao emergir do vale, o grupo se encontra em uma vasta planície, o Egito, e começa a observar a vida comum. Eles decidem que, para encontrar a felicidade, devem examinar a vida de todas as classes sociais. Primeiramente, visitam uma aldeia de pastores. Rasselas idealiza a vida simples e natural dos pastores, imaginando que sua existência livre de preocupações e ambições seria a chave para a felicidade. No entanto, ao conversar com eles, descobrem que os pastores são atormentados por inveja, disputas por terras, doenças em seus rebanhos, e a monotonia de suas vidas. Percebem que a simplicidade não garante a felicidade e que cada condição tem suas próprias aflições.
Em seguida, eles exploram a sociedade das grandes cidades, observando a opulência e a agitação. Eles notam que a riqueza não traz contentamento, e que os ricos frequentemente são atormentados por vaidade, tédio e a constante busca por mais. A irmã de Rasselas, Nekayah, expressa uma preferência por uma vida mais ativa e útil, em vez de uma existência de lazer improdutivo. Imlac reitera que a felicidade é um estado de espírito, não de circunstâncias externas.
Seção 5: A Vida Eremítica e os Filósofos
Em sua busca, o grupo decide investigar a vida eremítica. Eles visitam um homem que se retirou da sociedade para viver em total isolamento, acreditando que a solidão o levaria à sabedoria e à paz interior. No entanto, ao encontrá-lo, percebem que o eremita está melancólico, entediado e profundamente solitário. Ele confessa que seu retiro o levou ao desespero e que ele anseia pelo convívio humano. Ele os aconselha a retornar ao mundo e a abraçar a companhia. A experiência mostra que a solidão extrema não é o caminho para a felicidade e que o ser humano é, por natureza, social.
Posteriormente, eles encontram um filósofo estoico que prega a indiferença às paixões e a aceitação serena do destino. O filósofo apresenta-se como um mestre da razão e da autocontrole. No entanto, logo após a morte repentina de sua filha, o mesmo filósofo é visto desabando em profunda dor e desespero, incapaz de aplicar seus próprios ensinamentos. Essa cena serve para ilustrar a fragilidade da filosofia puramente racional e a força incontrolável das emoções humanas, demonstrando que a razão por si só não pode superar o sofrimento inerente à condição humana.
Seção 6: O Estudo da Sociedade e o Conflito do Casamento
Rasselas e Nekayah continuam a observar a sociedade, prestando atenção particular aos arranjos do casamento. Nekayah discute com Imlac sobre as vantagens e desvantagens do casamento, expressando preocupações sobre a tirania dos maridos, a submissão das esposas, e a dificuldade de encontrar um parceiro verdadeiramente compatível. Ela observa que muitos casamentos são baseados em conveniência ou paixão passageira, levando à infelicidade e desilusão.
Imlac oferece sua perspectiva, reconhecendo as dificuldades, mas também apontando os benefícios da companhia e do amor mútuo. Ele sugere que a felicidade no casamento, como em tudo, é uma questão de expectativa e de trabalho mútuo, e que a busca pela perfeição é fútil. A discussão reflete as complexidades das relações humanas e a dificuldade de encontrar a satisfação duradoura em uma instituição que é tanto fonte de alegria quanto de dor. Eles percebem que nem o celibato nem o casamento garantem a felicidade; ambos têm seus próprios desafios.
Seção 7: O Astrônomo Louco
A jornada os leva a um sábio e respeitado astrônomo, famoso por seu vasto conhecimento. O grupo se aproxima dele com grande expectativa, esperando encontrar nele a chave para a felicidade através da sabedoria. No entanto, após um tempo de convivência, eles descobrem que o astrônomo sofre de uma ilusão terrível: ele acredita ser o controlador dos céus e do tempo, responsável pela distribuição da chuva e pela regulação das estações. Ele vive em constante ansiedade e medo de cometer um erro que possa perturbar o universo.
Imlac se esforça para curar o astrônomo de sua loucura, passando longas horas em conversas e raciocínios. Lentamente, o astrônomo começa a duvidar de sua própria megalomania, mostrando um raro lampejo de esperança. Este episódio ilustra a fragilidade da mente humana, mesmo entre os mais inteligentes, e a facilidade com que a razão pode ser obscurecida pela obsessão e pela fantasia. Ele também serve como uma advertência contra a busca excessiva pelo conhecimento e poder, que pode levar à alienação e à loucura.
Seção 8: O Rapto de Pekuah e a Resolução Final
Em um dos momentos de sua jornada, Pekuah, a dama de companhia de Nekayah, é raptada por um grupo de árabes beduínos. Este evento causa grande consternação e tristeza no grupo, especialmente em Nekayah, que se desespera pela perda de sua amiga. Rasselas e Imlac empreendem esforços para resgatá-la, negociando com os raptores. Após um período de ansiedade e negociações, Pekuah é finalmente resgatada.
