The Piazza Tales - Herman Melville

Resumo

"The Piazza Tales" é uma coleção de seis contos (o primeiro conto, "A Praça", serve como uma introdução e moldura para os demais) escritos por Herman Melville e publicados em 1856. A obra explora uma variedade de temas, mergulhando na psicologia humana, na natureza da sociedade, nos perigos da ambição e na busca por significado em um mundo muitas vezes indiferente ou hostil. As histórias variam em tom e cenário, desde o realismo sombrio e alegórico de "Bartleby, o Escrivão" e a intriga psicológica de "Benito Cereno", até o exotismo desolador de "As Encantadas" e a fábula gótica de "A Torre do Sino". Através de narrativas que frequentemente questionam a percepção e a realidade, Melville confronta o leitor com a solidão, a loucura, a exploração e a complexidade moral, muitas vezes usando a metáfora e o simbolismo para explorar as profundezas da condição humana.

Seções do livro

Seção: A Praça

Este conto serve como uma introdução e uma moldura para a coleção. O narrador, um homem que vive em uma fazenda nas montanhas, decide construir uma "praça" (uma varanda coberta) em sua casa para apreciar a bela vista. Ele anseia por uma perspectiva idealizada do mundo, buscando uma utopia pastoral. No entanto, sua praça não oferece a vista perfeita que ele imaginava, pois uma montanha obscurece uma parte significativa do panorama. Curioso sobre a única casa visível em uma ravina distante, ele decide visitá-la. Lá, encontra Marianna, uma jovem solitária e melancólica que vive em grande pobreza. Marianna revela que sua própria "praça" é a pequena janela de sua cabana, de onde ela vê a casa do narrador como um "palácio feliz", imaginando a vida idílica que ali se desenrola. A história é uma meditação agridoce sobre a distância entre o ideal e a realidade, e como a percepção da felicidade é relativa e muitas vezes ilusória.

Personagem Características Personalidade
Narrador Proprietário de terras nas montanhas, observador, idealista inicial. Refletivo, busca beleza e harmonia, mas confrontado com a realidade.
Marianna Jovem solitária e pobre, vive em uma cabana isolada. Melancólica, sonhadora, encontra consolo na observação distante da casa do narrador.

Seção: Bartleby, o Escrivão

A história é narrada por um advogado de Wall Street, cujo escritório lida principalmente com hipotecas e títulos. Ele emprega três assistentes: Turkey, Nippers e Ginger Nut, cada um com suas peculiaridades. Sua rotina muda drasticamente com a contratação de Bartleby, um escrivão inicialmente diligente e produtivo. Bartleby trabalha silenciosamente e sem queixas, mas um dia, ao ser solicitado a revisar um documento, ele responde com a frase que se tornaria seu lema: "Eu preferiria não fazê-lo" (I would prefer not to). Essa recusa, dita com total passividade, estende-se a todas as tarefas, desde copiar documentos até sair do escritório ou mesmo responder perguntas pessoais. O advogado, inicialmente perplexo e irritado, passa a sentir uma mistura de compaixão e frustração, incapaz de lidar com a inação inabalável de Bartleby. Bartleby eventualmente se recusa a sair do escritório, tornando-se uma presença fantasmagórica. O advogado muda o escritório, mas Bartleby permanece no prédio, acabando na prisão por vadiagem. O advogado visita Bartleby na prisão, onde este se recusa a comer e, finalmente, morre. O conto é uma profunda alegoria sobre a resistência passiva, a alienação, a solidão e a indiferença da sociedade.

Personagem Características Personalidade
Narrador (Advogado) Proprietário de um escritório de advocacia em Wall Street, busca a paz e a facilidade. Benevolente, mas um tanto complacente; perplexo e impotente diante de Bartleby.
Bartleby Escrivão que se recusa a trabalhar com a frase "Eu preferiria não fazê-lo". Passivo, enigmático, melancólico, desafia a lógica e as convenções sociais.
Turkey Um dos escrivães, bom pela manhã, mas propenso a erros e irascibilidade à tarde. Excêntrico, desorganizado, mas leal ao advogado.
Nippers Outro escrivão, sofre de indigestão e irritabilidade pela manhã, melhora à tarde. Ambicioso, impaciente, mas com momentos de cortesia.
Ginger Nut O jovem office boy do escritório. Jovem, ágil, encarregado de buscar bolos e doces.

Seção: Benito Cereno

Este conto é uma narrativa complexa e cheia de suspense, baseada em um relato real. Em 1799, o Capitão Amasa Delano, de um navio mercante americano, encontra o "San Dominick", um navio espanhol em apuros, perto da costa do Chile. Ao abordar o navio, Delano encontra uma cena de estranha desordem e melancolia. O capitão espanhol, Don Benito Cereno, parece doente e deprimido, acompanhado constantemente por seu escravo pessoal, Babo, que demonstra uma lealdade inabalável. Delano observa uma série de comportamentos bizarros e inconsistências, mas sua mente otimista e sua crença na bondade humana o impedem de ver a verdade óbvia: uma revolta de escravos ocorreu a bordo. Os escravos, liderados pelo astuto Babo, assumiram o controle do navio e estão forçando Cereno a manter a fachada de normalidade sob ameaça de morte. A tensão aumenta até que Delano, ao deixar o navio, percebe a trama quando Cereno pula em seu barco, sendo seguido por Babo, que tenta atacá-lo com uma adaga. Delano e sua tripulação dominam os escravos e descobrem a terrível verdade sobre o motim e as atrocidades cometidas. O conto explora temas de percepção, racismo, a natureza do mal e a fragilidade da civilização.

