The Four Zoas - William Blake

Resumo

"As Quatro Zoas" (originalmente intitulado Vala, ou As Quatro Zoas) é um poema épico profético inacabado de William Blake, escrito e ilustrado entre 1795 e 1807. A obra narra a queda e a redenção de Albion, o Homem Universal, através da fragmentação de suas quatro facetas primordiais — as Zoas: Urizen (Razão), Luvah (Emoção), Tharmas (Instinto) e Urthona (Imaginação).

O poema começa com a dissolução da unidade de Albion, que leva cada Zoa a se separar de sua emanação (sua contraparte feminina) e a lutar por supremacia, mergulhando o universo no caos, na dor e na morte. Urizen, representando a razão tirânica, tenta impor sua ordem, mas falha miseravelmente. Luvah se torna Orc, a paixão revolucionária e destrutiva. Tharmas se fragmenta em lamentação e desespero, e Urthona, a imaginação, se torna Los, o profeta e artífice que luta para preservar alguma forma de humanidade no mundo caído.

Através de nove "Noites" (partes), Blake descreve a miséria da existência dividida, as consequências da supressão da imaginação e da emoção pela razão, e os esforços de Los para criar formas e limites que evitem a aniquilação completa. O poema culmina em um Juízo Final e na Ressurreição de Albion, onde as Zoas se reintegram e o Homem Universal retorna à sua unidade e harmonia originais, através do poder redentor da imaginação e do sacrifício divino. A obra é uma exploração profunda da condição humana, da mitologia pessoal de Blake e da crença na necessidade de equilíbrio entre as faculdades humanas para alcançar a verdadeira divindade.

Seções do livro

Seção Primeira

A Noite Primeira começa com a descrição da queda de Albion, o Homem Universal. Sua unidade é rompida, e as quatro Zoas — os princípios fundamentais de sua constituição – se fragmentam e entram em conflito. Tharmas, o Zoa do instinto e da sensação, é o primeiro a se desintegrar, causando caos primordial. Sua emanação, Enion, lamenta profundamente a perda de sua unidade. Luvah, o Zoa da emoção e da paixão, se rebela, resultando na sua separação de sua emanação, Vala. Urizen, o Zoa da razão e da lei, tenta impor sua ordem sobre o caos, criando um sistema de leis e uma escuridão gelada. Urthona, o Zoa da imaginação e da criatividade, também cai, e sua sombra se torna Los, o profeta, enquanto sua emanação se torna Enitharmon. A Noite estabelece o cenário de um universo fragmentado e em sofrimento, com cada Zoa e sua emanação lidando com as consequências da queda.

Personagem Características Personalidade
Albion O Homem Universal, representando a humanidade coletiva. Inicialmente divino e harmonioso, depois fragmentado e em sofrimento.
Urizen Representa a razão, a lei, a mente analítica. Tenta impor ordem, mas se torna tirânico, dogmático e frio.
Luvah Representa as emoções, o amor, as paixões. Impulsivo, rebelde, se transforma em força destrutiva.
Tharmas Representa os instintos, o corpo, a sensação, a base material. Primeiramente forte e firme, mas se fragmenta, tornando-se uma figura de lamentação e caos.
Urthona Representa a imaginação, a criatividade, a energia espiritual. Caído e fragmentado, sua sombra é Los; é a força redentora final.
Ahania Emanação de Urizen, representa o prazer, a sabedoria, a alegria do intelecto. Suprimida e lamentosa sob o domínio de Urizen.
Vala Emanação de Luvah, representa a beleza natural, a sensualidade, a natureza material. Sedutora, mas também a causa de parte da queda ao se separar de Luvah.
Enion Emanação de Tharmas, representa a natureza lamentosa, a fragmentação da sensação. Uma figura de profunda tristeza e desespero, a mãe da mortalidade.
Enitharmon Emanação de Urthona/Los, representa a piedade, a beleza espiritual, o espaço, o tempo. Criadora de formas e tempos, presa à mortalidade, mas também com potencial de redenção.
Los A forma caída de Urthona, o Profeta, o artista, o forjador. Lutador incansável contra a dissolução, preservador da humanidade, figura central na redenção.
Orc A forma caída e rebelde de Luvah, a paixão revolucionária e o desejo não refreado. Rebelde, aprisionado, representa a energia revolucionária que pode ser libertadora ou destrutiva.
O Espectro de Urthona A parte material e racional de Urthona, seu ego caído. Antagonista de Los, representando a razão que busca dominar a imaginação.

