Trabalhos de Amor Perdidos - William Shakespeare
Resumo O Rei de Navarra, Ferdinando, e seus três senhores, Berowne, Longaville e Dumain, fazem um juramento solene de dedicar-se ao estudo ...
Resumo
O Rei de Navarra, Ferdinando, e seus três senhores, Berowne, Longaville e Dumain, fazem um juramento solene de dedicar-se ao estudo por três anos, abstendo-se de prazeres mundanos, incluindo a companhia de mulheres. No entanto, a chegada inesperada da Princesa da França e suas três damas de honra – Rosaline, Maria e Catarina – para discutir assuntos de estado, testa imediatamente a sua resolução. Os homens são forçados a quebrar o seu voto, pois se apaixonam pelas damas. Paralelamente, desenvolve-se uma subtrama cômica envolvendo o pedante espanhol Don Adriano de Armado, o palhaço rústico Costard, e a camponesa Jacquenetta, juntamente com o pedante mestre-escola Holofernes e o Curate Nathaniel. Os senhores, um a um, revelam ter quebrado seu juramento, e tentam cortejar as damas, primeiro disfarçados de moscovitas, o que resulta em confusão e ridículo. Quando a verdade de seus amores é revelada, as damas impõem uma prova de um ano de separação e serviço antes que eles possam reivindicar suas noivas, desafiando a sinceridade e a constância de seus sentimentos. A peça termina com a incerteza do amor e a promessa de um futuro, em vez de um casamento imediato.
Seções do livro
Seção 1
A peça começa no reino de Navarra, onde o Rei Ferdinando e seus três nobres – Berowne, Longaville e Dumain – se reúnem. O Rei propõe um juramento: dedicar-se intensamente ao estudo por três anos, vivendo uma vida austera, sem sono adequado, sem comida rica e, crucialmente, sem a companhia de mulheres. Berowne, o mais cético e espirituoso do grupo, argumenta contra a praticidade e a sensatez de tal voto, prevendo que será impossível de cumprir. No entanto, ele acaba por ceder e assina o juramento, embora com grande relutância.
Pouco depois de selarem seu pacto, o oficial Dull traz Don Adriano de Armado, um fidalgo espanhol excêntrico e pedante, para o Rei. Armado relata que o palhaço Costard foi apanhado em flagrante com Jacquenetta, uma camponesa. O Rei, lembrando que seu próprio juramento proíbe a companhia de mulheres no seu reino, ordena que Costard seja punido e que Armado, que confessa ter ele próprio se apaixonado por Jacquenetta, também seja submetido a um jejum rigoroso e outras penitências. Essa cena estabelece imediatamente a ironia central da peça: os homens juraram evitar as mulheres, mas a tentação e a atração já estão presentes e são difíceis de controlar, até mesmo para o extravagante Armado.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Rei de Navarra | Soberano de Navarra; idealista, mas ingênuo; proponente do voto. | Sério, aspirante a filósofo, um tanto autoritário, mas apaixonável. |
| Berowne | Senhor do Rei; o mais inteligente e retórico do grupo; cético quanto ao voto. | Espírito livre, irônico, sarcástico, apaixonado por palavras e pela vida. |
| Longaville | Senhor do Rei; mais calmo e comedido que Berowne. | Nobre, estudioso, mas suscetível ao amor. |
| Dumain | Senhor do Rei; o mais jovem e talvez o mais romântico. | Jovem, entusiasta, facilmente influenciável pelo amor. |
| Princesa da França | Herdeira do trono francês; vem a Navarra em missão diplomática. | Inteligente, digna, astuta, perspicaz e bem-humorada. |
| Rosaline | Dama de honra da Princesa; objeto do afeto de Berowne. | Assertiva, espirituosa, com uma língua afiada e uma inteligência à altura de Berowne. |
| Maria | Dama de honra da Princesa; objeto do afeto de Longaville. | Grácil, elegante, mais recatada, mas igualmente inteligente. |
| Catarina | Dama de honra da Princesa; objeto do afeto de Dumain. | Nobre, de bom coração, atenta. |