Personagem Características Personalidade
Capitão Amasa Delano Capitão do navio americano, otimista e ingênuo. Bem-intencionado, perceptivo em alguns aspectos, mas cego para a malícia.
Don Benito Cereno Capitão espanhol do "San Dominick", parece doente e desesperado. Nobre, traumatizado, vive sob constante terror e engano.
Babo Escravo de Don Benito, parece devotado e cuidadoso. Astuto, cruel, o verdadeiro líder do motim e gênio manipulador.

Seção: O Homem do Para-Raios

Em um dia de tempestade, o narrador, que se considera seguro em sua casa nas montanhas, recebe a visita inesperada de um vendedor de para-raios. O vendedor é um homem intensamente paranóico e ameaçador, que tenta convencer o narrador dos perigos iminentes dos raios e da necessidade de comprar um de seus dispositivos. Ele prega a doutrina do medo, argumentando que a natureza é uma força destrutiva implacável. O narrador, no entanto, recusa-se a sucumbir ao medo, defendendo uma postura de confiança na providência e na beleza da natureza, mesmo em sua fúria. A discussão filosófica se desenrola, com o vendedor tentando instilar pânico e o narrador resistindo com argumentos sobre a dignidade humana e a recusa em viver com medo. A história é uma alegoria sobre o medo irracional, o oportunismo e a resiliência do espírito humano diante da ameaça.

Personagem Características Personalidade
Narrador Dono de casa, contemplativo, cético em relação ao medo. Racional, firme em suas convicções, desafia a manipulação.
Homem do Para-Raios Vendedor de para-raios, prega o medo da natureza. Paranóico, oportunista, persuasivo, mas fundamentalmente alarmista.

Seção: As Encantadas, ou Ilhas Encantadas

Este conto é uma série de dez "esboços" ou vinhetas sobre as Ilhas Galápagos, que Melville visitou em 1841. O narrador descreve a desolação, o isolamento e a natureza quase sobrenaturalmente intocada e assustadora das ilhas vulcânicas, habitadas por tartarugas gigantes e outras criaturas estranhas. A paisagem é retratada como um lugar de mistério e desesperança, onde o tempo parece ter parado. Entre as descrições geográficas e zoológicas, Melville entrelaça histórias de náufragos, eremitas e proscritos que tentaram viver ou sobreviver nas ilhas. Destacam-se as narrativas de Hunilla, uma mulher chilena que perdeu o marido e o irmão nas ilhas e viveu em grande desolação, e Oberlus, um ermitão recluso e tirânico que aterrorizava a ilha onde vivia. A história é uma meditação sobre a natureza selvagem e indiferente do mundo, a solidão existencial, a miséria humana e a capacidade de resistência do espírito.

Personagem Características Personalidade
Narrador Observador, viajante, descreve as ilhas e suas histórias. Refletivo, melancólico, fascinado pela natureza selvagem e pela condição humana.
Hunilla Mulher chilena que sobreviveu à tragédia e à solidão em uma ilha. Resiliente, sofredora, representa a perseverança humana.
Oberlus Eremita cruel e desfigurado, tirano de sua ilha. Solitário, malévolo, representa a depravação humana em isolamento.

Seção: A Torre do Sino

A história se passa na Itália renascentista e narra a ambição de Bannadonna, um mestre mecânico e inventor, em construir uma torre de sino e um autômato perfeito para tocar o sino. Bannadonna é um homem de genialidade, mas também de orgulho e arrogância, obcecado por superar a natureza e a humanidade com suas criações mecânicas. Ele constrói uma torre magnífica e, como seu projeto final, um autômato colossal de bronze e aço, chamado Haman, programado para tocar o sino em horários específicos. Durante a construção de Haman, Bannadonna sacrifica vidas humanas em sua busca pela perfeição mecânica, mantendo seus métodos em segredo. No dia da inauguração, com uma grande multidão reunida, Bannadonna entra na torre para fazer os ajustes finais em Haman. No entanto, o autômato, em seu primeiro toque do sino, atinge acidentalmente o próprio criador, matando-o. A história é uma alegoria gótica sobre os perigos da ambição desmedida, o orgulho humano (húbris) e a ideia de que a criação pode se voltar contra o criador.

Personagem Características Personalidade
Bannadonna Mestre mecânico, inventor e construtor de torres e autômatos. Ambicioso, orgulhoso, genial, impiedoso em sua busca pela perfeição.
Haman O autômato colossal de bronze e aço criado por Bannadonna. Uma máquina, personifica a consequência da ambição descontrolada.

