Omoo - Herman Melville

Resumo

"Omoo" narra as aventuras do narrador, um marinheiro norte-americano, após deixar o navio baleeiro "Dolly" (relatado em "Typee"). Ele se junta à tripulação de outro navio, o "Julia", uma embarcação mercante comandada pelo Capitão Guy, que se mostra desonesto e inexperiente. A tripulação, composta por um grupo heterogêneo de ex-presidiários e descontentes de várias nacionalidades, é maltratada e subalimentada, o que leva a um motim.

O motim ocorre enquanto o "Julia" está ancorado no Taiti. A tripulação amotinada se recusa a trabalhar, exigindo melhores condições ou serem liberados. As autoridades francesas e taitianas intervêm, e os amotinados, incluindo o narrador e seu novo amigo, o excêntrico e erudito "Dr. Long Ghost", são presos e confinados a bordo de uma corveta francesa, e depois a uma espécie de prisão em terra, o "Calabouço".

Após um tempo na prisão, eles conseguem escapar e se refugiam no interior do Taiti, vivendo entre os nativos. Lá, eles observam a cultura taitiana, a influência dos missionários europeus e a decadência da sociedade local devido ao contato com o Ocidente. O narrador e Long Ghost experimentam uma vida de liberdade e ociosidade, vagando de aldeia em aldeia, caçando, pescando e interagindo com os habitantes da ilha e os poucos europeus residentes.

Eventualmente, a busca por um novo navio para partir do Taiti os leva a um pequeno escuna, o "Little Jule", comandado pelo Capitão Jermin. O narrador se junta a esta tripulação, enquanto Long Ghost decide ficar para trás, aparentemente por razões românticas. O livro termina com o narrador partindo do Taiti no "Little Jule", que se destina a um destino desconhecido, prometendo novas aventuras.

Seções do livro

Seção 1: A Bordo do Julia

Após ter escapado dos canibais em Nuku Hiva (os eventos de "Typee"), o narrador se encontra no navio baleeiro "Dolly", que está com problemas e pouca comida. Desiludido com o capitão e as condições, ele decide desertar quando o navio atraca em uma ilha. Ele e alguns outros tripulantes conseguem transferir-se para outro navio, o "Julia", um pequeno brigue mercante que se dirige ao Taiti. O "Julia" é um navio de má reputação, com uma tripulação ainda mais problemática do que a do "Dolly", e comandado por um capitão inexperiente e irascível.

Personagem Características Personalidade
O Narrador Jovem marinheiro, aventureiro, observador, culto (apesar de marinheiro), recém-escapado de Nuku Hiva. Curioso, adaptável, busca liberdade, crítico das hipocrisias e injustiças, tem um senso de humor irônico e uma profunda sensibilidade para com a natureza e as culturas nativas.
Dr. Long Ghost Um ex-cirurgião de navio inglês, alto, magro, com aparência aristocrática, mas agora empobrecido e marinheiro por necessidade. Intelectual, fala várias línguas, conhece filosofia, medicina e literatura. Excêntrico, espirituoso, sarcástico, leal aos amigos, mas também preguiçoso e hedonista quando possível. Possui um intelecto afiado e um desprezo pelas convenções sociais e autoridade, mas também um lado gentil e filosófico.
Capitão Guy Capitão do "Julia", um homem com um olho de vidro, inexperiente no comando de navios, mas que se apresenta como um veterano. Possui um temperamento explosivo e é propenso a acessos de raiva. Despótico, incompetente, tirânico, mesquinho e covarde. Maltrata a tripulação e não cumpre suas promessas de condições ou pagamento. Seu autoritarismo disfarça sua insegurança e falta de habilidade.
A Tripulação do "Julia" Diversa, composta por homens de várias nacionalidades (ingleses, americanos, irlandeses, dinamarqueses), muitos deles ex-condenados ou desertores de outros navios. Vários são rudes, mas muitos também são vítimas das circunstâncias. Desiludida, rebelde, propensa a amotinar-se devido às péssimas condições e ao tratamento injusto. Há uma mistura de homens endurecidos pelo mar e jovens sem sorte, todos unidos pelo descontentamento com o Capitão Guy.

Seção 2: O Motim

A vida a bordo do "Julia" é miserável. O Capitão Guy é um tirano, a comida é escassa e podre, e a disciplina é mantida com brutalidade. A tripulação, que já era composta por elementos insatisfeitos, rapidamente atinge seu limite. Liderados em grande parte pelo Dr. Long Ghost, que verbaliza as queixas de todos, os marinheiros se amotinam. Eles se recusam a trabalhar, exigindo que o capitão cumpra as promessas de melhores condições e salários ou que os liberte.

