A Profissão da Sra. Warren - George Bernard Shaw
Resumo A peça "A Profissão da Sra. Warren" de George Bernard Shaw explora a hipocrisia da sociedade vitoriana e as escolhas limitadas dispo...
Resumo
A peça "A Profissão da Sra. Warren" de George Bernard Shaw explora a hipocrisia da sociedade vitoriana e as escolhas limitadas disponíveis para as mulheres no final do século XIX. A história centra-se em Vivie Warren, uma jovem inteligente e independente, recém-formada em Cambridge, que se depara com a chocante verdade sobre a fonte da fortuna de sua mãe, Kitty Warren: ela é uma madame bem-sucedida, proprietária de uma rede de bordéis. Inicialmente, Vivie tenta aceitar as justificativas de sua mãe, que argumenta que a "profissão" foi uma escolha pragmática e necessária para escapar da pobreza e garantir uma vida melhor para sua filha. No entanto, à medida que mais detalhes surgem e Vivie percebe que sua mãe não se arrepende e continua a prosperar na mesma indústria, e que sua fortuna é mantida por meio de um negócio imoral com parceiros como Sir George Crofts, ela fica cada vez mais desiludida. A revelação de que seu pretendente, Frank Gardner, pode ser seu meio-irmão e a visão cínica de Praed sobre o amor e o casamento contribuem para sua crescente rejeição das convenções sociais. No clímax, Vivie rompe completamente com a mãe e todos os associados, optando por uma vida de trabalho honesto e independente como atuária, livre de qualquer compromisso com a fortuna tainted de sua família. A peça critica as estruturas sociais que levam as mulheres a escolhas extremas e a hipocrisia da sociedade que condena tais escolhas enquanto se beneficia delas.
Seções do livro
Seção 1: Ato I
A cena se passa no chalé de campo de Vivie Warren, um lugar pitoresco em Surrey. Vivie está sozinha, concentrada em seus cálculos matemáticos, revelando sua natureza prática e intelectual. Ela é uma jovem independente, recém-formada em Cambridge. Sua amiga, a arquiteta Praed, chega, trazendo notícias da iminente chegada da Sra. Warren, mãe de Vivie, junto com Sir George Crofts e Frank Gardner. Praed fica impressionado com a natureza pragmática e pouco sentimental de Vivie, que contrasta com o temperamento artístico e sonhador de Praed. A Sra. Warren logo chega, acompanhada de Sir George Crofts e Frank Gardner. A Sra. Warren é uma mulher vistosa e exuberante, de certa idade, mas ainda atraente e bem-vestida, com um ar de prosperidade e uma certa vulgaridade. Sir George Crofts é um homem rico e cínico, enquanto Frank Gardner é um jovem charmoso, mas um tanto preguiçoso e dependente financeiramente do pai. A reunião inicial é permeada por uma tensão latente, especialmente entre Vivie e sua mãe, que têm personalidades muito diferentes. Vivie é reservada e direta, enquanto a Sra. Warren é efusiva e evasiva sobre seu passado. A Sra. Warren tenta justificar sua ausência na vida de Vivie e expressa seu desejo de se reconectar com a filha. No entanto, a verdadeira natureza da "profissão" da Sra. Warren começa a ser veladamente sugerida através de comentários ambíguos e da maneira como Crofts e Frank a tratam. Frank, que tem um interesse romântico em Vivie, brinca de forma provocadora, enquanto Crofts observa Vivie com um interesse questionável.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Vivie Warren | Jovem, intelectual, recém-formada em Cambridge, ativa, resoluta, gosta de matemática. | Pragmática, independente, realista, cética, honesta, moralista (a seu modo). |
| Sra. Kitty Warren | Mãe de Vivie, mulher de meia-idade, atraente, bem-vestida, exuberante. | Superficial, materialista, orgulhosa de sua fortuna, evasiva sobre seu passado, aparentemente afetuosa, mas manipuladora. |
| Praed | Arquiteto, amigo da família, homem gentil e artístico, um tanto efeminado. | Sensível, idealista, charmoso, apreciador da beleza e da arte, um pouco ingênuo. |
| Sir George Crofts | Baronete, parceiro de negócios da Sra. Warren, homem rico e de meia-idade. | Cínico, amoral, predatório, astuto, materialista, possui um ar de respeitabilidade falsa. |
| Frank Gardner | Jovem, filho do Reverendo Samuel Gardner, pretendente de Vivie. | Charmoso, parasita, imaturo, irresponsável, cínico, flerta abertamente. |
Seção 2: Ato II
