Nostromo - Joseph Conrad

Resumo

"Nostromo" é um romance complexo ambientado na fictícia república sul-americana de Costaguana, especificamente na província de Sulaco. A trama gira em torno da vastíssima Mina de Prata de San Tomé, de propriedade de Charles Gould, um idealista inglês que acredita que a riqueza da mina trará progresso e estabilidade à nação atormentada por revoluções. No entanto, o livro explora como essa riqueza incalculável se torna uma fonte de corrupção, conflito e tragédia pessoal.

Em meio à instabilidade política e a uma nova revolução liderada por General Montero, que ameaça tomar Sulaco, a prata da mina se torna um objetivo crucial. Para evitar que ela caia em mãos inimigas, é organizada uma tentativa de contrabandeá-la para fora da cidade por mar. O popular e vaidoso capataz italiano, Giovanni Battista Fidanza, conhecido como Nostromo, é encarregado da perigosa missão, acompanhado pelo cínico intelectual Martin Decoud.

A tentativa de fuga da prata resulta em desastre, e o segredo da sua localização se torna o fardo de Nostromo. Enquanto Sulaco luta pela sua independência e se estabelece como a próspera República Ocidental, Nostromo, corrompido pelo peso da prata não declarada, se transforma de herói público em um figura isolada e cínica, preso à sua fortuna secreta. O romance é uma profunda meditação sobre o imperialismo, a ganância, a corrupção do idealismo e as ilusões da redenção através do poder e da riqueza, culminando na trágica queda de seus principais personagens.

Seções do livro

Seção 1: O Mundo do Olho Humano (Livro Primeiro)

A história começa com uma vívida descrição da nação de Costaguana, um país sul-americano fictício marcado por um histórico de instabilidade política, golpes de estado e tirania. Sulaco, uma província ocidental relativamente isolada, começa a experimentar um período de prosperidade e desenvolvimento, em grande parte devido à reabertura da outrora abandonada Mina de Prata de San Tomé. Charles Gould, um inglês educado na Europa, herda a mina de sua família e decide dedicá-la não apenas ao lucro, mas também à promoção da ordem e do progresso em Costaguana. Ele acredita que a "material interest" (interesse material) da mina pode ser a base para a estabilidade.

Sua esposa, Emilia Gould, é uma mulher perspicaz e compassiva que o apoia, mas teme que a devoção de Charles à mina o esteja consumindo e o afastando dela. Ela observa as complexidades da vida em Sulaco e as interações entre os estrangeiros e os nativos.

Conrad apresenta uma galeria de personagens que personificam diferentes facetas da sociedade de Sulaco. Don José Avellanos, um velho e respeitável patriota, sonha com uma república estável e constitucional. Sua filha, Antonia Avellanos, é uma mulher inteligente, digna e dedicada aos ideais de seu pai. Dr. Monygham, um médico inglês, é um cínico amargo, marcado por torturas passadas e que serve como uma espécie de observador sombrio e, por vezes, profético dos eventos.

O principal personagem, Nostromo, é introduzido. Ele é um italiano, Giovanni Battista Fidanza, o capataz de cargadores (chefe dos estivadores) e um homem de imensa popularidade e carisma. Conhecido por sua bravura, sua sorte e sua impecável confiabilidade, Nostromo é o homem a quem todos recorrem quando algo precisa ser feito, seja um resgate, uma entrega urgente ou a organização de uma cerimônia. Ele goza de uma reputação lendária entre os habitantes, mas sua vaidade e o desejo de ser admirado são seus traços mais definidores.

À medida que a mina de San Tomé prospera sob a gestão de Charles Gould, atraindo investimentos estrangeiros e construindo uma estrada de ferro, a paz em Sulaco é novamente ameaçada. O General Montero lança uma revolução ambiciosa, e suas forças começam a avançar em direção a Sulaco, buscando o controle das riquezas da mina. O medo e a incerteza pairam sobre a província, e a questão de proteger a prata de San Tomé torna-se premente.