| Boyet | Um cortesão que acompanha a Princesa; observador e fofoqueiro. | Conhecedor das fofocas da corte, perspicaz, um tanto efeminado. |
| Don Adriano de Armado | Espanhol extravagante; falante, pedante, pretensioso e exagerado. | Cômico, apaixonado de forma dramática, usa uma linguagem floreada e artificial. |
| Costard | Um palhaço rústico; camponês simples. | Ingênuo, literal, propenso a malapropismos (erros de uso de palavras). |
| Jacquenetta | Uma camponesa iletrada; objeto do afeto de Armado e Costard. | Simples, prática, um tanto ingênua. |
| Holofernes | Mestre-escola pedante e vaidoso; adora exibir seu conhecimento. | Arrogante, pedante, usa linguagem excessivamente culta e complexa. |
| Sir Nathaniel | Um padre rural; menos instruído que Holofernes, mas igualmente formal. | Respeitoso, um tanto bajulador, acompanha Holofernes em sua pedanteria. |
| Dull | Um oficial de justiça; muito literal e simples. | Lento de raciocínio, prático, mas sem grande inteligência. |
Seção 2
A Princesa da França chega ao reino de Navarra, acompanhada por suas damas de honra: Rosaline, Maria e Catarina, e seu cortesão Boyet. Elas vêm para negociar a devolução de Aquitânia, uma região em disputa, com o Rei Ferdinando. A chegada das mulheres imediatamente coloca os senhores de Navarra numa posição embaraçosa, pois seu voto proíbe que se aproximem de mulheres. Eles são forçados a violar seu juramento para cumprir os deveres de hospitalidade e diplomacia.
A Princesa e suas damas instalam-se em tendas fora do parque do Rei, pois a regra proíbe a entrada de mulheres. Durante os primeiros encontros, há uma troca de inteligência e gracejos. Fica claro que a Princesa e suas damas não são mulheres ingênuas; elas são astutas e observadoras. Boyet, que é um fofoqueiro e bom observador, percebe rapidamente o interesse dos homens pelas damas, especialmente o Rei por sua própria Princesa, Longaville por Maria, Dumain por Catarina e, de forma mais evidente, Berowne por Rosaline. Ele relata essas observações às damas, que se divertem com a hipocrisia e a inevitável quebra dos votos dos homens. A atração é mútua e palpável, apesar dos esforços iniciais dos homens para manterem a distância e a formalidade.
Seção 3
Berowne, o mais articulado e inicialmente cético dos senhores, confessa sua paixão por Rosaline. Ele entrega uma carta a Costard para que a leve a Rosaline, lamentando que, apesar de sua inteligência e de ter previsto a inutilidade do juramento, ele próprio caiu na armadilha do amor. Ao mesmo tempo, Don Armado também pede a Costard que entregue uma carta de amor a Jacquenetta. Costard, com sua habitual confusão e malapropismos, troca as cartas.
Jacquenetta recebe a carta de Berowne e, sendo analfabeta, pede a Holofernes, o pedante mestre-escola, e a Sir Nathaniel, o padre, que a leiam. Eles descobrem que a carta é de Berowne para Rosaline, cheia de versos de amor e com a clara admissão de que ele quebrou seu juramento. Reconhecendo a gravidade da situação (pois o Rei havia ordenado que qualquer violação do voto fosse reportada), eles decidem levar a carta ao Rei, antecipando que isso terá consequências para Berowne. Esta troca de cartas acidental é um catalisador para a exposição da hipocrisia dos senhores.
Seção 4
Esta seção é o auge da comédia dos erros e da revelação das paixões. O Rei, passeando sozinho, lê um soneto de amor que escreveu para a Princesa, confessando sua paixão e a quebra de seu voto. Ele se esconde ao ver Longaville se aproximar. Longaville, por sua vez, lê um poema para Maria, admitindo seu amor e a quebra do juramento, e se esconde ao ver Dumain. Dumain, então, recita um poema para Catarina, confessando seu amor e a violação do voto, e se esconde ao ver Berowne.