O navio está ancorado na baía de Papeete, Taiti. As autoridades francesas, que têm uma presença militar na ilha, e as autoridades locais taitianas são notificadas. Após tensas negociações e ameaças por parte do Capitão Guy, os marinheiros são convocados a comparecer perante um tribunal informal. No entanto, o processo é uma farsa, e a tripulação é considerada culpada de insubordinação. Eles são forçados a embarcar em uma corveta francesa, onde são mantidos sob custódia, esperando uma decisão sobre seu destino. O narrador e Long Ghost permanecem juntos durante todo o processo, fortalecendo sua amizade.

Seção 3: Prisão e A Fuga

A bordo da corveta francesa, os amotinados, cerca de dez homens, passam alguns dias em condições razoáveis, recebendo boa comida e tratamento justo dos oficiais franceses, que parecem ter alguma simpatia por sua causa. No entanto, eles são eventualmente transferidos para uma prisão em terra, conhecida como "O Calabouço" (The Calabooza), um edifício decrépito e infestado de insetos, localizado em Papeete. As condições são muito piores, com falta de higiene e pouca comida.

Ainda assim, os prisioneiros, especialmente o narrador e Long Ghost, tentam manter o bom humor e a camaradagem. Eles interagem com os guardas taitianos e alguns visitantes, aprendendo sobre a vida na ilha. Percebendo que a justiça não virá facilmente e que sua prisão pode se estender indefinidamente, eles começam a planejar uma fuga. Uma noite, com a ajuda de alguns nativos simpáticos, eles conseguem escapar do Calabouço. O narrador e Long Ghost se separam dos outros fugitivos, decidindo explorar o interior da ilha do Taiti.

Personagem Características Personalidade
King Pomaree O rei nativo do Taiti (ou na verdade a Rainha Pomare IV), figura de autoridade simbólica, mas cujo poder real está diminuído pela influência estrangeira (francesa e missionária). Frequentemente mencionado, mas não interage diretamente. Retratado como uma figura trágica, que perdeu muito de sua autoridade e cultura devido à colonização e à influência ocidental. Sua presença é um lembrete da mudança cultural.
Os Guardas Taitianos Nativos encarregados de vigiar o Calabouço. Muitos são amigáveis e descontraídos, não levando suas funções muito a sério. Descontraídos, preguiçosos, facilmente subornáveis ou convencíveis. Eles refletem a gentileza e a natureza pacífica do povo taitiano, contrastando com a rigidez das prisões europeias.
Oficiais Franceses Oficiais da marinha francesa responsáveis pela ordem na baía e pela supervisão dos prisioneiros. Mais justos e razoáveis que o Capitão Guy, embora ainda representem uma autoridade externa. Alguns demonstram simpatia pelos marinheiros, mas estão presos à burocracia e aos procedimentos militares.

Seção 4: Vida na Ilha

O narrador e Long Ghost se embrenham nas exuberantes paisagens do Taiti. Eles encontram uma vida simples e idílica entre os nativos, que os recebem com hospitalidade. Eles vagam de aldeia em aldeia, participando de banquetes, festas e outras atividades locais. O narrador observa a beleza natural da ilha, a generosidade dos taitianos e a forma como suas vidas foram afetadas pela chegada dos europeus, especialmente os missionários.

Melville critica abertamente a hipocrisia e os efeitos negativos da "civilização" imposta pelos missionários cristãos. Ele descreve como a introdução de roupas, a proibição de danças e cantos tradicionais e a imposição de novas leis morais levaram à supressão da cultura taitiana, à diminuição da população e à perda da alegria e simplicidade originais dos nativos. Ele compara a vida mais livre e "pagã" de antes com a moralidade repressora e muitas vezes mal compreendida imposta. O Dr. Long Ghost, com seu cinismo, frequentemente ecoa e expande essas críticas.