Ainda no chalé de Vivie, a Sra. Warren finalmente revela a Vivie a verdade sobre sua "profissão". Ela narra a história de sua juventude pobre, suas dificuldades e a chocante falta de oportunidades para mulheres honestas de sua classe social. Ela descreve trabalhar em empregos mal remunerados, com longas horas e condições terríveis, e como viu suas irmãs sucumbirem à doença e à pobreza. Diante dessa realidade sombria, a prostituição e, eventualmente, a gerência de bordéis, surgiram como as únicas opções viáveis para alcançar segurança financeira e independência. A Sra. Warren argumenta que ela fez o que era necessário para sobreviver e, mais importante, para dar a Vivie uma vida muito melhor, com educação e oportunidades que ela nunca teve. Ela espera que Vivie, com sua inteligência prática, compreenda e até admire sua escolha. Para surpresa da Sra. Warren, Vivie inicialmente reage com uma compreensão chocante. Em vez de repulsa moral, Vivie parece aceitar a lógica econômica por trás da decisão de sua mãe, vendo-a como uma empresária que tomou decisões difíceis em um mundo injusto. No entanto, essa compreensão vem acompanhada de uma crescente apreensão, especialmente quando a Sra. Warren, em seu entusiasmo, revela detalhes que sugerem que ela não se arrepende e que sua "profissão" não foi uma medida temporária de desespero, mas uma carreira lucrativa e contínua. A conversa é tensa e emocional, com a Sra. Warren esperando aprovação e Vivie lutando para conciliar sua nova compreensão com suas próprias convicções.
Seção 3: Ato III
O palco é transferido para o jardim da igreja do Reverendo Samuel Gardner, pai de Frank. O Reverendo Gardner é apresentado como um homem com um passado questionável e uma hipocrisia velada, que se conhece da Sra. Warren de longa data, com indícios de um relacionamento anterior entre eles. O foco se volta para as revelações adicionais e o impacto delas em Vivie. Vivie descobre que sua mãe não só continuou com sua "profissão" após sua própria necessidade ter sido atendida, mas também se tornou uma próspera empresária no ramo, com investimentos e parcerias, especialmente com Sir George Crofts. A extensão da participação de Sir George Crofts nos negócios da Sra. Warren é revelada, mostrando que ele é um sócio ativo e se beneficia diretamente da exploração de mulheres. Sir George Crofts, em um momento de arrogância e franqueza brutal, tenta subornar Vivie e até a pede em casamento, chocando-a com sua franqueza sobre a natureza de seu negócio e o lucro que ele obtém. Vivie fica horrorizada não apenas pela imoralidade do negócio, mas também pela falta de remorso de sua mãe e pela contínua perpetuação do sistema. A Sra. Warren defende-se, argumentando que a sociedade é a verdadeira culpada, mas Vivie se recusa a aceitar essa justificação, especialmente porque a fortuna da mãe ainda é ativamente gerada por essa indústria. A desilusão de Vivie se aprofunda, e ela começa a ver sua mãe e seus associados de uma luz completamente diferente. Ela também se depara com a possibilidade de que Frank Gardner possa ser seu meio-irmão, uma revelação que choca a todos e complica ainda mais seu relacionamento com Frank.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Reverendo Samuel Gardner | Pai de Frank, clérigo da igreja local, ex-conhecido da Sra. Warren. | Hipócrita, moralista externamente, mas com um passado questionável, covarde, preocupado com sua reputação. |
Seção 4: Ato IV
A cena final se passa no escritório de Vivie em Londres, onde ela trabalha como atuária. Vivie tomou uma decisão firme de romper com seu passado e com a fortuna tainted de sua mãe. Ela está determinada a viver uma vida independente, baseada em trabalho honesto e autossuficiência. Frank Gardner a visita, ainda tentando cortejá-la, mas a ideia de que eles poderiam ser meio-irmãos paira sobre eles, tornando qualquer romance impossível. A Sra. Warren e Sir George Crofts também aparecem, tentando persuadir Vivie a aceitar sua parte da fortuna e a se reconciliar com a mãe. A Sra. Warren tenta apelar para o amor maternal e o conforto que a fortuna pode proporcionar, mas Vivie permanece inflexível. Vivie acusa sua mãe e Crofts de serem parasitas sociais, vivendo do sofrimento alheio, e denuncia a hipocrisia de ambos. Ela declara que não pode ter nada a ver com o dinheiro ou com as pessoas associadas a ele. A Sra. Warren fica profundamente magoada e ressentida com a rejeição de sua filha. Ela argumenta que Vivie, ao recusar a fortuna, está implicitamente condenando a própria mãe por suas escolhas de vida, sem reconhecer os sacrifícios feitos. O clímax é uma discussão amarga e final entre mãe e filha. Vivie, embora reconhecendo o peso do sacrifício de sua mãe no início, não pode perdoar a continuação do negócio e a falta de remorso. Ela decide se dedicar inteiramente ao seu trabalho, buscando uma vida de dignidade e integridade, longe da moralidade comprometida de sua família. A peça termina com Vivie voltando ao seu trabalho, sozinha em seu escritório, simbolizando sua nova independência e seu afastamento do mundo de sua mãe.
