Saint Joan - George Bernard Shaw

Resumo

'Saint Joan' é uma peça teatral que dramatiza a vida e o julgamento de Joana d'Arc, a jovem camponesa francesa que, afirmando ser guiada por vozes divinas, liderou o exército francês contra os ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. A peça começa com Joana persuadindo um senhor local a lhe dar soldados e cavalos para ir ao Delfim. Ela então inspira o Dauphin, Charles VII, a reivindicar seu trono e ser coroado rei em Rheims, além de liderar vitórias militares cruciais, mais notavelmente na Batalha de Orléans. No entanto, sua fé inabalável, suas visões diretas de Deus que ignoram a autoridade da Igreja, seu nacionalismo emergente e suas origens humildes a colocam em conflito com os poderes estabelecidos: a Igreja, a nobreza feudal e os ingleses. Capturada, Joana é submetida a um tribunal eclesiástico, acusada de heresia e feitiçaria. Apesar de sua defesa inteligente e apaixonada, ela é condenada. Inicialmente, ela se retrata para evitar a fogueira, mas ao perceber que isso significaria prisão perpétua e a negação de suas vozes, ela retira sua retratação e é queimada viva. O Epílogo, ambientado 25 anos após sua morte, reúne os personagens para refletir sobre sua canonização, explorando o tema recorrente da dificuldade da humanidade em aceitar profetas e santos em seu próprio tempo.

Seções do livro

Seção 1: Cena I - O Castelo de Vaucouleurs

A peça começa em fevereiro de 1429, no castelo de Robert de Baudricourt em Vaucouleurs. Robert está furioso porque suas galinhas não estão botando ovos, e seu mordomo insiste que isso se deve à influência de uma jovem camponesa chamada Joana. Joana chega e exige de Robert cavalos e um pequeno exército para ir a Chinon e se encontrar com o Delfim, Charles. Ela afirma ter uma missão divina: expulsar os ingleses da França e coroar Charles em Rheims. Robert a descarta como louca e fantasiosa, mas Joana tem um poder de persuasão estranho. Ela prevê uma derrota militar iminente para os franceses, que se confirma enquanto ela fala. O mordomo de Robert e seu tenente, Polignac, caem sob o feitiço de Joana, e eventualmente o próprio Robert, relutantemente e contra seu julgamento, concorda em lhe dar o que ela pede.

Personagem Características Personalidade
Robert de Baudricourt Capitão de Vaucouleurs, senhor feudal. Cético, pragmático, teimoso, mas eventualmente suscetível à persuasão de Joana devido a eventos inexplicáveis.
Joana (Jeanne d'Arc) Jovem camponesa de Domrémy, cerca de 17 anos. Cheia de fé, determinada, corajosa, franca, pragmática, com um forte senso de propósito e guiada por "vozes".
Mordomo de Robert Servo de Robert de Baudricourt. Supersticioso, observador, o primeiro a acreditar no poder de Joana.

Seção 2: Cena II - O Castelo de Chinon

No castelo de Chinon, em março de 1429, o Delfim, Charles VII, está conversando com o Arcebispo de Rheims e La Trémouille, o poderoso camareiro. Todos estão desanimados com a situação da França, que está perdendo a guerra para os ingleses. Charles é retratado como um líder fraco, covarde e indeciso, mais preocupado com seus luxos e seu status. Dunois, o Bastardo de Orléans, é um comandante mais competente, mas também pessimista. Joana chega, e o Delfim tenta enganá-la fazendo com que outro membro da corte se passe por ele. No entanto, Joana, guiada por suas vozes, imediatamente reconhece Charles. Ela o inspira com sua fé e promessas de coroação em Rheims e vitória em Orléans. Ela exige um exército e a chance de liderar as tropas. Embora o Arcebispo e La Trémouille sejam profundamente céticos e desconfiados de suas afirmações divinas e sua audácia, o impacto de Joana sobre Charles é inegável, e ele, contra a vontade de seus conselheiros, concorda em dar-lhe uma chance.

Personagem Características Personalidade
Charles (Delfim) Futuro Rei Charles VII da França. Fraco, indolente, covarde, autocomplacente, inseguro, facilmente manipulável, mas também desesperado por salvação.
Arcebispo de Rheims Líder espiritual influente. Sábio, cético, preocupado com a autoridade da Igreja, mas também capaz de reconhecer o poder da fé de Joana.
La Trémouille Grande Camareiro da França, figura poderosa da corte. Cínico, interesseiro, preocupado com o poder e a manutenção do status quo, desconfia de Joana.
Gilles de Rais (Barba Azul) Companheiro do Delfim, um jovem nobre que mais tarde se tornaria notório como assassino em série. Jovem, impressionável, inicialmente fascinado por Joana.
Dunois Comandante militar francês, conhecido como o "Bastardo de Orléans". Competente, corajoso, pragmático, cético, mas justo, respeita o mérito e a eficácia.

