Bouvard y Pécuchet - Gustave Flaubert

Resumo

'Bouvard e Pécuchet' narra a história de dois copistas parisienses, François Bouvard e Joseph Pécuchet, que se conhecem por acaso e descobrem ter uma afinidade profunda e paixões semelhantes pela vida e pelo conhecimento. Ambos solteiros e de meia-idade, herdaram inesperadamente uma fortuna considerável. Decidem abandonar suas vidas monótonas na capital e comprar uma propriedade rural na Normandia, com a intenção de dedicar-se à busca da sabedoria e à vida no campo.

A partir desse ponto, os dois amigos embarcam em uma série interminável de empreendimentos autodidatas, aplicando-se com fervor e ingenuidade a quase todas as áreas do saber humano: agricultura, jardinagem, química, medicina, geologia, arqueologia, história, filosofia, literatura, política, educação, religião, e até mesmo espiritismo e ginástica. Em cada campo, eles leem vorazmente manuais e tratados, adotam as teorias mais recentes e as aplicam com um entusiasmo desmedido e uma completa falta de bom senso ou conhecimento prático.

Consequentemente, todos os seus esforços resultam em fracassos retumbantes, desilusões, perdas financeiras e situações cômicas ou desastrosas. A agricultura falha, suas experiências científicas causam explosões, suas tentativas de educar crianças resultam em desastre, suas incursões na política os ridicularizam, e suas explorações filosóficas e religiosas os deixam em um estado de confusão e cinismo crescentes. Eles oscilam entre o entusiasmo e a misantropia, a crença ingênua e o ceticismo radical.

Eventualmente, esgotados e completamente desiludidos com a busca infrutífera pela sabedoria e pela verdade em qualquer campo, e frustrados pela superficialidade e contradições do conhecimento humano, Bouvard e Pécuchet chegam à conclusão de que a única coisa que lhes resta é retornar à sua ocupação original: copiar. Adquirem uma "escrivaninha dupla" e decidem copiar tudo o que encontrarem, de forma acrítica, aceitando a impossibilidade de compreender ou organizar o mundo. O livro termina com eles se preparando para iniciar um "Dicionário de Ideias Recebidas", uma compilação de clichês e lugares-comuns da sociedade.

Seções do livro

Seção 1

A história começa em Paris, no dia 15 de julho de 1838. François Bouvard e Joseph Pécuchet, dois copistas que nunca se viram antes, encontram-se por acaso em um banco público. Ambos têm 47 anos, são solteiros, de compleição semelhante e carregam chapéus que se parecem. Eles iniciam uma conversa e descobrem que trabalham na mesma profissão e compartilham uma série de gostos e opiniões semelhantes, desde a paixão por charutos até o desejo de viver no campo. Tornam-se imediatamente amigos inseparáveis. Pouco tempo depois, uma herança inesperada chega para Bouvard, vinda de um tio distante. Com uma fortuna considerável em mãos, decidem realizar seu sonho de abandonar a vida parisiense e comprar uma propriedade rural para viver em paz e se dedicar aos seus interesses intelectuais. Após muita busca, encontram e adquirem uma fazenda em Chavignolles, na Normandia.

Personagem Características Personalidade
Bouvard Solteirão, 47 anos, copista, constituição física "robusta". Bondoso, mais impulsivo, otimista, propenso a entusiasmos, sonhador, com um forte desejo de aprender e mudar de vida.
Pécuchet Solteirão, 47 anos, copista, constituição física "nervosa". Meticuloso, mais analítico e sistemático, também ingênuo, propenso à teimosia, sonhador, com forte desejo de conhecimento.