Personagem Características Personalidade
Charles Gould Proprietário da Mina de Prata de San Tomé; de ascendência inglesa, educado na Europa; idealista e trabalhador. Idealista, determinado, pragmático em sua visão de progresso, mas gradualmente consumido por seu compromisso com a mina, tornando-se emocionalmente distante e cego às consequências morais de suas ações. Acredita que o "interesse material" trará ordem.
Emilia Gould Esposa de Charles Gould; perspicaz, observadora, europeia. Compassiva, intuitiva, perspicaz, moralmente sensível. Ela é a "consciência" do romance, percebendo a corrupção sutil e a desumanização que a mina traz, mas incapaz de mudar o curso de seu marido ou da história. Sente-se progressivamente isolada.
Dr. Monygham Médico inglês; veterano de antigas revoluções em Costaguana; fisicamente e emocionalmente marcado. Cínico, amargurado, leal a Emilia Gould, mas desiludido com a humanidade e a política. Possui uma sabedoria sombria e é um observador aguçado, frequentemente prevendo desastres. Sua lealdade a Emilia é o único vestígio de seu idealismo.
Don José Avellanos Velho patriota e aristocrata de Costaguana; figura respeitada e erudita; autor de um livro sobre a história do país. Idealista, fervoroso defensor da liberdade e da república constitucional, mas ingênuo em sua crença de que as ideias podem superar a corrupção e a violência inerentes à política de seu país.
Antonia Avellanos Filha de Don José Avellanos; inteligente, bonita e dedicada. Digna, patriota, intelectualmente forte e moralmente inabalável. Compartilha os ideais de seu pai e é uma figura de integridade, mas também um pouco rígida e distante, simbolizando a pureza política inatingível em Costaguana.
Nostromo Giovanni Battista Fidanza; italiano; capataz de cargadores (chefe dos estivadores); carismático, corajoso, com reputação lendária por sua confiabilidade e feitos heroicos. Vaidoso, orgulhoso de sua reputação e da admiração que inspira. Inicialmente um homem de ação e lealdade, mas sua identidade está intrinsecamente ligada à sua fama e ao reconhecimento público. A falta de reconhecimento por seu ato mais audacioso o corrompe profundamente.
Captain Mitchell Inglês; gerente da companhia de navegação de Sulaco; figura prototípica do "Inglês no exterior", com suas rotinas e senso de ordem. Metódico, um tanto pomposo, defensor da ordem britânica, mas superficial em sua compreensão da política local e das pessoas. Ele é a voz do "progresso" e da "civilização" estrangeira, mas carece de profundidade.
Giorgio Viola Velho italiano; ex-garibaldino; proprietário do "Hotel Itália" em Sulaco; figura de integridade e ideais republicanos. Honrado, teimoso, apegado aos seus princípios revolucionários passados, mas também um pouco alheio à realidade de Sulaco. Mantém um forte senso de dever e de justiça, que às vezes o leva a ações impulsivas.
Linda Viola Filha mais velha de Giorgio Viola; trabalha no hotel do pai. Forte, leal, dedicada, mas com uma paixão oculta por Nostromo que a torna possessiva e, eventualmente, amarga.
Giselle Viola Filha mais nova de Giorgio Viola; mais vivaz e impulsiva que sua irmã Linda. Jovem, charmosa, impulsiva e apaixonada. Representa uma visão mais romântica e menos arraigada à tradição, contrastando com a lealdade sombria de sua irmã.

Seção 2: Os Distritos da Guerra (Livro Segundo)

A revolução de Montero se intensifica, e as forças rebeldes estão a caminho de Sulaco. A cidade está em polvorosa, com a elite estrangeira e os cidadãos ricos se preparando para a fuga ou o confronto. A mina de San Tomé, com sua vasta fortuna em prata, torna-se o alvo principal dos revolucionários.

Nesse cenário caótico, surge Martin Decoud, um jovem intelectual e jornalista de Sulaco, que retorna de Paris. Ele é cínico e sofisticado, mas genuinamente apaixonado por Antonia Avellanos. Através de sua influência, Don José Avellanos e Charles Gould são convencidos da necessidade de declarar a independência de Sulaco do restante de Costaguana, criando uma "República Ocidental" separada, para proteger seus interesses e evitar o colapso total. Decoud escreve artigos apaixonados para promover essa causa.

A situação em Sulaco se deteriora rapidamente. Charles Gould, desesperado para evitar que a prata caia nas mãos de Montero, decide que é preciso destruir a mina ou tirá-la da cidade. Ele concorda com o Dr. Monygham e Don José Avellanos que a prata deve ser contrabandeada para fora de Sulaco por mar.

Nostromo, o homem de confiança e de reputação inquestionável, é a única pessoa considerada capaz de realizar tal feito. Ele é encarregado de carregar uma grande quantidade de barras de prata em um lighter (uma pequena embarcação a remo) e transportá-las para um navio que aguarda no mar. Decoud, que se sente isolado e teme por Antonia, insiste em acompanhar Nostromo, acreditando que ele pode ajudar a garantir a segurança da prata e, consequentemente, o futuro de Sulaco.

