As Palavras - Jean-Paul Sartre
Resumo "As Palavras" é uma autobiografia de Jean-Paul Sartre que narra sua infância, desde os seus primeiros anos até a adolescência, conce...
Resumo
"As Palavras" é uma autobiografia de Jean-Paul Sartre que narra sua infância, desde os seus primeiros anos até a adolescência, concentrando-se nos anos formativos de sua vocação literária. A obra é dividida em duas partes, "Ler" e "Escrever", e funciona como uma análise crítica e desmistificadora de sua própria existência e de como ele construiu sua identidade como escritor. Sartre explora o impacto da morte precoce de seu pai, a figura dominante de seu avô materno, o amor sufocante de sua mãe e sua imersão precoce no mundo dos livros. Ele revela como a literatura se tornou uma fuga, uma justificativa para sua existência e, finalmente, uma "comédia" que ele encenava para si mesmo e para os outros. O livro é uma jornada de autoanálise, onde Sartre, com um olhar irônico e retrospectivo, desmantela os mitos de sua própria infância e sua ilusória vocação, culminando na aceitação de sua liberdade e responsabilidade sem a necessidade de um chamado divino ou predeterminado.
Seções do livro
Seção 1: Parte I - Ler
A primeira parte do livro, "Ler", descreve os primeiros anos de vida de Jean-Paul Sartre, desde seu nascimento em 1905 até o período em que ele começa a se ver como um futuro escritor. Sua infância é profundamente marcada pela morte de seu pai, Jean-Baptiste Sartre, quando ele tinha apenas dois anos. Após a morte do pai, ele e sua mãe, Anne-Marie, mudam-se para a casa dos pais dela em Meudon e, posteriormente, em Paris.
O ambiente doméstico é dominado pela figura imponente e culta de seu avô materno, Charles Schweitzer, professor de alemão e tio de Albert Schweitzer. Charles é um patriarca autoritário, mas também um intelectual que possui uma vasta biblioteca. Sartre, um menino franzino e sem irmãos, torna-se o centro das atenções, especialmente de sua mãe e de seu avô. Ele é um "filho da morte", um pequeno príncipe em um reino de mulheres (sua mãe e avó) e de um pai substituto (o avô).
A biblioteca do avô é o primeiro contato de Sartre com o mundo das "palavras". Inicialmente, os livros são para ele objetos estranhos e misteriosos, cheios de cheiros e formas. O ato de ler, para o pequeno Sartre, é um ritual sério, mas ele ainda não compreende o conteúdo. Ele se impressiona com a autoridade que o avô e outros adultos conferem à leitura e à literatura. Sua mãe, por sua vez, é uma figura jovem e bonita que é tratada quase como uma criança pelo pai dela, e que projeta em seu filho suas próprias aspirações e frustrações, alimentando a percepção de Sartre como um ser especial e predestinado.
Sartre descreve-se como uma criança que vive em um "teatro" constante. Ele está sempre ciente de ser observado e de desempenhar um papel. Sua vida não é autêntica, mas uma representação para agradar os adultos ao seu redor, especialmente o avô. As palavras impressas, lidas ou ouvidas, começam a se tornar o meio pelo qual ele tenta dar sentido à sua existência e à sua posição no mundo. Ele desenvolve uma relação quase mística com os livros, que se tornam seus primeiros companheiros e o portal para um mundo imaginário onde ele pode ser o herói.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Jean-Paul Sartre | Um menino magro, de olhos grandes e estrábicos (o que o fazia sentir-se feio e diferente), filho de Anne-Marie e Jean-Baptiste Sartre, que faleceu precocemente. É o único neto de Charles e Louise Schweitzer, vivendo sob a influência dominante do avô. | Introvertido, observador, imaginativo, sensível e, paradoxalmente, performático. Desde cedo, demonstra uma necessidade de justificar sua existência e busca a validação dos adultos, o que o leva a encenar uma "comédia" constante. Sente-se especial, mas também deslocado. |
| Anne-Marie Sartre | Jovem viúva, bonita, filha de Charles Schweitzer. Por ter casado por amor e não por imposição social, ela é, de certa forma, "rebaixada" pelo pai, que a trata como uma jovem dependente. Ela tem um profundo apego ao filho, Jean-Paul. | Carinhosa, submissa ao pai, mas com anseios próprios. Projeta no filho suas esperanças e um amor intenso, quase simbiótico, que serve tanto de apoio quanto de "prisão" para o pequeno Sartre. Ela é cúmplice na criação do mito do filho prodígio. |
| Charles Schweitzer | Avô materno de Sartre, um acadêmico respeitado, professor de alemão, com vasta cultura e autoridade patriarcal. Tio do famoso Albert Schweitzer. Possui uma grande biblioteca. | Dominador, autoritário, exibicionista de sua cultura, mas também afetuoso à sua maneira. É a figura mais poderosa na vida de Sartre, exercendo uma influência intelectual e moral esmagadora. Vê em Sartre a continuação de sua própria erudição. |
| Louise Schweitzer | Avó materna de Sartre, esposa de Charles Schweitzer. Uma figura mais discreta em comparação com o marido e a filha. | Mais silenciosa e tradicional, ela oferece um amor mais contido e prático, funcionando como um contraponto à intensidade dos outros membros da família. Sua presença é de apoio doméstico, mas menos impactante na formação intelectual de Sartre. |
Seção 2: Parte II - Escrever
A segunda parte, "Escrever", marca a transição de Sartre de leitor ávido para um aspirante a escritor. Ele se dá conta de que ler os livros dos outros não é suficiente para justificar sua existência ou para escapar de sua condição de "parasita" na casa do avô. Aos poucos, as palavras deixam de ser meros objetos de veneração e se tornam ferramentas ativas de criação.