Seção 3: Cena III - Orléans

Estamos às margens do rio Loire, perto de Orléans, em maio de 1429. Dunois está com seu pajem, frustrado porque os ventos desfavoráveis impedem suas tropas de atravessar o rio para atacar os ingleses. Joana chega e, após uma breve discussão sobre estratégia – Joana quer um ataque direto e audacioso, enquanto Dunois é mais cauteloso –, o vento miraculosamente muda de direção. Joana atribui isso à intervenção divina, reforçando sua convicção de que Deus está com ela. Dunois, embora ainda um estrategista militar pragmático, fica impressionado e aceita que há algo excepcional em Joana. Ele concorda em segui-la para a batalha, reconhecendo que sua fé e sua capacidade de inspirar as tropas são mais poderosas do que qualquer tática convencional no momento.

Seção 4: Cena IV - A Tenda Inglesa

Nesta cena, em maio de 1429, na tenda de campanha inglesa, o Conde de Warwick discute a "Virgem" (Joana) com o Bispo de Beauvais, Peter Cauchon, e o Capelão de Stogumber. Warwick, um nobre feudal inglês, vê Joana como uma ameaça política e social. Seu nacionalismo e sua ideia de que os camponeses podem ser tão importantes quanto os nobres minam a estrutura feudal. Cauchon, um bispo francês alinhado com os ingleses, vê Joana como uma ameaça religiosa. Ele argumenta que suas afirmações de comunicação direta com Deus, sem a intermediação da Igreja, são heréticas e perigosas, pois subvertem a autoridade eclesiástica. Stogumber, um capelão inglês fanático, simplesmente a considera uma bruxa diabólica que deve ser queimada imediatamente. Os três, por diferentes razões, concordam que Joana representa um perigo grave para suas respectivas ordens e que ela deve ser eliminada.

Personagem Características Personalidade
Conde de Warwick Nobre inglês, líder militar e político. Astuto, político, pragmático, compreende as implicações sociais e políticas do nacionalismo e do individualismo de Joana.
Capelão de Stogumber Capelão inglês. Fanático, xenófobo, cruel, impetuoso, convencido de que Joana é uma bruxa enviada pelo diabo.
Peter Cauchon Bispo de Beauvais, líder eclesiástico francês leal aos ingleses. Intelectual, astuto, dogmático, profundamente convencido da necessidade de preservar a autoridade da Igreja acima de tudo.

Seção 5: Cena V - A Catedral de Rheims

Após a coroação de Charles VII em Rheims, em julho de 1429, a celebração é tingida de amargura. Joana está presente, mas a alegria da corte francesa é mais por sua própria vitória política do que por Joana. Os nobres franceses, incluindo Charles, estão cansados da influência de Joana e de sua teimosia em seguir suas próprias convicções divinas. Eles veem Joana como uma perturbadora da ordem social e estão irritados com sua recusa em se curvar às convenções ou à autoridade da Igreja e da nobreza. Charles, agora rei, quer paz e diplomacia, enquanto Joana insiste em continuar a guerra para expulsar os ingleses completamente. Joana se sente isolada e traída, percebendo que aqueles que ela ajudou agora a consideram um estorvo. Ela reafirma sua lealdade a Deus acima de tudo, inclusive da Igreja, o que sela seu destino. Ela decide que, se a corte não a apoiar, ela agirá por conta própria.

Seção 6: Cena VI - O Julgamento

A cena mais longa da peça ocorre em maio de 1431, em um tribunal eclesiástico em Rouen. Joana está sendo julgada por heresia, feitiçaria e vestir-se como homem. Os principais acusadores são o Bispo Cauchon e o Inquisidor. O Conde de Warwick está presente, garantindo que os interesses ingleses sejam atendidos. Joana se defende com notável inteligência e coragem, desafiando a autoridade do tribunal e insistindo que suas "vozes" vêm de Deus e não do diabo. O Inquisidor faz um longo discurso sobre os perigos do julgamento privado e da rebelião contra a autoridade da Igreja, que pode levar ao caos social. Sob imensa pressão, exaustão e ameaças de ser queimada viva, Joana cede e assina uma retratação, confessando seus "pecados". No entanto, ao saber que isso significa prisão perpétua e a proibição de vestir roupas de homem (o que a faria mais vulnerável a agressões), e acima de tudo, a negação de sua verdadeira natureza e a impossibilidade de ouvir suas vozes, ela rasga a retratação. Ela escolhe a morte na fogueira em vez de viver uma vida de negação e prisão. Joana é levada para ser queimada. O Capelão Stogumber, que anteriormente desejava sua morte, fica horrorizado com a visão e os gritos de Joana na fogueira, sofrendo um colapso moral e chorando por seu ato.

