Mardi - Herman Melville

Resumo

'Mardi, and a Voyage Thither' é um romance filosófico alegórico de Herman Melville, ambientado em um arquipélago fictício do Pacífico Sul, chamado Mardi. A história segue Taji, um marinheiro americano que abandona seu baleeiro, resgata uma misteriosa e etérea donzela chamada Yillah, e se apaixona por ela. Quando Yillah desaparece, Taji embarca em uma busca incessante por ela, que se torna uma jornada alegórica pela verdade, beleza, felicidade e o sentido da vida. Acompanhado pelo rei Media, o historiador Mohi, o filósofo Babbalanja e o poeta Yoomy, Taji visita diversas ilhas, cada uma representando diferentes sistemas políticos, religiosos e filosóficos, enquanto ele e seus companheiros debatem sobre os grandes mistérios da existência. A busca por Yillah, que se torna um ideal inatingível, leva Taji a rejeitar prazeres mundanos e conselhos de resignação, culminando em uma perseguição solitária e sem fim rumo ao desconhecido.

Seções do livro

Seção 1: A Fuga e o Resgate

A narrativa começa com Taji, um marinheiro americano entediado e insatisfeito com a vida a bordo de um baleeiro monótono no Pacífico Sul. Cansado da rotina e ansioso por liberdade, ele convence seu amigo e companheiro de navio, Jarl, um norueguês experiente, a desertar com ele. Eles escapam em um pequeno barco, levando consigo algumas provisões.

Após dias à deriva, encontram um prahu (canoa) tripulado pelo sacerdote Borabolla e sua comitiva, que transportam uma bela e enigmática jovem, Yillah. Acreditando que Yillah está sendo levada para ser sacrificada, Taji, impulsionado por um senso de heroísmo e atração pela jovem, confronta os nativos. Em um conflito violento, Taji mata Borabolla. Ele resgata Yillah, e os três (Taji, Jarl e Yillah) continuam sua jornada no barco original, deixando o prahu para trás.

Eles vivem um breve período de felicidade e contemplação no mar, durante o qual Taji se apaixona profundamente por Yillah, que parece ser de outro mundo. Finalmente, eles chegam à ilha de Odo, um reino em Mardi.

Personagem Características Personalidade
Taji Narrador, marinheiro americano, aventureiro, idealista, impulsivo, melancólico. Busca liberdade e um ideal de beleza/verdade, propenso a ações drásticas, mas também reflexivo.
Jarl Marinheiro norueguês, companheiro de Taji, leal, pragmático, mais velho e experiente. Voz da razão, fiel, menos propenso a idealismos, mais cauteloso.
Borabolla Sacerdote de Mardi, antagonista inicial. Fanático religioso, cruel, representa o dogma e a opressão.
Yillah Jovem misteriosa, de beleza etérea, resgatada por Taji, de origem incerta. Pura, inocente, enigmática, frágil, símbolo do ideal inatingível e da beleza transcendental.

Seção 2: O Reino de Odo e o Início da Busca

Em Odo, Taji, Yillah e Jarl são bem recebidos. O rei da ilha, Media, adota Taji como seu filho e lhe confere o nome de "Taji". Por um tempo, Taji e Yillah vivem um idílio em Odo, desfrutando de uma felicidade quase paradisíaca. No entanto, a tranquilidade é abalada pela chegada de três sacerdotes vingativos – Amo, Hapa e Diggo –, irmãos de Borabolla, que vêm cobrar a morte de seu parente e exigir o retorno de Yillah.

A presença dos sacerdotes causa apreensão, e Yillah, que já se mostrava um pouco distante e melancólica, desaparece misteriosamente durante uma visita à ilha de Floz-fro. Taji fica devastado e, consumido pela perda e pelo amor, decide que deve encontrá-la a qualquer custo.

O rei Media, intrigado com a situação e interessado na busca filosófica, oferece a Taji sua companhia e a de outros sábios de sua corte. Juntam-se à comitiva: Mohi, o historiador real, guardião das lendas e tradições; Babbalanja, o filósofo cético e melancólico, que busca a verdade através da razão; e Yoomy, o poeta idealista, que expressa emoções e aspirações através da canção. Jarl também permanece com Taji. Assim, o grupo embarca em uma jornada pelas ilhas de Mardi, inicialmente em busca de Yillah, mas que rapidamente se transforma em uma odisséia filosófica pela verdade e pelo sentido da existência.