Sartre começa a escrever suas próprias histórias e peças de teatro, frequentemente inspiradas nos romances de aventura que tanto o fascinavam. Ele se vê como um "escritor-herói", um salvador da humanidade através da literatura. Essa vocação para a escrita é, no entanto, uma invenção, uma fuga da realidade e uma forma de encontrar um lugar para si em um mundo onde se sentia pequeno e insignificante. A escrita se torna uma religião sem Deus, onde ele é o criador e o salvador.
Ele descreve a "comédia" de sua vida, onde ele é tanto o ator quanto o público. A vida familiar, as interações sociais, tudo se torna material para suas narrativas e uma performance constante. Ele usa a escrita para se proteger de si mesmo e para construir uma imagem idealizada de quem ele deveria ser. As "palavras" se tornam um escudo e uma espada, permitindo-lhe moldar o mundo à sua própria imaginação.
Sartre, já adulto e refletindo sobre sua infância, inicia um processo de demistificação. Ele percebe que sua "vocação" literária não era um dom divino ou um destino preordenado, mas uma construção social e psicológica, um reflexo das expectativas de sua família e de suas próprias inseguranças. A literatura, que ele via como sua salvação, era, na verdade, uma forma de má-fé, uma maneira de evitar a responsabilidade pela sua própria liberdade.
Ao final, Sartre afirma ter se libertado dessas ilusões de sua infância. Ele rejeita a ideia de ser um "homem de letras" predestinado e abraça a contingência de sua existência. A escrita não é mais uma salvação, mas uma atividade humana entre outras, e sua vida adquire sentido através de suas ações e compromissos no mundo real. Ele reconhece que, embora tenha começado sua vida com a ilusão da escrita como uma justificação absoluta, ele agora se vê como alguém que "continua a escrever" sem a necessidade de redenção. O livro termina com a afirmação de que ele ainda é um "produto" de sua infância, mas agora consciente e livre para moldar seu próprio futuro.
Gênero literário: Autobiografia, Memórias, Ensaio filosófico.
Dados do autor:
Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo, escritor, dramaturgo e crítico literário francês. É um dos principais representantes do existencialismo, um movimento filosófico do século XX que enfatiza a liberdade individual, a responsabilidade e a busca de sentido em um universo sem significado inerente. Suas obras mais conhecidas incluem "O Ser e o Nada" (ensaio filosófico), "A Náusea" (romance) e peças como "Entre Quatro Paredes". Sartre foi um intelectual engajado politicamente, defendendo causas como o anticolonialismo e o socialismo, e criticando o capitalismo e a burguesia. Ele recusou o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, alegando que um escritor não deveria se deixar transformar em uma instituição.
Moral da história:
A moral central de "As Palavras" é a desconstrução dos mitos da infância e da vocação, e a afirmação da liberdade e responsabilidade individual. Sartre nos ensina que a autenticidade reside em reconhecer que somos os únicos arquitetos de nossa própria existência, sem a necessidade de um destino predefinido, um chamado divino ou a validação externa. A obra é um convite a olhar criticamente para as narrativas que construímos sobre nós mesmos e a abraçar a contingência da vida, vivendo com compromisso e ação, em vez de buscar refúgio em ilusões ou papéis pré-estabelecidos.
Curiosidades do livro:
- Recusa do Nobel: Em 1964, Sartre foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas o recusou, sendo a primeira pessoa a fazê-lo voluntariamente. Ele justificou sua decisão dizendo que um escritor não deveria permitir-se ser transformado em uma instituição.
- Contexto da escrita: "As Palavras" foi escrita por Sartre já em sua maturidade, cerca de 60 anos, e serve como um balanço de sua formação intelectual e pessoal, vista com uma dose de ironia e autocrítica.
- Existencialismo em ação: Embora seja uma autobiografia, o livro é profundamente imbuído de conceitos existencialistas. A análise da "má-fé" (evitar a liberdade), a busca por justificação e a eventual aceitação da contingência são temas centrais que ressoam com sua filosofia.
- Relação com Simone de Beauvoir: "As Palavras" oferece insights sobre a formação do pensamento de Sartre, que influenciaria grandemente sua companheira e também filósofa, Simone de Beauvoir, com quem manteve um relacionamento aberto e intelectualmente produtivo por toda a vida.
- Crítica à burguesia: O livro pode ser lido como uma crítica sutil, mas mordaz, à cultura e aos valores burgueses em que Sartre foi criado, especialmente através da figura de seu avô.
