Tartuffe ou l'Imposteur - Molière

Resumo

"Tartuffe ou l'Imposteur" de Molière é uma comédia em cinco atos que satiriza a hipocrisia religiosa e a cegueira fanática. A peça centra-se em Orgon, um homem rico e influente que caiu sob o feitiço de Tartuffe, um falso devoto que ele acolheu em sua casa. Orgon está tão obcecado com a suposta piedade de Tartuffe que ignora todos os conselhos de sua família, que vê através da fachada do impostor.

A família de Orgon, incluindo sua esposa Elmire, seu cunhado Cléante, seus filhos Damis e Mariane, e a espirituosa empregada Dorine, tenta desesperadamente abrir os olhos de Orgon para a verdadeira natureza de Tartuffe. O clímax ocorre quando Orgon decide casar sua filha Mariane com Tartuffe e o nomeia seu único herdeiro, deserdando seus próprios filhos. Elmire planeja uma armadilha para Orgon testemunhar a verdadeira luxúria de Tartuffe por ela. Embora Orgon finalmente perceba seu erro, é tarde demais, pois Tartuffe usa documentos que Orgon lhe entregou para tentar expulsar a família de sua própria casa e denunciá-lo ao rei. A intervenção final e "deus ex machina" do rei, que revela ter visto através do ardil de Tartuffe, salva a família de Orgon e pune o impostor, restaurando a ordem e a justiça.

Seções do livro

Seção 1: Ato I

A peça começa com Madame Pernelle, a mãe de Orgon, saindo da casa de seu filho, repreendendo toda a família por seus estilos de vida e por não apreciarem a "virtude" de Tartuffe. Ela defende veementemente o suposto homem santo, enquanto todos os outros, incluindo a empregada Dorine, o cunhado Cléante, a esposa Elmire e os filhos Damis e Mariane, expressam seu desdém e ceticismo em relação a Tartuffe, que eles consideram um hipócrita e um parasita.

Orgon retorna e imediatamente pergunta sobre Tartuffe, mostrando muito mais preocupação com o impostor do que com a recente doença de sua esposa, Elmire. Ele elogia Tartuffe por sua devoção, sua pobreza e sua humildade, descrevendo-o como um exemplo de homem de fé. Cléante tenta argumentar com Orgon, apontando a diferença entre a verdadeira piedade e o fanatismo ostensivo, mas Orgon está cego pela sua devoção a Tartuffe e se recusa a ouvir a razão. Ele revela que deseja casar sua filha Mariane com Tartuffe, para grande consternação de todos, especialmente de Mariane, que já está apaixonada por Valère.

Personagem Características e Personalidade
Orgon O patriarca da família, um homem rico e influente. Inicialmente sensato e bom, mas torna-se completamente dominado e cegado pela suposta santidade de Tartuffe. É teimoso, crédulo e ingênuo em sua fé, recusando-se a ver a verdade que todos à sua volta percebem.
Madame Pernelle Mãe de Orgon. Ainda mais dogmática e intolerante que seu filho. Defende Tartuffe com fervor e critica severamente os hábitos e a moral de sua família, representando uma forma de fanatismo ainda mais rígida e julgadora.
Elmire Esposa de Orgon. Sensata, calma e inteligente. É a voz da razão e da dignidade na casa, embora seja inicialmente ignorada. Possui grande força de caráter e é astuta em suas tentativas de desmascarar Tartuffe.
Damis Filho de Orgon. Impulsivo, temperamental e propenso a explosões de raiva. É o mais direto e agressivo em sua oposição a Tartuffe, mas sua falta de tato e impaciência muitas vezes prejudicam seus próprios objetivos.
Mariane Filha de Orgon. Jovem, bela e profundamente apaixonada por Valère. É tímida, obediente e um tanto fraca de vontade no início, hesitando em desafiar a autoridade de seu pai, o que a torna alvo das maquinações de Tartuffe.
Cléante Cunhado de Orgon. Representa a voz da razão e da filosofia moral na peça. É um homem de princípios, calmo e articulado, que tenta argumentar com Orgon usando a lógica e o bom senso, distinguindo a verdadeira piedade da hipocrisia.
Dorine Empregada de Mariane. É uma personagem espirituosa, cínica e perspicaz. Serve como a consciência prática da casa, falando francamente e sem rodeios. É inteligente, leal e corajosa, não temendo desafiar Orgon ou Tartuffe.