Seção 2

Bouvard e Pécuchet mudam-se para sua nova fazenda em Chavignolles, repletos de entusiasmo e grandes planos para se tornarem fazendeiros exemplares e cientistas rurais. Começam aplicando métodos agrícolas "modernos" que leram em livros, como adubação complexa, rotação de culturas, plantio de novas variedades de plantas e até criação de animais exóticos. Contratam funcionários locais para ajudá-los. No entanto, sua falta de experiência prática, a ingenuidade e a aplicação cega de teorias de manuais em solo e clima inadequados levam a uma série de fracassos e desastres: as plantações morrem, os animais adoecem ou não se adaptam, e seus projetos se revelam inviáveis. A comunidade local, entre curiosa e desconfiada, os observa com uma mistura de divertimento e ceticismo.

Personagem Características Personalidade
Mme Bordin Viúva rica da região, vizinha, flerta com Bouvard. Astuta, prática, um pouco cínica e interesseira.
Foureau Prefeito da comuna, proprietário de terras, vizinho. Rústico, pragmático, interesseiro, representa a mentalidade local.
Germain Criado da fazenda. Leal, trabalhador, mas limitado.
Mme Castillon Cozinheira da fazenda. Honesta, trabalhadora, cuida da casa.
Gorgu Camponês, trabalhador da fazenda. Esperto, um pouco aproveitador.

Seção 3

Frustrados com a agricultura, os amigos voltam-se para outras ciências, esperando encontrar um campo onde possam ter sucesso. Embarcam na jardinagem, química e medicina. Tentam criar um jardim paradisíaco, mas falham com pragas e problemas de cultivo. Seus experimentos de química doméstica causam explosões, manchas e fumaças tóxicas, com o objetivo de produzir licores, sabões e outros produtos que, na prática, se revelam inúteis ou perigosos. Em seguida, aventuram-se na medicina, estudando anatomia, fisiologia e patologia a partir de livros. Começam a diagnosticar doenças em si mesmos e nos outros, receitando remédios caseiros e tratamentos bizarros, com resultados que variam de cômicos a quase fatais para os pacientes (incluindo eles próprios). Eles até tentam uma forma de dietética, mas tudo acaba em mais desilusão.

Seção 4

Após o fracasso nas ciências práticas, Bouvard e Pécuchet direcionam seu foco para as ciências mais especulativas e históricas. Dedicam-se à geologia, arqueologia e história local. Exploram as formações rochosas da região, tentam desenterrar fósseis e artefatos antigos, interpretando suas descobertas de maneiras fantasiosas e não científicas. A arqueologia os leva a visitar monumentos e ruínas, buscando vestígios de civilizações passadas, mas suas conclusões são sempre contraditórias e baseadas em especulações ingênuas. Em história, tentam escrever uma crônica da região, coletando documentos e lendas. No entanto, confrontam-se com a multiplicidade de fontes, a parcialidade dos historiadores e a incapacidade de reconciliar fatos contraditórios, o que os leva à desesperança sobre a possibilidade de uma verdade histórica objetiva.

Personagem Características Personalidade
Comte de Faverges Aristocrata local, proprietário de terras. Progressista em suas ideias sociais e agrícolas, paternalista, respeitado, mas um tanto ingênuo em suas próprias convicções.
Jeufroy Professor local, intelectual de província. Pedante, vaidoso, dogmático, representa a erudição superficial.

Seção 5

A próxima paixão dos amigos é a literatura e a filosofia. Decidem que podem ser grandes escritores e começam a experimentar diversos gêneros: drama, romance e poesia. Escrevem peças de teatro que ninguém entende, romances cheios de clichês e poemas sem inspiração, revelando sua falta de talento e originalidade. Em seguida, mergulham na filosofia, lendo os grandes pensadores da Antiguidade aos modernos. Eles se confundem com as diversas escolas (estoicismo, epicurismo, idealismo, materialismo), encontrando contradições insolúveis em cada sistema. A discussão filosófica os leva a um profundo ceticismo e a uma incapacidade de aceitar qualquer verdade universal, resultando em mais desilusão e na sensação de que todo o conhecimento é arbitrário e subjetivo.