Personagem Características Personalidade
Inquisidor Representante da Inquisição, figura de autoridade eclesiástica. Racional, dogmático, preocupado com a ordem e a ortodoxia da Igreja acima de tudo, discursivo.
Assessores Vários médicos e padres que compõem o corpo do tribunal. A maioria é covarde, oportunista, influenciada pelo poder inglês e pelas convicções dos líderes do tribunal.
Ladvenu Um dos padres assessores, simpático a Joana. Humano, compassivo, inicialmente hesita em desafiar a autoridade, mas demonstra empatia por Joana.
Algoz Executor das sentenças. Cumpridor de ordens, sem personalidade destacada.

Seção 7: Epílogo

Vinte e cinco anos após a morte de Joana (1456), o Rei Charles VII está em seu quarto quando o fantasma de Joana aparece. Vários outros personagens de sua vida também aparecem, como Cauchon, Ladvenu, Dunois, Warwick e Stogumber (agora um velho arrependido). Um Cavalheiro inglês do século XX também aparece, simbolizando a reabilitação de Joana ao longo dos séculos. Todos reconhecem a santidade de Joana e refletem sobre suas ações passadas, alguns com remorso, outros com justificativa. Quando Joana pergunta se eles querem que ela volte à Terra como uma pessoa viva, todos, incluindo Charles e até o próprio fantasma de Cauchon, recuam horrorizados. Eles percebem que, embora adorem a santa morta, uma santa viva é um incômodo perigoso que desafia a ordem e a autoridade. O Epílogo conclui com a melancólica observação de que a humanidade não está pronta para aceitar seus santos e profetas.

Gênero literário

Drama histórico, tragédia moderna, peça de ideias (play of ideas), tragicomédia.

Dados do autor

George Bernard Shaw (1856-1950) foi um proeminente dramaturgo, crítico e ativista político irlandês. Ele é considerado uma das figuras mais importantes do teatro ocidental e foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1925, embora tenha tentado recusar o prêmio em dinheiro. Shaw foi um socialista fabiano fervoroso e utilizou muitas de suas peças como plataformas para explorar e criticar questões sociais, políticas e morais de seu tempo. Suas obras são conhecidas por seu humor irônico, diálogos afiados e a exploração de temas complexos. Além de 'Saint Joan', outras peças famosas incluem 'Pygmalion' (que inspirou o musical 'My Fair Lady'), 'Major Barbara', 'Man and Superman' e 'Mrs. Warren's Profession'. Ele foi um polemista incansável e um dos maiores estilistas da prosa inglesa de seu tempo.

Moral da história

A moral central de 'Saint Joan' é que a sociedade, em qualquer época, tem extrema dificuldade em aceitar e conviver com indivíduos genuinamente extraordinários, profetas ou santos que desafiam as normas estabelecidas. Embora Joana seja eventualmente canonizada, a peça argumenta que ela foi queimada não por maldade inerente, mas porque sua fé direta em Deus (sem a intermediação da Igreja), seu nacionalismo emergente (contra o sistema feudal) e sua insistência em seguir sua própria consciência (contra a autoridade institucional) representavam uma ameaça fundamental à ordem social, religiosa e política de sua época. A peça também sugere que a humanidade prefere seus santos mortos e inofensivos, pois um santo vivo é uma força perturbadora que exige uma revisão constante de valores e estruturas.

Curiosidades do livro

  • Canonização e Inspiração: Shaw escreveu 'Saint Joan' em 1923, apenas três anos após a canonização formal de Joana d'Arc pela Igreja Católica em 1920. Essa canonização o levou a reavaliar a história de Joana e a criar uma peça que a apresentava de forma mais complexa e moderna, longe de ser apenas uma figura religiosa milagrosa.
  • Fidelidade Histórica: Apesar de ser uma obra dramatúrgica, Shaw fez uma pesquisa extensiva sobre os registros do julgamento de Joana d'Arc. Ele se orgulhava da precisão histórica de sua peça, embora tenha tomado algumas liberdades artísticas, como a introdução do Epílogo.
  • O Epílogo Controverso: O Epílogo, que se passa 25 anos após a morte de Joana, é uma adição única de Shaw e foi inicialmente controverso. Alguns críticos e públicos da época acharam que ele quebrava a dramaticidade da peça, enquanto outros o consideravam um gênio, pois permite que Shaw discuta as implicações atemporais da história de Joana e suas ideias.
  • Visão de Shaw sobre Joana: Shaw retrata Joana como uma herege não por maldade, mas por sua insistência na "voz de Deus" individual, que antecipava o protestantismo, e por seu "nacionalismo" moderno, que desafiava o feudalismo. Ele a vê como uma proto-protestante e proto-nacionalista, uma mulher à frente de seu tempo, que foi incompreendida e temida por quebrar as estruturas de poder existentes.
  • Prêmio Nobel: Embora o Prêmio Nobel de Literatura de 1925 tenha sido concedido a George Bernard Shaw por toda a sua obra, 'Saint Joan' é frequentemente citada como uma de suas maiores realizações e um fator decisivo para o reconhecimento.