A Sonata de Kreutzer - Lev Tolstói
Resumo "Sonata a Kreutzer" é uma novela de Liev Tolstói que narra a confissão de Pozdnyshev, um homem que assassinou sua esposa. A história...
Resumo
"Sonata a Kreutzer" é uma novela de Liev Tolstói que narra a confissão de Pozdnyshev, um homem que assassinou sua esposa. A história começa num comboio, onde Pozdnyshev, ao ouvir uma discussão entre passageiros sobre amor, casamento e infidelidade, decide partilhar a sua própria e trágica experiência. Ele descreve a hipocrisia e a natureza "animalística" do casamento na sociedade, a sua juventude dissoluta, a sua relação conturbada com a esposa, marcada por brigas constantes e momentos de reconciliação superficial. O clímax da sua narrativa ocorre com a chegada de um músico, Trukhachevsky, que começa a tocar com a sua esposa, desencadeando um ciúme avassalador em Pozdnyshev. Consumido pela paranoia, ele acaba por regressar de uma viagem inesperadamente e, num acesso de fúria, mata a esposa, para depois ser absolvido por um tribunal. A novela é uma profunda reflexão sobre o casamento, a sexualidade, o ciúme, a moralidade e as normas sociais.
Seções do livro
Seção 1: O Encontro no Trem
A história começa com o narrador viajando de comboio, observando e ouvindo uma conversa entre os passageiros. O debate centra-se nas relações entre homens e mulheres, o amor, o casamento e a infidelidade. Uma dama defende o amor como base do casamento, enquanto um advogado argumenta sobre a complexidade das relações e a inevitabilidade da infidelidade. Um comerciante apresenta uma visão mais pragmática e patriarcal. Inicialmente em silêncio, um homem pálido e de olhos brilhantes, que o narrador mais tarde identificará como Pozdnyshev, intercede abruptamente na conversa, desafiando as visões apresentadas e provocando uma pausa na discussão. A sua intervenção é carregada de uma intensidade que intriga o narrador.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Narrador (o Viajante) | Observador atento, curioso. | Quieto, analítico, busca entender a natureza humana. |
| Pozdnyshev | Pálido, magro, olhos brilhantes, idade indefinida. | Intenso, perturbado, dogmático, atormentado, com convicções fortes e amargas. |
| A Dama | Bem-vestida, educada. | Idealista, romântica, defende o amor como alicerce do casamento. |
| O Advogado | Intelectual, articulado. | Cético, pragmático, argumenta sobre a inevitabilidade da infidelidade e a superficialidade do amor. |
| O Comerciante | De aparência simples, mais velho. | Tradicionalista, machista, com uma visão utilitária e patriarcal do casamento. |
Seção 2: A Juventude de Pozdnyshev e o Início do Casamento
Pozdnyshev, após a sua primeira intervenção, decide partilhar a sua história com o narrador. Ele começa por descrever a sua juventude dissoluta, marcada por vícios e excessos sexuais, que ele considerava normais e até esperados para os homens da sua classe. Ele argumenta que essa educação e experiência pré-matrimonial preparam os homens para ver as mulheres como objetos de desejo e não como iguais. Ele fala sobre o seu próprio casamento, inicialmente motivado pelo que ele acreditava ser amor, mas que rapidamente se transformou em desilusão. A sua esposa era uma mulher que ele inicialmente idealizou, mas que ele passou a ver de forma muito diferente, focando-se na sua "sensualidade animal" e na incapacidade de comunicação real. Ele descreve a ilusão inicial do casamento e a rápida degradação para uma série de brigas e reconciliações vazias.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Esposa de Pozdnyshev | Bela, jovem, com um temperamento forte e independente (inicialmente percebida por ele como pureza e paixão). | Volátil, apaixonada, mais tarde vista por Pozdnyshev como frívola e manipuladora, embora ela própria fosse vítima das circunstâncias. |
Seção 3: A Desilusão e o Ciclo de Ódio
Pozdnyshev aprofunda a sua narrativa sobre a deterioração do seu casamento. Ele descreve a vida a dois como uma "armadilha" e uma "prisão", onde a paixão inicial rapidamente cede lugar a um ódio mútuo e a brigas incessantes, seguidas por reconciliações superficiais e temporárias. Ele culpa a sociedade por glorificar o casamento baseado na paixão física, que ele chama de "amor animal", sem preparar os cônjuges para uma verdadeira união espiritual ou intelectual. Ele e a sua esposa tiveram vários filhos, mas Pozdnyshev via os filhos não como um elo de união, mas como mais um fator de tensão e uma desculpa para permanecerem juntos numa relação infeliz. Ele expressa a sua convicção de que o casamento, tal como é praticado, é uma forma de "prostituição legalizada", onde o homem e a mulher usam um ao outro para satisfazer os seus desejos, sem respeito ou amor genuíno.