Seção 2: Ato II

Orgon informa a Mariane sobre seus planos de casá-la com Tartuffe. Mariane fica devastada, mas não consegue se opor abertamente ao pai. Dorine, no entanto, intercede corajosamente, usando sarcasmo e lógica para tentar dissuadir Orgon, zombando da ideia de Mariane se casar com um homem tão hipócrita e pobre. Orgon fica furioso com a intromissão de Dorine.

Após a saída de Orgon, Dorine confronta Mariane por sua passividade e a encoraja a lutar por seu amor por Valère. Valère entra e os dois amantes brigam, cada um pensando que o outro está cedendo ao plano de Orgon. Valère, ressentido com a aparente falta de resistência de Mariane, ameaça se casar com outra mulher. Dorine intercede novamente, forçando-os a se reconciliarem e a traçarem um plano para impedir o casamento com Tartuffe. Eles decidem adiar o casamento e buscar a ajuda de Elmire.

A peça, intitulada "Tartuffe ou l'Imposteur", foi escrita por Molière (cujo nome verdadeiro era Jean-Baptiste Poquelin). A versão original de 1664 foi censurada e banida pela Igreja Católica na França devido à sua crítica contundente à hipocrisia religiosa. Molière teve que reescrever a peça várias vezes, suavizando alguns aspectos, até que uma versão final, aceitável para o rei Luís XIV, foi encenada em 1669.

Seção 3: Ato III

Tartuffe finalmente aparece em cena. Dorine tenta confrontá-lo sobre o casamento, mas ele a ignora, exibindo uma falsa piedade e pedindo a Laurent, seu criado, que guarde seu chicote e cilício, um gesto para demonstrar sua humildade.

Quando Elmire entra, Tartuffe imediatamente demonstra sua verdadeira natureza. Ele começa a cortejá-la abertamente, fazendo avanços indesejáveis sob o pretexto de preocupação espiritual. Damis, escondido e testemunhando a cena, fica indignado e sai de seu esconderijo para expor Tartuffe a Orgon.

Orgon entra e Damis relata o que viu. No entanto, Tartuffe, com mestria, inverte a situação. Ele se acusa, se humilha e se declara um pecador indigno, manipulando Orgon para acreditar que Damis é um mentiroso e que ele próprio é a vítima de calúnias. Orgon, furioso com Damis por ousar falar mal de Tartuffe, deserde-o e expulsa-o de casa. Em um ato de cegueira ainda maior, Orgon decide não apenas casar Tartuffe com Mariane imediatamente, mas também transferir toda a sua fortuna e propriedades para Tartuffe.

Seção 4: Ato IV

Cléante tenta argumentar com Tartuffe sobre sua conduta, exortando-o a ser um verdadeiro homem de fé, mas Tartuffe se mostra arrogante e desafiador. Ele se recusa a devolver a propriedade de Orgon e a permitir que Damis retorne.

Elmire faz uma última tentativa para abrir os olhos de Orgon. Ela convence seu marido a se esconder debaixo de uma mesa enquanto ela atrai Tartuffe para uma conversa romântica. Elmire finge ceder aos avanços de Tartuffe, que se torna cada vez mais ousado em suas declarações de amor e desejo físico. Orgon, da sua escuta escondida, finalmente ouve a verdadeira natureza de Tartuffe e a sua intenção de seduzir Elmire.

Quando Orgon se revela, confrontando Tartuffe, o impostor não demonstra remorso, mas sim arrogância. Ele lembra Orgon que a casa agora é dele, graças à doação que Orgon assinou, e que tem o poder de expulsar Orgon e sua família. Orgon percebe a profundidade de seu erro e a traição de Tartuffe.

Seção 5: Ato V

Apesar da revelação de Tartuffe, os problemas da família Orgon estão longe de terminar. Tartuffe, agora em posse da escritura da casa e de uma caixa contendo documentos incriminadores que Orgon confiou a ele, usa seu poder para expulsar a família. Monsieur Loyal, um oficial de justiça, chega para cumprir a ordem de despejo, e Madame Pernelle, que ainda se recusa a acreditar na maldade de Tartuffe, finalmente testemunha sua insolência.

Orgon também está preocupado com a caixa de documentos que confiou a Tartuffe, que continha correspondência comprometedora de um amigo exilado político. Se esses documentos caíssem nas mãos erradas, Orgon estaria em sérios apuros. Valère traz a notícia de que Tartuffe denunciou Orgon ao rei e que ele está sendo procurado.