Seção Segunda

A Noite Segunda detalha a jornada de Urizen pelo mundo que ele mesmo criou, um mundo de escuridão e gelo, onde ele tenta desesperadamente impor sua ordem e suas leis. Ele encontra Enion, que lamenta amargamente a miséria e a mortalidade da existência. Urizen, horrorizado com a corrupção e a fragmentação que vê, mas incapaz de entender suas próprias limitações, continua a sua busca por controle. Enquanto isso, Los e Enitharmon se esforçam para dar forma ao mundo caído. Eles têm filhos, simbolizando a criação de tempo e espaço, e a proliferação da vida e da morte no plano material. A criação dos filhos de Los e Enitharmon representa o esforço para conter o caos e dar forma à eternidade caída, mas também estabelece o ciclo de geração e corrupção.

Seção Terceira

Nesta Noite, Luvah, sob a forma de uma serpente, seduz Vala e se disfarça, assumindo o controle do carro do Sol de Urizen. Essa usurpação de poder leva a um desequilíbrio ainda maior no universo. Luvah, agora corrompido, se transforma em Orc, a figura da paixão revolucionária e da rebelião impetuosa, que se manifesta como um fogo destrutivo. Ahania, a emanação de Urizen, lamenta a tirania de seu Zoa e a dor da existência. Los, o profeta, entra em cena mais ativamente, começando sua tarefa de forjar as formas do mundo caído e lutar contra a desintegração total, embora ele e Enitharmon estejam profundamente aflitos com a situação.

Seção Quarta

A Noite Quarta é dominada pelo lamento contínuo e desesperador de Enion, que personifica a lamentação da natureza pela perda da inocência e a miséria da existência fragmentada. Urizen, agora em profundo desespero, questiona a sabedoria de suas próprias criações e leis. No entanto, sua incapacidade de se arrepender verdadeiramente o mantém preso em seu tormento. Para conter o caos em ascensão e proteger o que resta do universo, é criada a "Concha Mundana" (Mundane Shell), uma barreira ou casca que, embora ofereça alguma proteção contra a aniquilação completa, também aprisiona os seres caídos dentro de seus limites, tornando-os mortais e limitados.

Seção Quinta

Nesta Noite, Urizen continua suas intermináveis explorações do universo que ele moldou, obcecado em impor suas leis e sua ordem estrita. Ele descobre Orc, acorrentado e furioso, e tenta controlá-lo e submetê-lo à sua vontade racional. No entanto, Orc, a paixão revolucionária, se rebela violentamente contra a tirania de Urizen, exacerbando ainda mais a divisão e o conflito. A natureza de Vala, a emanação de Luvah, é mais profundamente explorada, e os conflitos entre as emanações e suas Zoas continuam, mostrando a interdependência e a disfunção do mundo caído. Urizen se depara com os resultados de sua própria cegueira e egoísmo, mas ainda luta para aceitar sua parte na catástrofe.

Seção Sexta

A Noite Sexta foca na labuta incessante de Los e Enitharmon. Eles trabalham para construir formas, limites e o tempo no mundo caído, a fim de impedir a dissolução completa. Com seu martelo e forja, Los cria e limita o universo material, impedindo que o caos de Urizen e Orc o destrua. Eles tentam refrear Orc, mas sua energia rebelde se mostra incontrolável, tornando-o uma força tanto de destruição quanto de eventual renovação. Os filhos de Los e Enitharmon, nascidos no tempo e no espaço, crescem e se espalham, simbolizando a proliferação da humanidade e a extensão da vida no mundo caído, mas também sua sujeição à mortalidade.

Seção Sétima

Esta Noite é dividida em duas partes principais. A primeira foca na luta interna de Los contra seu próprio "Espectro de Urthona" – a parte material, egoísta e racionalizada de sua imaginação. Essa batalha é crucial para a redenção, pois Los deve dominar seu próprio espectro para poder exercer seu poder criativo. Enquanto isso, Urizen continua a construir suas "churches" (igrejas) e sistemas de opressão, espalhando dogmas e restrições. Tharmas, o instinto, lamenta sua fragmentação e busca sua emanação, Enion. A necessidade da imaginação (representada por Los) para conter o caos e guiar a humanidade para a redenção é reiterada. No final da noite, começa a haver um vislumbre de esperança com um leve despertar de Tharmas e Enion, indicando que a reunificação está começando.