Seção 4: Trukhachevsky, a Música e o Ciúme
A tensão no casamento atinge um novo patamar com a chegada de um violinista profissional, Trukhachevsky, um conhecido de longa data de Pozdnyshev. O músico é convidado para a sua casa e logo começa a tocar com a esposa de Pozdnyshev, que é uma pianista talentosa. A interpretação da Sonata a Kreutzer de Beethoven por ambos é o ponto de viragem. Pozdnyshev descreve como a música, especialmente aquela peça, libertou uma paixão perigosa e uma intimidade entre a sua esposa e Trukhachevsky que o consumiu de ciúme. Ele sentiu que a música os unia de uma forma que ele nunca conseguiria, e viu nela uma linguagem de sedução. Embora nada de explicitamente imoral tenha acontecido, a "conexão" entre eles através da música foi o suficiente para acender a chama da paranoia e da suspeita em Pozdnyshev.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Trukhachevsky | Violinista profissional, elegante, charmoso. | Carismático, talentoso, mas percebido por Pozdnyshev como um sedutor e intruso. |
Seção 5: A Intensificação do Ciúme e a Viagem
Após a atuação da sonata, o ciúme de Pozdnyshev torna-se incontrolável. Ele observa cada interação entre a sua esposa e Trukhachevsky com uma desconfiança crescente, interpretando os olhares e gestos mais inocentes como sinais de infidelidade. A sua mente entra num estado de delírio e paranoia. É nesta altura que Pozdnyshev precisa fazer uma viagem de negócios. Embora a princípio relutante em deixar a esposa sozinha com Trukhachevsky, ele acaba por partir, convencendo-se de que a sua ausência provará a inocência ou culpa da esposa. Longe de casa, as suas preocupações intensificam-se. Recebe cartas da esposa, que ele lê e relê, encontrando nelas significados ocultos e confirmações das suas suspeitas, mesmo quando o conteúdo era inócuo. A sua imaginação desenfreada leva-o ao ponto de ruptura.
Seção 6: O Retorno e o Crime
A viagem de negócios de Pozdnyshev é insuportável. Consumido por visões de traição, ele decide regressar a casa mais cedo do que o planeado. A sua mente está num turbilhão de pensamentos sombrios e violentos. Ao chegar em casa, depara-se com a sua esposa e Trukhachevsky a jantar. A cena, que poderia ser inocente, é vista pelos olhos enlouquecidos de Pozdnyshev como a confirmação definitiva da sua traição. A sua esposa e Trukhachevsky ficam visivelmente perturbados com o seu regresso inesperado. Num acesso de fúria cega, ele agarra uma adaga e ataca a esposa, esfaqueando-a mortalmente. O assassinato é um ato impulsivo e brutal, a culminação do ciúme e do ódio acumulados. Depois de cometer o crime, ele é tomado por um misto de choque, remorso e uma estranha calma.
