Zaïre - Voltaire

Resumo

'Zaïre' (1732) é uma tragédia em cinco atos de Voltaire, ambientada em Jerusalém durante as Cruzadas. A peça narra o destino de Zaïre, uma jovem cristã francesa feita escrava pelos turcos desde a infância e criada como muçulmana no harém do sultão Orosmane. Orosmane a ama e planeja casar-se com ela, mas a chegada de Lusignan, um velho príncipe francês e pai de Zaïre (sem que ela saiba inicialmente), e de Nerestan, um cavaleiro cristão, revela sua verdadeira origem. Zaïre é batizada e prometida a Nerestan por Lusignan, forçando-a a um dilema entre seu amor por Orosmane e seu recém-descoberto dever familiar e religioso. Orosmane, consumido pelo ciúme e por uma má interpretação das cartas entre Zaïre e Nerestan (que na verdade eram de seu pai, Lusignan), mata Zaïre em um acesso de fúria. Ao descobrir seu erro trágico e a inocência de Zaïre, Orosmane se suicida. A peça explora temas como o fanatismo religioso, o amor predestinado versus o dever, o ciúme e a fatalidade.

Seções do livro

Seção 1 (Ato I)

A peça começa no palácio de Orosmane, o sultão de Jerusalém. Orosmane está profundamente apaixonado por Zaïre, uma de suas escravas francesas, capturada na infância. Ele confia a seu confidente Corasmin seu amor por ela e seu desejo de casar-se com ela, concedendo-lhe não apenas a liberdade, mas também a honra de ser sua sultana, algo inédito para uma escrava cristã. Para demonstrar sua magnanimidade, Orosmane também decide libertar todos os prisioneiros franceses cristãos, incluindo Lusignan, um idoso príncipe francês, descendente dos reis de Jerusalém, capturado há quarenta anos.

Nerestan, um cavaleiro francês, chega para pagar o resgate dos prisioneiros. Ele encontra Zaïre e sente uma estranha conexão com ela, ao mesmo tempo que ela também se sente atraída pela sua virtude cristã e pelo sofrimento dos seus compatriotas. Zaïre está dividida: ama Orosmane, o homem que a ama e a libertou, mas sente a força de uma ligação misteriosa com Lusignan e os outros cristãos. Lusignan é introduzido, lamentando a perda de sua família e reino, mas mostrando-se digno e piedoso.

Personagem Características Personalidade
Zaïre Cristã francesa (mas criada como muçulmana), escrava no harém de Orosmane. Bela, virtuosa, apaixonada, leal, mas profundamente dividida entre o amor e o dever, hesitante, emotiva.
Orosmane Sultão de Jerusalém, muçulmano. Poderoso, apaixonado, magnânimo, impetuoso, orgulhoso, com potencial para o ciúme e a fúria.
Lusignan Príncipe francês, último descendente dos reis de Jerusalém, cristão. Idoso, digno, piedoso, patriótico, marcado pela dor e pela fé inabalável.
Nerestan Cavaleiro francês, cristão, amigo de Lusignan. Honrado, fiel, corajoso, prudente, um ideal de virtude cristã.
Fatima Aia e confidente de Zaïre. Leal, preocupada, conselheira.
Corasmin Oficial turco, confidente de Orosmane. Fiel, conselheiro de Orosmane.
Chatillon Oficial francês, companheiro de Lusignan e Nerestan. Coadjuvante, leal aos franceses.

Seção 2 (Ato II)

Lusignan, agora libertado, reencontra os outros prisioneiros franceses e desabafa sua dor pela perda de sua esposa e filhos. Ele questiona Zaïre e Nerestan sobre suas origens. Ao observar Zaïre de perto, Lusignan fica chocado com a semelhança dela com sua esposa falecida. Ele então revela que tinha dois filhos pequenos quando foi capturado. Zaïre exibe um medalhão e uma cicatriz que correspondem às descrições dos filhos perdidos de Lusignan. Numa cena emocionante e dramática, Lusignan reconhece Zaïre como sua filha e Nerestan como seu filho. A verdade é revelada: Zaïre e Nerestan são irmãos, filhos do príncipe Lusignan, e são de sangue real francês.

Zaïre fica profundamente abalada. Seu mundo vira de cabeça para baixo: ela descobre sua verdadeira identidade, sua fé cristã e a existência de uma família que nunca conheceu. Lusignan, em sua alegria e fé, exige que Zaïre renuncie a Orosmane, se converta publicamente ao cristianismo e seja prometida em casamento a Nerestan (sem saber que são irmãos, a promessa visa garantir a continuidade da linhagem real cristã). Zaïre, agora dilacerada entre o amor por Orosmane e o dever filial e religioso para com seu recém-encontrado pai e irmão, hesita em aceitar a proposta de casamento de Orosmane, causando nele uma crescente confusão e desconfiança.

Seção 3 (Ato III)

Zaïre, atormentada, tenta explicar sua hesitação a Orosmane sem revelar seu segredo familiar e religioso, o que seria uma traição a seu pai. Ela tenta adiar o casamento e expressa sua dor e confusão. Orosmane, que a ama intensamente, sente-se magoado pela sua relutância e suspeita que ela o ama menos ou que há um rival. Ele a pressiona para que ela se case com ele no dia seguinte.

Desesperada, Zaïre finalmente cede à pressão de Orosmane e promete casar-se com ele, mas pede um dia para se despedir de sua "antiga" fé (o cristianismo que ela agora abraçava novamente) e cumprir um "dever sagrado" que ela não pode revelar. Ela mente ao dizer que não há rival, tentando acalmar o ciúme de Orosmane. Ele, embora confuso e um tanto relutante, cede à paixão e concede o prazo. Enquanto isso, Lusignan e Nerestan preparam o batismo secreto de Zaïre e planejam sua fuga de Jerusalém, esperando que ela se junte a eles.