No momento de maior desespero, quando Orgon está prestes a ser preso, um oficial do rei chega. Todos esperam que ele prenda Orgon, mas, para surpresa geral, o oficial anuncia que o rei, conhecido por sua sabedoria, já havia suspeitado da hipocrisia de Tartuffe. O rei não só perdoou Orgon por sua tolice e pelos documentos incriminadores, mas também ordenou a prisão de Tartuffe por suas muitas fraudes. Tartuffe é levado preso, a propriedade de Orgon é restaurada, e Orgon, finalmente livre de sua cegueira, dá seu consentimento para o casamento de Mariane com Valère.

| Personagem | Características e Personalidade Valère, filho de Orgon. Valère é um cavalheiro honesto e honrado, profundamente apaixonado por Mariane. É respeitoso e justo, embora se irrite com a indecisão de Mariane em relação ao casamento forçado. Sua lealdade à família Orgon é evidente. |
| Monsieur Loyal | Oficial de justiça. Representa a burocracia legal. Ele é formal, educado, mas implacável em seu dever de executar as ordens, mesmo que injustas, o que o torna um símbolo da lei que pode ser manipulada por vilões. |
| Oficial do Rei | Representa a justiça e a autoridade suprema do rei. Sua chegada como "deus ex machina" simboliza a intervenção divina ou a justiça perfeita. Ele é imparcial, sábio e capaz de discernir a verdade além das aparências. |

Gênero literário

Comédia de costumes e comédia de caráter. A peça é uma sátira mordaz da hipocrisia religiosa, do fanatismo e da cegueira humana.

Dados do autor

Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), mais conhecido como Molière, foi um dos maiores dramaturgos e atores da literatura francesa. Nascido em Paris, era filho de um estofador e criado da corte. Abandonou a carreira familiar para seguir sua paixão pelo teatro, fundando o "Illustre Théâtre". Após anos de dificuldades e viagens pela província, Molière e sua trupe alcançaram o sucesso em Paris sob a proteção do rei Luís XIV. Suas obras, muitas vezes controversas, criticavam os costumes da sociedade de sua época, a hipocrisia, a pedantismo e a pretensão. Entre suas peças mais famosas estão "O Misantropo", "O Burguês Gentil-Homem", "As Preciosas Ridículas", "Escola de Mulheres" e "O Doente Imaginário" (onde ele colapsou no palco e morreu logo depois). Molière é considerado um mestre da comédia clássica, utilizando o riso para expor as fraquezas e tolices humanas.

Moral da história

A moral principal de "Tartuffe" é a condenação da hipocrisia e do fanatismo religioso. Molière nos alerta sobre o perigo de julgar as pessoas pelas aparências externas de piedade e devoção, em vez de seus atos e caráter verdadeiros. A peça ensina que a verdadeira fé é humilde e se manifesta em ações virtuosas, enquanto a falsa devoção é uma máscara para a ambição, a ganância e a depravação. Também critica a cegueira e a teimosia dos que se deixam enganar por tais impostores, negligenciando a razão e o bom senso.

Curiosidades

  1. Censura Histórica: "Tartuffe" foi uma das peças mais controversas de Molière. Sua primeira versão, apresentada em 1664, foi imediatamente banida por Luís XIV sob pressão da Igreja e de grupos religiosos influentes, que a consideraram um ataque à religião. Molière teve que reescrever a peça várias vezes, suavizando alguns dos ataques mais diretos e adicionando a intervenção do rei no final para garantir sua aprovação. A versão final só foi permitida em 1669.
  2. O "Tartuffe" como Arquétipo: O nome "Tartuffe" tornou-se um substantivo comum na língua francesa (e em outras línguas, como o português, "tartufo"), para descrever uma pessoa hipócrita, especialmente um falso religioso ou moralista.
  3. A Crítica à Companhia do Santo Sacramento: Embora Molière negasse que a peça atacasse a verdadeira religião, ela era amplamente vista como uma crítica velada à "Companhia do Santo Sacramento" (Compagnie du Saint-Sacrement), uma sociedade secreta de católicos devotos que se dedicava a promover a virtude e combater o pecado, mas que também era conhecida por sua influência política e moralista rigorosa.
  4. Molière como Ator: Molière frequentemente atuava em suas próprias peças. Na primeira apresentação de "Tartuffe", ele provavelmente interpretou um dos papéis secundários, mas não o de Tartuffe, para se distanciar da controvérsia.
  5. A Solução "Deus ex Machina": O final da peça, com a intervenção súbita e quase milagrosa do rei para resolver todos os problemas, é um exemplo clássico de "deus ex machina". Embora critics modernos às vezes o considerem uma solução conveniente, na época era uma forma de Molière demonstrar lealdade ao monarca e apaziguar os censores, atribuindo ao rei a sabedoria e a justiça supremas.