A jornada noturna no lighter começa. Além de Nostromo e Decoud, um comerciante alemão de peles chamado Hirsch, desesperado para escapar da cidade, consegue se esgueirar a bordo. A escuridão e o perigo iminente criam uma atmosfera de tensão.

No meio do mar, o lighter é atingido por um navio a vapor que transporta as tropas de Sotillo, um dos comandantes rebeldes de Montero. No pânico e na confusão, Hirsch, aterrorizado, grita e se joga na água, sendo presumidamente afogado. Nostromo, que havia tentado calá-lo, consegue manter o lighter à tona, mas a colisão o faz perder o controle da situação. As barras de prata, pesadas e difíceis de manobrar, estão em perigo. Nostromo e Decoud são forçados a improvisar para salvar o tesouro e suas próprias vidas.

Personagem Características Personalidade
Martin Decoud Jovem intelectual e jornalista de Sulaco, com experiência europeia; apaixonado por Antonia Avellanos. Cínico, irônico, sofisticado, mas com um lado profundamente romântico e idealista em relação a Antonia e ao futuro de Sulaco. É um teórico que, quando confrontado com a realidade bruta da ação, revela uma fraqueza e uma profunda solidão. Acredita no poder das ideias, mas não consegue suportar a responsabilidade de suas consequências.
Sotillo Um dos comandantes militares das forças revolucionárias de Montero. Cruel, ambicioso e ineficaz. Representa a corrupção e a incompetência das facções revolucionárias, mais interessado em saques e poder pessoal do que em ideais políticos. Seu encontro com o lighter de prata desencadeia uma série de eventos catastróficos.
Hirsch Comerciante alemão de peles que estava em Sulaco; pessoa medrosa e covarde. Covarde, histérico e totalmente inadequado para situações de perigo. Sua presença no lighter é um fardo e um catalisador para o desastre, expondo a vulnerabilidade humana diante do caos. Sua morte é um reflexo da brutalidade e indiferença da revolução.
General Montero Líder da revolução que ameaça Sulaco; irmão de Pedro Montero. Ambicioso, carismático (para as massas), mas tirânico e corrupto. Representa a velha guarda de caudilhos que buscam o poder pelo poder, sem princípios morais ou políticos duradouros.

Seção 3: A Luz da Estrela (Livro Terceiro)

Nostromo e Decoud no desastre:
Após a colisão, Nostromo e Decoud conseguem levar o lighter danificado para a Grande Isabel, uma ilha desolada na baía de Sulaco. As barras de prata são desembarcadas e cuidadosamente escondidas entre as rochas. Nostromo, consciente de que sua reputação depende do sucesso da missão, decide deixar Decoud na ilha e retornar sozinho ao continente para relatar o "sumiço" da prata (para despistar Sotillo) e, em seguida, ajudar a contra-revolução em Sulaco.

O destino da prata e a tragédia de Decoud:
Decoud, deixado sozinho na ilha com a prata, começa a sucumbir à solidão e ao desespero. Seus ideais e seu cinismo urbano se desintegram diante da vastidão indiferente do mar e da ausência de qualquer contato humano. Após vários dias de isolamento, a mente de Decoud se rompe. Em um ato de desespero final, ele amarra duas barras de prata ao seu corpo e caminha para o mar, cometendo suicídio. A maior parte da prata de San Tomé permanece oculta e "perdida" na Grande Isabel.

O retorno de Nostromo e sua transformação:
Nostromo, após deixar Decoud, consegue retornar a Sulaco, onde ele realiza proezas heróicas que ajudam a virar a maré contra Montero. Ele é aclamado como um salvador, o "homem de confiança" que nunca falha. No entanto, o segredo da prata na ilha da Grande Isabel começa a corrompê-lo. A ironia é que seu maior ato de bravura, o salvamento da prata, não pode ser reconhecido publicamente. Ele sente que seu serviço foi para os "ricos" e que, embora seja admirado, não é verdadeiramente recompensado. O tesouro oculto na ilha se torna sua obsessão secreta, transformando-o de um herói público vaidoso em um indivíduo isolado, cínico e consumido pela riqueza material que ele possui em segredo. Ele começa a usar a prata para seus próprios fins, construindo uma rede de contrabando e influência.

O estabelecimento da República Ocidental:
Com a ajuda de Nostromo e de outros fatores, Sulaco consegue sua independência e se torna a próspera República Ocidental. A mina de San Tomé continua a operar, e o "interesse material" realmente traz estabilidade e riqueza, mas também uma nova forma de corrupção e alienação. Charles Gould permanece devotado à mina, tornando-se mais distante de sua esposa. Emilia Gould sente a futilidade de todo o esforço e a amargura da solidão. Dr. Monygham continua seu trabalho, observando o desenrolar dos eventos com seu habitual cinismo.