Personagem Características Personalidade
Missionários (Britânicos) Representantes de diversas denominações protestantes, que buscam converter os nativos do Taiti ao cristianismo e impor valores ocidentais. Possuem considerável influência política e social na ilha. Dogmáticos, moralistas, muitas vezes hipócritas e autoritários. Apesar de suas boas intenções declaradas, Melville os retrata como agentes da destruição cultural, que impõem uma moralidade rígida sem compreender ou respeitar a cultura local, e muitas vezes se envolvem em intrigas políticas.
Nativos Taitianos O povo indígena do Taiti, retratado como geralmente hospitaleiro, gentil, alegre e de espírito livre. No entanto, também são mostrados como um povo em declínio, afetado por doenças ocidentais e pela supressão cultural. De natureza pacífica e generosa, mas também ingênuos e facilmente influenciados. Sofrem com a perda de sua cultura e identidade devido à colonização e à imposição religiosa. Há um sentimento de melancolia sobre seu destino.
Dr. Johnson Um missionário específico que o narrador e Long Ghost encontram. É um personagem que incorpora as críticas de Melville à missão evangélica. É retratado como severo e moralista, preocupado com as aparências e com a imposição de regras rígidas. Ele representa a face mais dogmática e menos compreensiva do trabalho missionário, sendo objeto de escárnio por parte de Long Ghost e de observação crítica do narrador.

Seção 5: Em Busca de um Novo Navio

Apesar da vida agradável entre os nativos, o narrador e Long Ghost sentem a necessidade de seguir em frente. Eles são marinheiros de coração e ociosidade prolongada, embora agradável, não é seu destino final. Eles tentam encontrar uma maneira de deixar o Taiti. Isso os leva a interagir com vários outros marinheiros europeus e americanos que vivem na ilha, alguns dos quais são capitães de pequenos navios mercantes ou baleeiros que param na ilha.

Eles encontram o Capitão Flash, um personagem excêntrico e questionável que comanda um pequeno navio baleeiro. A tentativa de embarcar com ele não é bem-sucedida, revelando mais sobre a exploração e a precariedade da vida marítima naquelas águas. O narrador e Long Ghost continuam sua busca, aprendendo sobre as rotas de navios e as oportunidades de trabalho na região. Eles são frequentemente frustrados por sua falta de dinheiro e pela desconfiança dos capitães em relação a marinheiros "sem papéis".

Personagem Características Personalidade
Capitão Flash Capitão de um baleeiro que o narrador e Long Ghost tentam persuadir a levá-los. Ele é um personagem astuto, com uma reputação duvidosa, mas também tem seus próprios problemas para encontrar tripulação. Malandro, cínico, preocupado principalmente com seus próprios interesses financeiros. Ele personifica a dureza e a desonestidade que permeiam partes do comércio marítimo do Pacífico, disposto a explorar a necessidade dos marinheiros.
Capitão Jermin Capitão do "Little Jule", um pequeno escuna que o narrador eventualmente consegue embarcar. Ele é um homem mais direto e honesto, embora ainda seja um capitão típico de sua época. Ele está com dificuldades para tripular seu navio, o que abre uma oportunidade para o narrador. Mais pragmático e menos tirânico do que o Capitão Guy. Ele é um homem de negócios, mas opera com uma certa integridade e desespero por tripulação, o que o torna mais acessível aos protagonistas. Ele não é cruel, mas focado na sua missão e na rentabilidade do seu navio.
Shorty Um dos marinheiros do "Julia", mais jovem e impressionável que o narrador ou Long Ghost. Ele é um dos que escapam do Calabouço e tenta se juntar a outros navios. Ingênuo, um tanto medroso, mas leal. Ele representa a fragilidade de alguns dos marinheiros em face das adversidades, contrastando com a resiliência do narrador e a inteligência de Long Ghost.

Seção 6: A Bordo do Little Jule

Eventualmente, o narrador e Long Ghost encontram o "Little Jule", um pequeno escuna em busca de tripulação para uma viagem comercial. O Capitão Jermin, apesar de ser um pouco excêntrico, oferece uma oportunidade. O narrador decide aceitar a oferta e se juntar ao "Little Jule". No entanto, para a surpresa e lamento do narrador, Dr. Long Ghost decide não ir com ele. Long Ghost, que sempre esteve à procura de um bom casamento, aparentemente se encantou por uma mulher taitiana e resolveu ficar na ilha, talvez para se casar ou viver uma vida mais estável.

A despedida entre os dois amigos é melancólica, marcando o fim de sua parceria aventureira. O narrador embarca no "Little Jule" com alguns outros marinheiros, incluindo Jimmy, um taitiano com um bom coração, mas com problemas de bebida. O navio parte do Taiti para um destino incerto, simbolizando a contínua busca por aventura do narrador. O livro termina com o "Little Jule" navegando para o horizonte, com o narrador refletindo sobre o destino dos nativos e a busca incessante por liberdade e novas experiências.