Seção 4 (Ato IV)

A tensão aumenta dramaticamente. Orosmane recebe uma carta anônima revelando que Zaïre tem um encontro secreto com alguém. Consumido pelo ciúme, ele se torna furioso e intercepta outras cartas trocadas entre Zaïre e Nerestan. As cartas, na verdade, contêm os arranjos para o batismo de Zaïre e sua fuga secreta com o pai, mas Orosmane as interpreta como prova de um caso de amor e infidelidade.

Zaïre, sob a pressão e a influência de seu pai, envia uma última carta a Nerestan, pedindo que ele espere por ela, pois ela ainda se sente dividida entre o amor por Orosmane e seu dever familiar e religioso. Esta carta, interpretada erroneamente, sela seu destino. Orosmane confronta Nerestan com as cartas. Nerestan, tentando proteger Zaïre e o segredo de Lusignan, tenta defender a honra de Zaïre sem revelar a verdade completa, o que só aumenta a fúria e o engano de Orosmane. O sultão, cego de ciúme, exige que Nerestan lhe entregue Zaïre, ou morra.

Seção 5 (Ato V)

Orosmane, ainda furioso e dominado pelo ciúme, decide confrontar Zaïre pessoalmente. Ele a observa em um encontro com Lusignan e Nerestan, o que ele interpreta como a confirmação de sua traição. Ao encontrar Zaïre, ele a interroga. Ela tenta desesperadamente explicar sua aflição, reafirmando seu amor por ele, mas não pode revelar a identidade de seu pai nem o batismo secreto sem trair sua família. Sua reticência e seu desespero, em vez de convencer Orosmane, parecem confirmar suas suspeitas de infidelidade.

Em um acesso de fúria cega e ciúme incontrolável, Orosmane apunhala Zaïre. Lusignan e Nerestan chegam imediatamente. Lusignan, ao ver sua filha moribunda, revela a verdade a Orosmane: Zaïre era sua filha, Nerestan seu irmão, e a "traição" era na verdade seu dever filial e religioso de se converter e se reunir à sua família. Orosmane fica horrorizado ao perceber a extensão de seu erro trágico e a inocência de Zaïre. Dominado pelo remorso e pela culpa insuportáveis, ele lamenta profundamente sua ação e, em um ato final de desespero, tira a própria vida com o mesmo punhal. A peça termina com a morte dos amantes e a lamentação de Nerestan e dos demais.


Gênero literário: Tragédia clássica francesa (em cinco atos, com versos alexandrinos, respeito às unidades de tempo, lugar e ação, e temas elevados).

Dados do autor: François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778), foi um proeminente escritor, historiador e filósofo do Iluminismo francês. Sua obra, vasta e influente, abrange peças de teatro, poemas, romances, ensaios históricos e filosóficos. Voltaire foi um defensor veemente das liberdades civis, incluindo a liberdade religiosa e o livre comércio, e da separação entre Igreja e Estado. Crítico mordaz da Igreja Católica e da monarquia absoluta, ele se tornou um símbolo da razão e da tolerância. Sua obra mais famosa é o romance filosófico "Cândido ou O Otimismo".

Moral da história:

  • O Perigo do Fanatismo Religioso: A tragédia é impulsionada pelos conflitos religiosos e pelas exigências do dever religioso que se opõem ao amor e à razão, demonstrando como a intolerância e o dogmatismo podem levar à catástrofe.
  • A Natureza Destrutiva do Ciúme: O ciúme cego de Orosmane, baseado em interpretações errôneas e na falta de comunicação, é a força motriz que leva à morte de Zaïre e, consequentemente, à sua própria ruína.
  • A Fatalidade e o Destino Trágico: Os personagens são vítimas de circunstâncias e mal-entendidos que fogem ao seu controle, onde a verdade chega sempre tarde demais para evitar a tragédia.
  • O Conflito entre Amor, Dever e Honra: Zaïre é um exemplo do indivíduo dividido entre paixões poderosas e obrigações morais e familiares, mostrando a dificuldade de fazer escolhas em situações de conflito de valores.

Curiosidades:

  • Sucesso Estrondoso: "Zaïre" foi um dos maiores sucessos teatrais de Voltaire, garantindo sua reputação como dramaturgo. Estreou em 1732 e foi aclamada pelo público, sendo encenada repetidamente por décadas na França e em outros países.
  • Influência de Shakespeare: Embora Voltaire fosse um crítico de Shakespeare por considerar suas peças bárbaras e sem decoro, "Zaïre" é frequentemente comparada a "Otelo" devido ao tema central do ciúme que leva à tragédia. Voltaire é creditado por ter introduzido uma maior "sensibilidade" e emoção na tragédia francesa, influenciado, talvez inconscientemente, por dramaturgos estrangeiros.
  • Controvérsia Religiosa: A peça gerou algum debate devido ao seu tratamento do conflito entre cristianismo e islamismo. Voltaire, um deísta, utilizou a peça para explorar a hipocrisia e os perigos do fanatismo e da intolerância de qualquer religião, ao mesmo tempo em que apresentava um personagem muçulmano (Orosmane) com características nobres e paixões universais.
  • Popularidade Duradoura: Por muito tempo, "Zaïre" foi considerada a tragédia mais popular de Voltaire, especialmente por sua capacidade de evocar emoções fortes no público, marcando uma transição na tragédia clássica francesa em direção a um estilo mais sentimental.