O fim de Nostromo:
Anos se passam. Nostromo, agora mais velho e com um ar de melancolia, é um homem transformado. Ele se tornou um contrabandista bem-sucedido e uma figura poderosa, mas privada, na região, explorando sua posse secreta da prata. Ele está romanticamente envolvido com Giselle Viola, a filha mais jovem de Giorgio Viola, enquanto Linda Viola, a irmã mais velha, ainda o ama e espera se casar com ele.

Em uma noite escura, Nostromo vai se encontrar com Giselle na lanterna do farol da Grande Isabel, onde o velho Giorgio Viola serve como guardião. Giorgio, que ainda vive de acordo com seus rígidos princípios republicanos e de honra, ouve a aproximação de Nostromo, que ele pensa ser um dos pretendentes de Giselle que ele desaprova. Ele atira, acreditando estar defendendo a honra de sua família e o isolamento de sua filha. Nostromo é mortalmente ferido.

Em seus momentos finais, Nostromo é levado de volta a Sulaco, onde confessa seu segredo da prata a Dr. Monygham e Emilia Gould. No entanto, eles não conseguem compreender completamente a profundidade de sua tragédia ou o peso da prata em sua alma. Nostromo morre, e a maior parte da prata permanece escondida, um símbolo de uma promessa de riqueza que corrompe e destrói. Sua morte é a conclusão trágica de uma vida definida pela vaidade e, finalmente, pela possessão secreta de uma fortuna sem reconhecimento público.


Gênero literário: Romance político, romance psicológico, aventura, realismo, modernismo.

Dados do autor:
Joseph Conrad (nascido Józef Teodor Konrad Korzeniowski em Berdychiv, Ucrânia, então Império Russo, em 3 de dezembro de 1857 – falecido em Bishopsbourne, Inglaterra, em 3 de agosto de 1924) foi um escritor polaco-britânico. Passou grande parte de sua vida adulta como marinheiro na marinha mercante britânica antes de se tornar escritor, aprendendo inglês já adulto. Seus romances e contos, muitos dos quais ambientados em partes exóticas do mundo que ele visitou, exploram temas como o isolamento, a moralidade, a hipocrisia, o imperialismo e a natureza ambígua da alma humana. Ele é considerado um dos maiores estilistas da prosa inglesa.

Moral da história:
A moral de "Nostromo" é multifacetada e sombria. O livro critica profundamente a ideia de que o "interesse material" pode ser a base para a ordem e o progresso, mostrando como a riqueza (a prata) corrompe tudo o que toca. O idealismo de Charles Gould é tragicamente absorvido pela mina, afastando-o de sua humanidade. A vaidade de Nostromo e sua busca por reconhecimento o levam a uma possessão secreta que o isola e o destrói. As revoluções são retratadas como ciclos de violência e corrupção, onde um conjunto de tiranos é simplesmente substituído por outro. A moral sugere que a riqueza e o poder, quando desprovidos de uma base moral sólida, inevitavelmente levam à desilusão, à solidão e à destruição, tanto para indivíduos quanto para nações.

Curiosidades do livro:

  • Inspiração: Embora Joseph Conrad nunca tenha visitado a América do Sul, ele se inspirou em suas experiências no mar e em relatos de amigos, além de pesquisas sobre a história de países como a Colômbia e o Panamá. A criação de Costaguana foi baseada em suas observações de repúblicas tropicais instáveis.
  • Complexidade: "Nostromo" é amplamente considerado o romance mais complexo e ambicioso de Conrad, tanto em sua estrutura narrativa quanto em seus temas. A história é contada de forma não linear, com múltiplos pontos de vista e saltos temporais, o que exige uma leitura atenta.
  • O Silver como Corruptor: A prata da mina de San Tomé não é apenas um recurso; ela se torna um personagem central, um agente ativo de corrupção e tragédia. Sua materialidade é a força motriz por trás da maioria dos eventos e da queda moral dos personagens.
  • Crítica ao Imperialismo: O livro é uma crítica velada ao imperialismo europeu e americano na América Latina, expondo como as potências estrangeiras e suas "interesses materiais" contribuem para a instabilidade e a exploração, muitas vezes sob o pretexto de trazer civilização e progresso.
  • Personagem Trágico: Nostromo é um dos personagens mais memoráveis de Conrad. Sua transformação de um herói popular e admirado para um homem amargurado, isolado e tragicamente corrompido pela prata que ele "salvou" é central para a moral do romance. Ele busca o reconhecimento, mas sua maior façanha deve permanecer em segredo.