Personagem Características Personalidade
Jimmy Um marinheiro taitiano a bordo do "Little Jule". Ele é retratado como um homem de bom coração, mas com um vício em álcool, o que é um reflexo da corrupção dos costumes nativos pela influência ocidental. Ele é prestativo, mas também problemático devido ao seu vício. Amigável, ingênuo e de bom temperamento na maior parte do tempo, mas transforma-se em um "demônio" quando bêbado, revelando a fragilidade e os vícios que se desenvolveram entre os nativos após o contato com os europeus. Ele é um personagem trágico que encarna a decadência da sociedade taitiana.

Gênero literário

Romance de Aventura, Ficção Marítima, Diário de Viagem (com elementos autobiográficos), Crítica Social.

Dados do autor

Herman Melville (1819–1891) foi um romancista, contista e poeta americano, mais conhecido por seus romances marítimos.

  • Nascido em Nova Iorque, Melville teve uma educação formal limitada e embarcou como marinheiro mercante aos 19 anos.
  • Mais tarde, serviu em um baleeiro no Oceano Pacífico, desertou nas ilhas Marquesas e viveu entre os nativos em Nuku Hiva, experiência que formou a base de seu primeiro romance, "Typee" (1846).
  • "Omoo" (1847) é a sequência de "Typee" e continua a narrar suas aventuras no Pacífico.
  • Sua obra mais famosa é "Moby Dick" (1851), que embora inicialmente não tenha sido um sucesso comercial, é hoje considerada uma das maiores obras da literatura americana.
  • Após uma série de fracassos comerciais, Melville abandonou a escrita de romances e trabalhou como inspetor da alfândega em Nova Iorque por muitos anos. Ele continuou a escrever poesia e, postumamente, sua novela "Billy Budd" foi publicada, consolidando ainda mais sua reputação.
  • Apesar de ter morrido na obscuridade, sua obra foi redescoberta no início do século XX e agora é altamente estudada e celebrada.

Moral da história

A principal moral de "Omoo" reside na crítica à "civilização" ocidental e à hipocrisia religiosa. Melville questiona a superioridade moral e cultural dos europeus, mostrando como a imposição de seus valores e crenças (especialmente pelos missionários) levou à destruição das culturas nativas e à infelicidade dos povos do Pacífico. O livro defende uma visão mais natural e livre da existência, valorizando a generosidade e a simplicidade dos nativos em contraste com a ganância, a crueldade e a falsidade frequentemente encontradas entre os homens "civilizados". Também explora temas de liberdade individual versus autoridade e a busca incessante por aventura e significado na vida.

Curiosidades do livro

  • Sequência de "Typee": "Omoo" é uma continuação direta do primeiro romance de Melville, "Typee", embora possa ser lido de forma independente. O título "Omoo" é uma palavra taitiana que significa "andarilho" ou "aquele que vaga de ilha em ilha", refletindo a natureza itinerante da narrativa.
  • Elementos Autobiográficos: Assim como "Typee", "Omoo" é amplamente baseado nas experiências reais de Herman Melville como marinheiro e sua deserção do navio baleeiro "Acushnet" nas Ilhas Marquesas e sua posterior estadia no Taiti em 1842. Os personagens do narrador e do Dr. Long Ghost são frequentemente vistos como alter egos do próprio Melville e de seu companheiro, um cirurgião inglês chamado Dr. John Troy.
  • Controvérsia Missionária: O livro gerou considerável controvérsia na época de sua publicação devido às suas críticas abertas e diretas aos missionários cristãos no Taiti. Melville argumenta que os missionários, embora bem-intencionados, causaram mais mal do que bem, destruindo a cultura e a felicidade dos nativos sob o pretexto de "civilizá-los" e convertê-los.
  • Estilo Jornalístico e Etnográfico: Melville combina a narrativa de aventura com observações detalhadas da vida taitiana, sua flora e fauna, e as mudanças sociais e políticas resultantes do contato com os europeus. O livro tem um tom quase jornalístico em suas descrições.
  • Recepção Crítica: Embora menos popular que "Typee", "Omoo" foi bem recebido e ajudou a estabelecer a reputação de Melville como um escritor de romances exóticos de viagem. No entanto, as críticas aos missionários e a representação de um "paraíso perdido" foram chocantes para alguns leitores vitorianos.
  • Humor e Ironia: O livro é notável pelo seu humor e ironia, especialmente nas interações entre o narrador e o Dr. Long Ghost, cujas tiradas filosóficas e sarcásticas adicionam uma camada de sofisticação à narrativa.