Gênero literário

Os contos de "The Piazza Tales" abrangem diversos gêneros, incluindo ficção curta, alegoria, ficção psicológica, mistério, aventura, gótico e fábula moral. A coleção é notável por sua profundidade filosófica e seu estilo simbólico.

Dados do autor

Herman Melville (1819–1891) foi um romancista, contista e poeta americano. Nascido em Nova York, teve uma vida marcada por altos e baixos, incluindo uma infância abastada seguida por dificuldades financeiras. Aos 19 anos, embarcou como marinheiro mercante e mais tarde em um baleeiro, experiências que moldariam profundamente grande parte de sua obra literária.

Melville alcançou sucesso inicial com romances baseados em suas aventuras marítimas, como "Typee" (1846) e "Omoo" (1847). No entanto, sua obra-prima, "Moby Dick" (1851), uma épica história de caça à baleia com profundas conotações filosóficas, não foi um sucesso comercial na época e levou a um declínio em sua popularidade e fortuna. Após "Moby Dick", Melville voltou-se para formas mais curtas e experimentais, como as encontradas em "The Piazza Tales", e mais tarde para a poesia. Ele passou os últimos anos de sua vida trabalhando como inspetor alfandegário em Nova York e foi amplamente esquecido pelo público literário até o renascimento de seu trabalho no século XX.

Moral da história

Não há uma única "moral" para a coleção como um todo, mas cada conto oferece reflexões profundas sobre a condição humana:

  • A busca pela perfeição ideal versus a dura realidade: Muitos contos mostram personagens que perseguem ideais grandiosos ou procuram um refúgio da imperfeição, apenas para serem confrontados com a verdade brutal e muitas vezes desoladora.
  • A alienação e a solidão: Personagens como Bartleby, Marianna e Hunilla exemplificam a profunda solidão e o isolamento que podem ser impostos pela sociedade ou pela própria existência.
  • Os perigos da ambição desmedida e do orgulho (húbris): Bannadonna, em "A Torre do Sino", serve como um aviso sobre a busca implacável pela maestria que ignora os limites éticos e humanos.
  • A falibilidade da percepção e a natureza do engano: "Benito Cereno" é um estudo magistral sobre como a mente humana pode falhar em reconhecer o mal e a complexidade de uma situação, sendo cegada por preconceitos ou otimismo ingênuo.
  • A indiferença da natureza e a fragilidade humana: As descrições desoladoras de "As Encantadas" e a ameaça implacável do "Homem do Para-Raios" sublinham a insignificância da humanidade diante das forças naturais e do universo.
  • A resistência passiva e o poder da não-ação: Bartleby se destaca como um símbolo da resistência à opressão através da simples recusa em participar.

Em essência, a moral geral é que a vida é muitas vezes ambígua, injusta e complexa. Os ideais são frequentemente esmagados pela realidade, e o ser humano deve navegar entre a esperança e o desespero, a ambição e a resignação, em um mundo que raramente se conforma às expectativas.

Curiosidades do livro

  • Pós-Moby Dick: "The Piazza Tales" foi publicado cinco anos após "Moby Dick" (1851), que foi um fracasso comercial na época. Melville estava lutando financeiramente e buscando uma nova direção para sua escrita, voltando-se para contos para revistas, que eram mais lucrativos.
  • Recepção mista, reconhecimento posterior: A coleção recebeu críticas mistas em sua publicação. Embora alguns contos fossem elogiados, a obra como um todo não alcançou grande sucesso. No entanto, "Bartleby, o Escrivão" e "Benito Cereno" são hoje considerados obras-primas da literatura americana.
  • Inspiração pessoal: "A Praça" é uma referência direta à casa de Melville em Pittsfield, Massachusetts, onde ele havia construído uma varanda com vista para as Montanhas Berkshire. A experiência pessoal do autor em busca de uma "vista" ideal e a subsequente descoberta da "Marianna" real espelham a própria jornada de Melville de idealismo romântico para uma visão mais sombria da realidade.
  • Detalhes históricos em "Benito Cereno": Embora seja ficção, "Benito Cereno" foi baseado em um incidente real detalhado em "A Narrative of Voyages and Travels, in the Northern and Southern Hemispheres" (1817) de Amasa Delano. Melville tomou liberdades artísticas, mas a estrutura básica do motim de escravos foi inspirada em eventos verídicos.
  • Alegoria da sociedade americana: Muitos críticos interpretam "Bartleby, o Escrivão" como uma crítica à indiferença da sociedade industrializada e capitalista de Wall Street, onde a humanidade de um indivíduo pode ser facilmente descartada quando ele deixa de ser produtivo.
  • Isolamento geográfico e existencial: As Ilhas Galápagos em "As Encantadas" foram usadas por Melville para explorar temas de isolamento e desolação existencial, refletindo talvez o próprio sentimento de isolamento do autor após o fracasso de "Moby Dick".
  • Contexto da escravidão: "Benito Cereno" é uma das obras mais complexas de Melville sobre a escravidão, não apenas mostrando a brutalidade do sistema, mas também explorando as tensões raciais e a percepção distorcida que a instituição causava.