Personagem Características Personalidade
Rei Media Governante sábio de Odo, aristocrata, pragmático, observador, diplomático. Representa o poder estabelecido e a ordem, mas também é perspicaz e receptivo a novas ideias.
Mohi Historiador real, velho e erudito, guardião da tradição e das lendas de Mardi. Conhecedor de mitos e fatos, mas às vezes preso ao passado, simboliza a memória e a história.
Babbalanja Filósofo e cético, melancólico, busca a verdade através da razão, muitas vezes pessimista. Profundo pensador, crítico da sociedade e da religião, introspectivo, por vezes niilista, voz da dúvida e da busca intelectual.
Yoomy Poeta e cantor, idealista, sensível, expressa emoções através da arte e da canção. Romântico, busca a beleza e a inspiração, otimista apesar das adversidades, representa a arte e a emoção.
Amo, Hapa, Diggo Sacerdotes vingativos, irmãos de Borabolla, perseguem Taji pela morte de seu irmão. Obcecados por vingança, representam a religião fanática, dogmática e a punição.

Seção 3: A Odisséia Filosófica por Mardi

A jornada do grupo através de Mardi é longa e sinuosa, passando por uma infinidade de ilhas, cada uma funcionando como uma alegoria de diferentes aspectos da sociedade humana, política, religião e filosofia.

  • Vivenza: Uma nação jovem e orgulhosa, reminiscente dos Estados Unidos, com seus debates sobre liberdade, democracia e as contradições entre seus ideais e sua realidade (escravidão, expansão). O grupo observa a agitação política e as discussões públicas.
  • Monarchia: Representa as monarquias europeias, decadentes e cheias de pompa e tradições antiquadas, com seus governantes presos ao passado e à ostentação.
  • Ohonoo: Uma ilha que simboliza a erudição e a sabedoria, mas também a rigidez intelectual e a tendência a se perder em detalhes acadêmicos sem alcançar uma verdade maior.
  • Maramma: O centro religioso de Mardi, onde o dogma e o poder sacerdotal dominam. Taji é advertido contra sua busca por Yillah, pois os sacerdotes consideram sua busca um desafio aos deuses. Este episódio critica o controle religioso e a intolerância.
  • Dominora e Orienda: Ilhas em conflito, refletindo as tensões geopolíticas e as guerras sem fim entre nações.

Enquanto viajam, as discussões entre Taji e seus companheiros – Media, Mohi, Babbalanja e Yoomy – tornam-se o foco central do romance. Eles debatem fervorosamente sobre uma vasta gama de temas: a natureza da autoridade política, a validade das diferentes religiões, o livre-arbítrio versus a predestinação, a natureza da alma e da felicidade, a existência de Deus e o sentido último da vida. Babbalanja, em particular, assume um papel proeminente nas reflexões filosóficas, muitas vezes expressando as dúvidas e anseios do próprio Melville, explorando ideias que variam do otimismo transcendental ao niilismo.

Taji, por sua vez, permanece firmemente focado em sua busca por Yillah. Para ele, Yillah se tornou mais do que uma mulher; ela é o símbolo da beleza ideal, da verdade suprema e da felicidade perfeita que ele anseia, um ideal que nenhuma das ilhas visitadas ou filosofias debatidas consegue satisfazer.

Seção 4: A Conclusão Inatingível

À medida que a jornada avança, a busca de Taji por Yillah torna-se mais intensa e desesperada. A cada ilha e a cada nova experiência, Taji se recusa a abandonar seu ideal. Ele é constantemente perseguido pelos sacerdotes vingativos (Amo, Hapa, Diggo), que o lembram de seu ato de violência e do sangue derramado, simbolizando a culpa e as consequências de suas ações.

Durante a busca, Taji encontra outras mulheres, notavelmente Hautia, uma rainha sedutora e suas encantadoras de Floz-fro. Hautia tenta seduzi-lo e fazê-lo esquecer Yillah, oferecendo-lhe os prazeres mundanos, o luxo e a satisfação material. Ela representa as distrações e tentações do mundo que desviam o indivíduo de sua busca por um ideal mais elevado. No entanto, Taji as rejeita, pois seu coração e sua alma estão irrevogavelmente dedicados a Yillah, o ideal inatingível.

Eventualmente, o grupo chega a Serenia, uma ilha que representa a serenidade, a resignação e a aceitação das limitações humanas. Aqui, a sabedoria sugere que a verdadeira felicidade pode ser encontrada na paz interior e na calma, em vez de na busca incessante por um absoluto. Os companheiros de Taji – Media, Mohi, Babbalanja e Yoomy – começam a considerar a possibilidade de encontrar contentamento e até mesmo se despedir de sua busca. Babbalanja, em particular, encontra um certo grau de paz através de sua filosofia, ainda que permeada de um ceticismo melancólico.