Gênero literário: Drama social, Comédia de costumes, Peça de tese.
Dados do autor:
George Bernard Shaw (1856-1950) foi um dramaturgo, crítico e ativista irlandês. Nascido em Dublin, mudou-se para Londres em 1876 e tornou-se uma figura proeminente na vida cultural e política. Ele foi um socialista fabiano, defensor dos direitos das mulheres e um crítico mordaz das injustiças sociais e da hipocrisia vitoriana. Shaw é o único autor a ter sido agraciado com um Prêmio Nobel de Literatura (1925) e um Oscar (1938), este último pelo roteiro de "Pigmalião". Suas peças são conhecidas por seu intelecto afiado, diálogos espirituosos e exploração de temas sociais e políticos. Ele é considerado um dos maiores dramaturgos de língua inglesa, com obras como "Pigmalião", "Major Barbara", "Saint Joan" e, claro, "A Profissão da Sra. Warren".
Moral da história:
A moral central de "A Profissão da Sra. Warren" é uma crítica contundente à hipocrisia social e às limitações impostas às mulheres no final do século XIX. A peça argumenta que a "profissão" da Sra. Warren não é tanto um resultado de sua depravação pessoal, mas sim uma consequência direta da pobreza e da falta de oportunidades econômicas decentes para as mulheres. A sociedade, ao mesmo tempo em que condena moralmente a prostituição, cria as condições que a tornam uma escolha quase inevitável para algumas mulheres e lucra indiretamente com ela. A peça desafia a noção de que existe uma "moralidade" simples, mostrando que as escolhas consideradas imorais podem ser, paradoxalmente, as mais pragmáticas e "virtuosas" sob certas condições econômicas. A história também explora a ideia de que, embora as escolhas de uma geração possam ser justificáveis pela necessidade, a perpetuação de tais escolhas por lucro, quando a necessidade já passou, revela uma corrupção mais profunda. Finalmente, a peça celebra a integridade individual e a busca por uma vida de trabalho honesto e autossuficiência, mesmo que isso signifique rejeitar os laços familiares e a riqueza.
Curiosidades do livro:
- Controvérsia e Censura: "A Profissão da Sra. Warren" foi considerada tão chocante e imoral em sua época que sua primeira apresentação pública no Reino Unido foi banida pelo Lord Chamberlain, o censor oficial de peças, em 1894. Não foi encenada em Londres até 1902, e mesmo assim, apenas em apresentações privadas. Nos Estados Unidos, sua estreia em 1905 levou à prisão do elenco e do empresário por "obscenidade". Essa censura destacou a sensibilidade da sociedade vitoriana em relação a temas como a prostituição e a crítica social.
- Peça de Tese: Shaw era conhecido por suas "peças de tese" (plays of ideas), onde ele usava o drama para explorar e debater questões sociais e filosóficas importantes. "A Profissão da Sra. Warren" é um exemplo clássico, utilizando o melodrama familiar para dissecar a economia da prostituição e a hipocrisia da moralidade burguesa.
- O Papel da Mulher: A peça é notável por sua representação complexa de mulheres fortes e independentes. A Sra. Warren, embora controversa, é uma figura empreendedora que subverte as expectativas de gênero da época, enquanto Vivie é uma das primeiras heroínas shavianas a buscar uma vida profissional e intelectual em vez de se conformar com o casamento.
- Realismo Brutal: Shaw foi pioneiro em trazer uma forma de realismo brutal para o palco, confrontando o público com as duras verdades sobre a sociedade, em vez de oferecer entretenimento escapista. A peça forçou os espectadores a considerar as raízes sistêmicas da "imoralidade" e a questionar suas próprias suposições.
- Influência: Apesar da controvérsia inicial, a peça se tornou uma das obras mais estudadas e encenadas de Shaw, influenciando gerações de dramaturgos e pensadores sociais com sua abordagem franca sobre questões de gênero, classe e moralidade econômica.