Berowne, que estava escondido, aparece e, pensando que é o único a ter quebrado o voto, começa a ridicularizar os outros três por sua hipocrisia, sem saber que eles também estão presentes e escondidos. Ele os repreende severamente por terem se entregue ao amor. Enquanto ele fala, um por um, Longaville, Dumain e finalmente o Rei emergem de seus esconderijos, cada um revelando ter ouvido os outros e ter se confessado culpado. Berowne, pego em sua própria hipocrisia, é forçado a admitir sua paixão por Rosaline.
Apesar da humilhação, eles percebem que todos quebraram o juramento e que é inútil tentar manter a farsa. Berowne, com sua oratória característica, argumenta que o verdadeiro estudo reside no amor e que o juramento foi tolo desde o início. Eles decidem, então, cortejar abertamente as damas. No entanto, as damas, alertadas por Boyet sobre os planos dos homens e a quebra de seus votos, decidem se divertir às custas deles. Elas trocam lenços e disfarces, confundindo os homens e planejando ridicularizá-los.
Seção 5
Os senhores, agora determinados a cortejar as damas, aparecem disfarçados de "moscovitas" (russos) para uma mascarada, na esperança de surpreender as damas com sua galanteria e paixão. No entanto, devido à troca de disfarces e adereços entre as damas, cada senhor corteja a dama errada, pensando que está cortejando sua amada. As damas, cientes da artimanha e da hipocrisia dos homens (que estão violando abertamente o juramento de não se envolver com mulheres), respondem com zombarias e trocam insultos inteligentes com eles. Os senhores ficam frustrados e humilhados quando percebem o erro e a sagacidade das damas.
Depois da mascarada falhada, os homens voltam com suas próprias roupas para um encontro direto. Eles confessam abertamente seu amor e pedem perdão pela sua vaidade e engano. As damas, satisfeitas por terem exposto a tolice e a hipocrisia dos homens, aceitam seus pedidos de desculpa.
Em paralelo, os personagens cômicos – Don Armado, Costard, Holofernes, Sir Nathaniel e Dull – organizam uma peça dentro da peça, uma apresentação dos "Nove Vultos Virtuosos" para entreter a corte. A performance é desastrosa, cheia de erros, interrupções e pedantismo exagerado. Os senhores e as damas se divertem muito ridicularizando os artistas, embora Berowne os repreenda por sua crueldade.
A diversão é abruptamente interrompida por um mensageiro que chega com a notícia chocante da morte do Rei da França, pai da Princesa. A Princesa precisa partir imediatamente. Diante da partida iminente e da incerteza do futuro, as damas, lideradas pela Princesa, decidem que os senhores devem provar a sinceridade de seu amor e seus votos. A Princesa exige que o Rei passe um ano isolado em um mosteiro, e as outras damas impõem provas semelhantes de um ano de serviço e autoconhecimento aos seus pretendentes.
Os senhores, chocados com a reviravolta, aceitam as condições, embora Berowne lamente a inesperada conclusão "sem um casamento" para uma comédia. A peça termina com dois poemas cantados, um sobre a primavera e outro sobre o inverno, simbolizando a natureza cíclica da vida e do amor, e deixando a conclusão dos romances em aberto, com a promessa de um futuro incerto, mas esperançoso.
Gênero literário
Comédia romântica; Comédia de costumes.
Dados do autor
William Shakespeare (1564-1616) foi um dramaturgo e poeta inglês, amplamente considerado o maior escritor da língua inglesa e o maior dramaturgo do mundo. Conhecido como o "Bardo de Avon", suas obras consistem em cerca de 39 peças teatrais, 154 sonetos, dois poemas narrativos longos e vários outros versos. Suas peças foram traduzidas para todas as principais línguas vivas e são encenadas com mais frequência do que as de qualquer outro dramaturgo.