Seção 6

Bouvard e Pécuchet, então, se voltam para a política e as questões sociais. Acompanham os eventos da Revolução de 1848 e tentam compreender as diversas ideologias políticas: republicanismo, socialismo, comunismo, monarquismo. Eles leem jornais e folhetos, participam de debates locais e tentam aplicar suas teorias à realidade da vila, mas são continuamente confundidos pela complexidade e contradições das ideias políticas. Suas tentativas de se envolver em reformas sociais e na política local apenas os levam ao ridículo e à frustração, pois suas ideias são ingênuas e facilmente manipuladas pelos interesses dos outros moradores. A experiência política os deixa ainda mais cínicos e misantropos.

Seção 7

Apesar de todos os seus fracassos, Bouvard e Pécuchet ainda anseiam por uma forma de felicidade e propósito. Decidem que talvez o amor e a paternidade possam preencher o vazio. Tentam encontrar o amor, Bouvard com a viúva Bordin e Pécuchet com outras mulheres, mas ambos fracassam de forma cômica e melancólica. Em seguida, resolvem adotar duas crianças órfãs da região: Victorine, uma menina ingênua e submissa, e Victor, um menino travesso e problemático. Tentam educá-los de acordo com as mais recentes teorias pedagógicas, mas os resultados são desastrosos: Victorine se torna uma criada ineficiente, e Victor um ladrão que eventualmente foge.

Desesperados, os amigos buscam consolo na religião. Exploram o catolicismo, o protestantismo e até mesmo o ateísmo e o misticismo, mas encontram apenas dogmas contraditórios, hipocrisia e rituais vazios. As crenças religiosas, em vez de lhes trazerem paz, aumentam sua confusão e ceticismo, pois não conseguem reconciliar a fé com a razão ou a ciência.

Seção 8

Ainda buscando respostas, Bouvard e Pécuchet investigam o espiritismo, o mesmerismo e outras práticas esotéricas. Fascinados pelas histórias de curas milagrosas e comunicações com o além, eles se dedicam a experimentos com hipnose e magnetismo animal. Tentam curar doenças, prever o futuro e invocar espíritos, utilizando métodos que leram em manuais. Essas tentativas, naturalmente, resultam em mais fracassos hilários e constrangedores, confirmando sua incapacidade de dominar qualquer campo, seja ele científico, místico ou prático.

Seção 9

Com o corpo e a mente exaustos por suas incessantes buscas, os dois amigos decidem dedicar-se à saúde física e à ginástica. Inspirados por teorias de higiene e exercício físico, adotam dietas rigorosas e rotinas de exercícios extenuantes. Suas tentativas de melhorar o corpo, no entanto, levam apenas a dores musculares, lesões e desconforto, sem nenhum benefício duradouro. A busca pela perfeição física se junta à lista de seus empreendimentos malfadados, culminando em uma profunda misantropia e uma total desilusão com a capacidade humana de alcançar a felicidade ou a sabedoria. Eles se tornam cada vez mais isolados e amargos.

Seção 10

Finalmente, Bouvard e Pécuchet chegam ao fim de sua jornada de autodidatismo e experimentação. Esgotados por anos de esforços infrutíferos, falências e decepções em todas as áreas do conhecimento e da vida, eles admitem a derrota. A verdade e a sabedoria que tanto buscaram mostraram-se evasivas, contraditórias e inatingíveis.

Em um momento de epifania cínica, eles decidem que a única coisa que realmente faziam bem era copiar. Chegam à conclusão de que a busca por um propósito ou significado é fútil, e que a única forma de paz é retornar à rotina sem sentido. Vendem a fazenda e readquirem sua antiga escrivaninha de copistas, mas agora uma "escrivaninha dupla" para trabalharem lado a lado. Seu novo projeto é compilar um "Dicionário de Ideias Recebidas" e um "Catálogo das Idéias Chicotes" – um compêndio de clichês, lugares-comuns, frases feitas e opiniões banais que representam a "sabedoria" popular. Eles se preparam para copiar indiscriminadamente tudo o que leram e ouviram, abandonando qualquer pretensão de análise crítica ou compreensão.