Seção Oitava

A Noite Oitava marca um ponto de virada crucial na narrativa. Ocorre a "Grande Colheita" e a "Vindima", eventos apocalípticos que representam um processo de julgamento, purificação e transformação. Tharmas, o instinto, começa a retornar à sua forma original e se reúne com sua emanação, Enion, simbolizando o início da cura da fragmentação primordial. A redenção de Los também se manifesta, pois ele transcende sua forma caída e se prepara para sua eventual reintegração com Urthona. Este é o começo da reintegração de todas as Zoas e suas emanações, um prelúdio para a harmonia final e a restauração do Homem Universal.

Seção Nona

A Noite Nona é a culminação do poema, descrevendo o Juízo Final e a Ressurreição de Albion. Todas as Zoas e suas emanações finalmente se reintegram, restaurando a unidade e a harmonia que foram perdidas na queda. Urizen se arrepende de sua tirania, Luvah (Orc) é transfigurado, Tharmas e Urthona recuperam seu poder primordial. A imaginação, através de Urthona, é celebrada como a força suprema e redentora. Um novo paraíso é forjado, onde a vida e a morte são transfiguradas, e o Homem Universal, Albion, retorna ao seu estado divino e original, vivendo em eterna harmonia e criatividade. É uma visão de redenção e renovação cósmica.

Gênero literário

Poema épico, Poema profético, Poesia visionária, Mitologia pessoal.

Dados do autor

William Blake (1757-1827) foi um poeta, pintor e gravurista inglês. Embora em grande parte não reconhecido durante sua vida, Blake é agora considerado uma figura seminal na história da poesia e das artes visuais da Era Romântica. Seu trabalho é caracterizado por um profundo misticismo, visões proféticas e uma complexa mitologia pessoal, que ele desenvolveu em uma série de "Livros Proféticos", dos quais "As Quatro Zoas" é um dos mais ambiciosos. Ele era um crítico ferrenho da religião organizada e do Iluminismo, defendendo a imaginação como a principal faculdade humana e o caminho para a verdade espiritual. Seus poemas e ilustrações frequentemente combinavam texto e imagem de forma inovadora, criando "manuscritos iluminados" que ele gravava, imprimia e coloria à mão.

Moral

A moral central de "As Quatro Zoas" reside na advertência contra a fragmentação da alma humana e a supressão de qualquer uma de suas faculdades essenciais. Blake argumenta que quando a Razão (Urizen) se torna tirânica e tenta dominar as Emoções (Luvah), os Instintos (Tharmas) e a Imaginação (Urthona), o resultado é o caos, a miséria e a morte. A verdadeira harmonia e a divindade humana só podem ser alcançadas através da reintegração e do equilíbrio de todas as faculdades, com a Imaginação servindo como a força primordial e redentora. O poema prega a necessidade do amor, da compaixão e da liberdade imaginativa para superar as divisões e restaurar a unidade original do Homem Universal.

Curiosidades

  • Inacabado e Não Publicado em Vida: "As Quatro Zoas" nunca foi concluído por Blake e nunca foi publicado em sua vida. O manuscrito é uma coleção complexa de folhas, com muitas revisões, emendas e passagens riscadas, o que torna sua interpretação desafiadora para os estudiosos.
  • Nome Original: O título original do manuscrito era "Vala, ou As Quatro Zoas", mas Blake o alterou várias vezes e adicionou o subtítulo "O Grande Juízo Final", refletindo a evolução de suas ideias.
  • Mitologia Pessoal: A obra é um pilar da complexa e original mitologia pessoal de Blake, que ele usou para reinterpretar a Bíblia e criar sua própria cosmogonia. Os nomes e papéis das Zoas são invenções de Blake para descrever os aspectos da alma humana.
  • Formato de Manuscrito Iluminado: Embora "As Quatro Zoas" não tenha sido gravado e impresso como muitos de seus outros livros proféticos, Blake originalmente o concebeu com ilustrações. O manuscrito existente contém numerosas gravuras e desenhos em aquarela que acompanham o texto.
  • Influência: Apesar de sua obscuridade por muitos anos, "As Quatro Zoas" é hoje considerado uma das obras mais ambiciosas e visionárias de Blake, oferecendo uma visão profunda de sua filosofia e influenciando estudos sobre o Romantismo e a literatura mística.