Shakespeare nasceu e foi criado em Stratford-upon-Avon, Warwickshire. Aos 18 anos, casou-se com Anne Hathaway, com quem teve três filhos: Susanna e os gêmeos Hamnet e Judith. Entre 1585 e 1592, iniciou uma carreira bem-sucedida em Londres como ator, escritor e coproprietário da companhia de teatro Lord Chamberlain's Men, mais tarde conhecida como King's Men. Ele se aposentou em Stratford por volta de 1613, onde morreu três anos depois.
Suas obras cobrem uma ampla gama de gêneros, incluindo tragédias (como Hamlet, Otelo, Rei Lear e Macbeth), comédias (como Sonho de uma Noite de Verão, A Megera Domada e As Alegres Comadres de Windsor) e peças históricas (como Ricardo III e Henrique V). Ele também escreveu uma série de peças que são classificadas como "problemas" ou "tragicomédias", incluindo Medida por Medida e Tudo o que é bom acaba bem.
Moral da história
A principal moral da história de "Trabalhos de Amor Perdidos" é que a tentativa de impor restrições artificiais à natureza humana, especialmente ao amor e à sociabilidade, é fútil e insustentável. Os juramentos feitos pelos senhores são quebrados não por fraqueza moral, mas porque o amor e a atração são forças naturais e irresistíveis. A peça sugere que a verdadeira sabedoria não está em evitar o mundo ou os sentimentos, mas em enfrentá-los com honestidade e sinceridade. A moral também enfatiza que as palavras e os juramentos vazios não são suficientes; as ações e o tempo são necessários para provar a verdadeira sinceridade do amor e do caráter. Em última análise, a peça nos ensina sobre a vaidade da pretensão e a importância da humildade e da autenticidade nas relações humanas.
Curiosidades
- Final Incomum: Ao contrário da maioria das comédias de Shakespeare, "Trabalhos de Amor Perdidos" não termina com um casamento, mas com uma separação e uma prova de um ano para os amantes. Essa ambiguidade e falta de resolução final são notáveis e distintivas para uma comédia do período.
- Linguagem Elaborada: A peça é famosa por seu uso intensivo de jogo de palavras, aliteração, rimas internas, retórica floreada e diálogos altamente estilizados. É considerada uma das peças mais "verbais" de Shakespeare, com muitos de seus personagens, especialmente Berowne e Holofernes, exibindo uma grande maestria (ou pedantismo) da linguagem.
- Sátira Intelectual: Alguns estudiosos acreditam que a peça satiriza certos aspectos da vida intelectual e acadêmica da época elisabetana, incluindo as "academias" ou grupos de estudo que se formavam para o aprimoramento intelectual e moral, muitas vezes com regras rígidas.
- Personagens Baseados em Figuras Reais?: Existe a teoria de que o Rei de Navarra (Ferdinando) e seus senhores (Berowne, Longaville e Dumain) podem ser vagamente baseados em figuras históricas francesas e navarras da época, como Henrique IV de França (que foi Rei de Navarra) e seus companheiros, que eram conhecidos por seus interesses intelectuais e por alguns juramentos e violações semelhantes.
- A Máscara de Moscovitas: A cena em que os senhores se disfarçam de "moscovitas" (russos) para cortejar as damas era um elemento popular em mascaradas e entretenimentos da corte na Inglaterra e na Europa durante o Renascimento, adicionando uma camada de sátira cultural à peça.
- A Peça dos "Nove Vultos Virtuosos": A performance cômica e desastrosa dentro da peça, com Holofernes e companhia, é uma paródia das peças e encenações amadoras populares da época, bem como um momento de humor metateatral. Os "Nove Vultos Virtuosos" (Nine Worthies) eram figuras históricas, bíblicas e mitológicas comuns na arte e na literatura medievais e renascentistas, representando ideais de cavalaria e heroísmo.