No entanto, Taji se recusa a abandonar sua busca. Ele rejeita a paz de Serenia, a sabedoria de seus companheiros e os prazeres oferecidos por Hautia. Impulsionado por um desejo inextinguível, ele se afasta de todos, incluindo Jarl, que se resigna a ficar em uma ilha. Taji continua a navegar sozinho em seu barco, para o desconhecido, em perseguição de sua Yillah ideal. A jornada de Taji termina em aberto, simbolizando a busca humana incessante e talvez fútil por um absoluto, uma beleza ideal ou uma verdade suprema que pode nunca ser alcançada, mas cuja perseguição define a própria existência.


Gênero Literário

Romance filosófico, alegoria, aventura marítima, sátira social e política, romance gótico (em alguns aspectos da busca de Yillah).

Dados do Autor

Herman Melville (1819-1891) foi um romancista, contista e poeta americano, mais conhecido por sua obra-prima 'Moby Dick' (1851). Nascido em Nova York, Melville teve uma vida de aventuras, incluindo anos como marinheiro em navios mercantes e baleeiros no Pacífico, experiências que forneceram material para grande parte de seus primeiros romances. Suas obras frequentemente exploram temas de aventura, metafísica, bem e mal, a natureza da humanidade, a crueldade da civilização e os mistérios do oceano. Embora 'Moby Dick' tenha sido amplamente ignorado ou mal compreendido em sua época, Melville é hoje considerado um dos maiores escritores da literatura americana.

Moral da História

A moral de 'Mardi' é multifacetada e complexa, refletindo as explorações filosóficas do livro:

  • A Futilidade da Busca Incessante por um Ideal Absoluto: A principal moral é que a busca incessante por um ideal de beleza, verdade ou felicidade que é inatingível (simbolizado por Yillah) pode levar a uma jornada sem fim e frustrante. A felicidade muitas vezes reside em aceitar a realidade e encontrar contentamento no presente, em vez de perseguir um ideal utópico.
  • A Relatividade da Verdade e da Felicidade: Através das diferentes ilhas e filosofias, Melville sugere que não existe uma única verdade ou caminho para a felicidade. O que é verdade ou bom para um pode não ser para outro, e as grandes respostas para as questões da vida são elusivas.
  • A Tensão entre Idealismo e Realismo: O livro explora a luta entre o desejo humano de alcançar algo grandioso e a dura realidade da imperfeição e da desilusão. Taji, o idealista, recusa-se a desistir, mesmo que isso signifique uma eternidade de perseguição sem sucesso.
  • Crítica Social e Política: Através das alegorias das ilhas de Mardi, Melville critica diversas instituições e sistemas sociais, políticos e religiosos de sua época, mostrando suas hipocrisias e falhas. A moral aqui é a importância do pensamento crítico e da vigilância contra a tirania e o dogma.

Curiosidades do Livro

  • Ponto de Virada na Carreira de Melville: 'Mardi' marca uma transição significativa na carreira de Melville. Após o sucesso de seus primeiros romances de aventura ('Typee' e 'Omoo'), ele tentou uma obra mais ambiciosa e profundamente filosófica. No entanto, foi um fracasso comercial e crítico em sua época, desapontando tanto o público quanto os editores que esperavam outra história de aventura no estilo "South Seas".
  • Precursor de 'Moby Dick': Apesar de seu fracasso inicial, 'Mardi' é considerado um precursor importante de 'Moby Dick'. Nele, Melville experimenta com a alegoria, o simbolismo e as discussões filosóficas profundas que se tornariam as marcas de sua obra-prima. A busca incessante e a natureza obsessiva do protagonista já estão presentes.
  • Influências Diversas: O livro é uma mistura única de diversos gêneros e influências. Apresenta elementos de romance de aventura, sátira política (inspirada por Jonathan Swift), epopeia clássica, e profundas reflexões filosóficas. Melville leu extensivamente antes de escrever 'Mardi', incorporando ideias de Platão, Bacon, Rabelais, entre outros.
  • Extensão e Complexidade: 'Mardi' é uma das obras mais longas e complexas de Melville, com 195 capítulos. Sua estrutura expansiva e a densidade de suas discussões filosóficas tornaram-no um desafio para os leitores da época e para muitos contemporâneos.
  • Crítica à Sociedade Americana: A ilha de Vivenza é uma clara alegoria dos Estados Unidos, permitindo a Melville criticar aspectos como a escravidão, a expansão territorial (Guerra Mexicano-Americana) e a retórica vazia da política americana da época.