Seção 7: As Consequências e a Reflexão Final
Após o assassinato, Pozdnyshev é preso. Ele relata o choque e a confusão imediatos, bem como o processo judicial que se seguiu. No final, ele é absolvido do crime, pois o tribunal conclui que agiu num estado de "insanidade temporária" provocada pela infidelidade. Contudo, a absolvição não lhe traz paz. Pozdnyshev continua atormentado pelo seu passado e pelas suas reflexões sobre a vida e a morte da esposa. Ele usa a sua experiência para argumentar sobre a corrupção da sociedade e a futilidade das relações baseadas na paixão física. Defende a abstinência sexual e a pureza, e critica a hipocrisia das normas sociais que incentivam a promiscuidade masculina enquanto exigem pureza feminina. A sua conclusão é uma defesa do amor cristão, que é um amor espiritual e não carnal, e a busca por um ideal moral mais elevado. Ele finaliza a sua confissão com um tom de resignação e condenação, esperando que a sua história sirva de aviso.
Gênero literário
Novela, Ficção filosófica, Realismo.
Dados do autor
Liev Nikolaevich Tolstói (1828–1910) foi um dos maiores escritores russos de todos os tempos. Nascido numa família aristocrática, é mais conhecido por suas obras épicas como "Guerra e Paz" e "Anna Karenina". As suas obras exploram temas profundos como a moralidade, a religião, a filosofia, a sociedade e a natureza humana. Ao longo da sua vida, Tolstói passou por uma profunda crise espiritual que o levou a uma forma de cristianismo anarquista e pacifista, defendendo a não-violência, a simplicidade e a pobreza voluntária. Suas ideias tiveram uma vasta influência, inspirando movimentos sociais e políticos em todo o mundo.
Moral da história
A moral da história de "Sonata a Kreutzer" é uma crítica contundente à hipocrisia das relações matrimoniais e sexuais na sociedade contemporânea de Tolstói, e uma advertência sobre os perigos destrutivos do ciúme e da paixão carnal sem uma base espiritual. Tolstói, através de Pozdnyshev, questiona a ideia de amor romântico como fundamento do casamento, argumentando que a paixão sexual é, na verdade, uma força egoísta e animal que leva à desilusão, ao conflito e, em casos extremos, à tragédia. A novela serve como um veículo para as próprias ideias ascéticas de Tolstói, que defendia a abstinência sexual e a elevação do amor a um plano puramente espiritual, como caminho para a salvação e a verdadeira felicidade. A moral subjacente é a busca pela pureza moral e a condenação da luxúria e do materialismo que corrompem as relações humanas.
Curiosidades do livro
- Controvérsia e Censura: Publicada em 1889, "Sonata a Kreutzer" foi extremamente controversa e chegou a ser censurada na Rússia e em outros países (como nos EUA, onde foi banida pelos correios) devido às suas visões radicais sobre o casamento, a sexualidade e a crítica à "prostituição legalizada" do matrimónio. O próprio Czar Alexandre III teve de intervir para permitir a sua publicação na Rússia.
- Reação da Esposa de Tolstói: Sofia Tolstói, a esposa do autor, ficou profundamente perturbada com a novela, sentindo que ela difamava o casamento e as mulheres em geral, e que refletia negativamente sobre a sua própria relação com Tolstói. Ela escreveu um posfácio à obra, tentando atenuar a visão do marido e defender o valor do casamento e da maternidade.
- Epílogo de Tolstói: Devido à controvérsia e aos mal-entendidos gerados pela novela, Tolstói sentiu-se compelido a escrever um "Posfácio à Sonata a Kreutzer", onde explicava mais detalhadamente as suas ideias sobre a castidade, o casamento e o ideal cristão, tentando clarificar que a sua intenção não era condenar o casamento em si, mas as suas deturpações sociais.
- Inspirada pela Música: O título da novela refere-se à Sonata para Violino nº 9 em Lá maior, Op. 47, de Ludwig van Beethoven, conhecida como "Sonata a Kreutzer". Tolstói era um grande apreciador de música, mas via nela um poder que poderia ser tanto sublime quanto perigoso, capaz de evocar paixões incontroláveis, como é ilustrado na história.
- Impacto Cultural: A novela inspirou diversas obras de arte, peças de teatro, óperas e filmes. Por exemplo, o compositor checo Leoš Janáček criou o seu Quarteto de Cordas nº 1, subtitulado "Sonata a Kreutzer", em resposta à obra de Tolstói.