Ao retornar, Pekuah compartilha suas experiências no cativeiro, revelando que, embora assustada, não foi maltratada e até encontrou alguma forma de adaptação. Sua experiência serve como um contraponto às suas próprias ansiedades anteriores e mostra a resiliência humana.
Após todas as suas observações e desilusões, o grupo chega a uma conclusão melancólica: "The Conclusion in which nothing is concluded" (A Conclusão na qual nada é concluído). Eles perceberam que a felicidade perfeita é uma quimera e que nenhuma condição de vida, seja a reclusão do vale, a vida pastoral, a riqueza, a eremita ou a busca filosófica, oferece uma garantia de contentamento duradouro. A vida é cheia de vicissitudes e a felicidade é mais um estado de espírito passageiro do que uma posse permanente. Eles decidem retornar à Abissínia, não porque encontraram uma resposta definitiva, mas porque entenderam a futilidade de continuar a busca externa por uma felicidade que é inatingível na sua forma idealizada. Eles não encontram uma "escolha de vida" perfeita, mas sim aceitam as imperfeições da existência.
Gênero literário:
Novela filosófica; Sátira; Romance de ideias; Alegoria.
Dados do autor:
- Nome completo: Samuel Johnson
- Período de vida: 18 de setembro de 1709 – 13 de dezembro de 1784
- Nacionalidade: Inglês
- Ocupação: Escritor, poeta, ensaísta, moralista, crítico literário, biógrafo e lexicógrafo. Ele é uma das figuras mais proeminentes da literatura inglesa do século XVIII, frequentemente referido como "Dr. Johnson".
- Outras obras notáveis: "A Dictionary of the English Language" (um dos dicionários mais influentes da história do inglês), "The Lives of the Most Eminent English Poets" (biografias de poetas), ensaios para as revistas "The Rambler" e "The Idler".
- Contexto: Johnson era um conservador e moralista, cujas obras frequentemente refletem um ceticismo sobre a perfeição humana e as promessas utópicas, mas também uma profunda compaixão pela condição humana.
Moral da história:
A principal moral de "Rasselas" é a futilidade da busca pela felicidade perfeita e duradoura nas circunstâncias externas da vida. O livro sugere que a felicidade não é um estado constante que pode ser alcançado através de uma "escolha de vida" ideal (seja ela riqueza, pobreza, solidão, casamento, conhecimento ou poder), mas sim uma série de momentos de contentamento intercalados com desilusão e sofrimento. A obra de Johnson nos ensina que a natureza humana é inerentemente imperfeita e sujeita à dor e à insatisfação, e que a verdadeira sabedoria reside em aceitar essa realidade e encontrar paz dentro das limitações da existência. Não há um "paraíso na terra", e a tentativa de criá-lo ou encontrá-lo é uma vã ilusão.
Curiosidades do livro:
- Escrito em velocidade: Samuel Johnson escreveu "Rasselas" em apenas uma semana (algumas fontes dizem três noites), para pagar os custos do funeral de sua mãe. Ele precisava urgentemente de dinheiro.
- Título completo: O título completo da obra é "The History of Rasselas, Prince of Abissinia. An Oriental Tale" (A História de Rasselas, Príncipe da Abissínia. Um Conto Oriental).
- Conto oriental: A escolha de um cenário "oriental" (Abissínia, que é a Etiópia moderna) era uma moda literária na época, permitindo a Johnson discutir temas universais e filosóficos com um certo distanciamento e exotismo.
- O "Happy Valley": O conceito do "Vale Feliz" tem paralelos com a lenda do "Prestes João" e outras utopias míticas que circulavam na Europa sobre um reino cristão e próspero na Abissínia.
- Recepção: O livro foi um sucesso imediato e continua sendo uma das obras mais lidas de Johnson. Sua influência pode ser vista em autores posteriores que abordaram temas semelhantes de busca filosófica e ceticismo em relação à utopia.
- Final aberto: A frase "The Conclusion in which nothing is concluded" é uma das mais famosas do livro e encapsula perfeitamente a mensagem de Johnson de que a busca pela verdade e pela felicidade é um processo contínuo e muitas vezes sem uma resposta definitiva e satisfatória.
- Comparação com "Cândido": "Rasselas" é frequentemente comparado a "Cândido" de Voltaire, publicado no mesmo ano (1759). Ambos são novelas filosóficas que satirizam o otimismo ingênuo e exploram a busca pela felicidade e o problema do mal no mundo, embora com estilos e conclusões distintas. Enquanto Cândido sugere "cultivar nosso jardim", Rasselas oferece uma aceitação mais resignada da imperfeição.