Gênero literário: Romance satírico, romance filosófico, romance realista, comédia.

Dados do autor:
Nome: Gustave Flaubert
Nascimento: 12 de dezembro de 1821, Rouen, França
Morte: 8 de maio de 1880, Croisset, França
Estilo: Flaubert é um dos maiores nomes do realismo francês. Era conhecido por sua prosa meticulosa, sua incessante busca pela "mot juste" (a palavra exata), e sua objetividade impessoal na narrativa. Sua obra frequentemente satirizava a burguesia e a mediocridade, explorando temas como o tédio, o desapontamento, a banalidade da existência e a impossibilidade de escapar às convenções sociais. Dedicava-se exaustivamente à pesquisa para cada romance, buscando precisão nos detalhes.
Principais obras: Madame Bovary (1856), Salammbô (1862), A Educação Sentimental (1869), Três Contos (1877).

Moraleja:
Não há uma única e simples "moral" no sentido tradicional, mas o livro oferece várias reflexões profundas:

  • A Futilidade da Busca Superficial pelo Conhecimento: O romance critica a ideia de que a sabedoria pode ser adquirida através da simples acumulação de informações dispersas e da aplicação ingênua de teorias, sem base prática, senso crítico ou real compreensão.
  • A Crítica ao Enciclopedismo e à Pretensão Intelectual: Flaubert satiriza a crença de que é possível dominar todas as áreas do saber humano, expondo a fragilidade e as contradições do conhecimento quando abordado de forma superficial e pedante.
  • A Mediocridade Humana: Os fracassos repetidos de Bouvard e Pécuchet podem ser vistos como uma alegoria da estupidez inerente à condição humana e da incapacidade de muitos de transcender o lugar-comum e o pensamento clichê.
  • O Ceticismo em Relação à Verdade: A jornada dos personagens os leva a duvidar de todas as verdades estabelecidas — científicas, filosóficas, religiosas, políticas — sugerindo que a "verdade" é muitas vezes relativa, contraditória ou inatingível.
  • A Paz na Repetição: No final, a decisão de Bouvard e Pécuchet de retornar à cópia sugere uma aceitação fatalista de uma vida sem grandes aspirações, onde a repetição mecânica pode ser uma forma de refúgio da complexidade e da desilusão.

Curiosidades:

  • Obra Inacabada: Flaubert morreu antes de concluir Bouvard e Pécuchet. O livro foi publicado postumamente com um final esboçado e os rascunhos do "Dicionário de Ideias Recebidas" e do "Catálogo das Ideias Chicotes" que os personagens pretendiam compilar.
  • Pesquisa Exaustiva: Para escrever o romance, Flaubert realizou uma pesquisa colossal, lendo centenas de livros e manuais sobre as mais diversas áreas do conhecimento — agricultura, química, medicina, história, filosofia — para garantir que as tentativas e os erros de seus personagens fossem baseados em fontes reais e verossímeis da época. Ele mergulhou nas mesmas fontes que seus personagens usariam, tornando o livro um dos mais "documentados" já escritos.
  • Alter Ego do Autor: Flaubert se identificava com seus personagens, especialmente em sua obsessão por pesquisa e por desmascarar a superficialidade do pensamento. Ele teria dito: "Eu sou Bouvard e Pécuchet". O livro é uma forma de Flaubert exorcizar sua própria tentação de ser um "enciclopedista".
  • Crítica à Sociedade Burguesa: O romance é uma sátira mordaz da burguesia do século XIX, de sua pretensão intelectual, de seu desejo de abraçar todas as novidades e tendências, e de sua incapacidade de alcançar profundidade ou originalidade.
  • Recepção Inicial: Apesar de hoje ser considerada uma obra-prima de Flaubert, a recepção inicial do livro foi morna e confusa, em parte devido ao seu caráter fragmentado e experimental e ao fato de ter sido publicado de forma póstuma. Sua reputação cresceu significativamente com o tempo.