O Som e a Fúria - William Faulkner
Resumo "O Som e a Fúria" narra a história da família Compson, uma antiga e aristocrática família sulista que está em declínio, tanto financ...
Resumo
"O Som e a Fúria" narra a história da família Compson, uma antiga e aristocrática família sulista que está em declínio, tanto financeiro quanto moral. A trama se desenrola através de quatro seções, três delas contadas em primeira pessoa por três irmãos Compson – Benjy (mentalmente deficiente), Quentin (um intelectual sensível e obsessivo) e Jason (cínico e amargo) – e a quarta contada em terceira pessoa, focando na matriarca negra da família, Dilsey. Cada seção oferece uma perspectiva fragmentada e não linear sobre os eventos da família, especialmente em relação à irmã Caddy, cujas ações e sexualidade são um catalisador para a tragédia e o declínio. O livro explora temas como a perda da inocência, o peso do passado, a desintegração da honra sulista, a natureza do tempo e da memória, e as complexidades das relações familiares.
Seções do livro
Seção I: 7 de abril de 1928 (Benjy)
Esta seção é narrada por Benjamin "Benjy" Compson, um homem de 33 anos com deficiência mental. Sua narrativa é um fluxo de consciência não linear, que mistura memórias do presente e do passado sem transições claras, frequentemente desencadeadas por estímulos sensoriais como cheiros, sons ou a visão de um campo de golfe (que costumava ser o pomar da família). A narrativa de Benjy é sensorial e focada na figura de sua irmã Caddy, que foi a única a lhe demonstrar amor e cuidado genuínos. A perda de Caddy, que saiu de casa para se casar após engravidar de outro homem, é o evento central que fragmenta a vida da família e, consequentemente, a percepção de Benjy. Ele não entende o tempo ou a moralidade, apenas a presença ou ausência das pessoas que ama. Seu aniversário de 33 anos é celebrado com a visita ao cemitério e o cheiro de incenso, ligando-o à sua percepção de perda e ao desejo por Caddy.
| Personagem | Características |
|---|---|
| Benjy Compson (Benjamin Compson Jr.) | Inocente e com deficiência mental, a sua idade mental não corresponde à cronológica. Tem um profundo apego sensorial, especialmente com a irmã Caddy. Expressa amor e angústia de forma pura e visceral. A perda e a ausência o afetam profundamente. |
| Caddy Compson (Candace Compson) | A irmã do meio. Carismática, impulsiva, rebelde e carinhosa. A sua sexualidade e a subsequente gravidez e casamento infeliz são o gatilho para a queda moral e social da família. É a figura central da afeição de Benjy. |
| Quentin Compson | O mais velho dos irmãos. Intelectual, sensível, melancólico e obcecado pela honra e pureza da família, especialmente de Caddy. Profundamente atormentado pelo tempo e pelo conceito de pecado. |
| Jason Compson IV | O terceiro irmão. Cínico, misantropo, amargo, prático e motivado pelo dinheiro e ressentimento. Vê a família como um fardo e uma oportunidade para exploração pessoal. |
| Sra. Caroline Compson | Mãe dos irmãos Compson. Hipocondríaca, auto-piedosa, mimada e controladora. Constantemente queixa-se de sua má sorte e da incapacidade de seu marido. |
| Sr. Jason Compson III | Pai dos irmãos Compson. Cínico, intelectual, niilista e alcoólatra. Um advogado que oferece conselhos filosóficos desiludidos aos filhos, especialmente a Quentin. |
| Dilsey Gibson | Matriarca da família de empregados negros dos Compson. Forte, paciente, devota, compassiva e dotada de uma fé inabalável. Representa a resistência e a moralidade em meio ao caos da família Compson. |
| Versh | Um dos primeiros empregados negros, cuidador de Benjy na infância. |
| Caddy Compson (Candace Compson) | Irmã dos narradores, e filha do Sr. e Sra. Compson. É descrita como sendo sensual, impulsiva e emocionalmente aberta. O seu comportamento sexual e o seu subsequente casamento infeliz e gravidez ilegítima tornam-se o foco das obsessões dos irmãos. A sua partida e a sua queda social são os catalisadores para o colapso da família. |
| Quentin Compson | O irmão mais velho. Um jovem intelectual e sensível, obcecado pela honra, pela pureza da sua irmã Caddy, e pelo conceito de tempo e pecado. A sua mente é um turbilhão de filosofia, moralidade e angústia existencial, que o leva à depressão e, em última instância, ao suicídio. |
| Caddy Compson | A irmã do meio. |
| Caddy Compson | A irmã do meio. |
| Caddy Compson | Irmã do meio. |
| Quentin Compson | Primogênito e irmão mais velho. Intenso, intelectual, romântico e profundamente perturbado pela sexualidade de Caddy e a "desonra" da família. Sofre de uma obsessão paralisante com o tempo e a morte, culminando em seu suicídio. |
| Jason Compson IV | O terceiro filho. Amargo, cínico, ganancioso e ressentido. Vê o mundo através de uma lente puramente materialista e usa o colapso da família para seu próprio benefício. O seu ódio e crueldade são as forças motrizes da seção dele. |
| Sra. Caroline Compson | Mãe. Uma hipocondríaca auto-piedosa, que vive em auto-comiseração e culpa os outros pelos seus infortúnios. Tem uma preferência evidente por Jason. |
| Sr. Jason Compson III | Pai. Um alcoólatra cínico e niilista, que oferece a Quentin conselhos filosóficos desiludidos sobre a natureza do tempo e do sofrimento, contribuindo para o seu desespero. |
| Dilsey Gibson | Cozinheira e empregada doméstica. Forte, paciente, trabalhadora, espiritual e o pilar moral da casa Compson. É a única que mantém a família unida em meio à desintegração. |
| Candace "Miss Quentin" Compson | Filha ilegítima de Caddy. Uma adolescente rebelde, promíscua e irresponsável. É mantida na casa Compson sob a tutela relutante de Jason, que desvia o dinheiro que Caddy lhe envia para a sua educação. |
| Dalton Ames | Um dos amantes de Caddy. Quentin o confronta por desonrar Caddy, mas não consegue protegê-la. |
| Herbert Head | O primeiro marido de Caddy. Um banqueiro que se casa com ela sabendo de sua gravidez e depois a expulsa. |
| Gerald Bland | Um colega de quarto de Quentin em Harvard. Rico, atlético, sem profundidade intelectual ou moral. Quentin briga com ele em um acesso de raiva e desespero. |
| Shreve MacKenzie | Colega de quarto canadense de Quentin em Harvard. Observador, prático e bem-humorado. Tenta compreender a angústia de Quentin, mas não consegue penetrar sua escuridão. |
| Spoade | Um aluno mais velho de Harvard que tem um relógio de bolso antigo, objeto que Quentin observa com interesse. |
Seção III: 6 de abril de 1928 (Jason)
Esta seção é narrada por Jason Compson, o terceiro filho. Ele é um personagem amargo, cínico, ganancioso e desprovido de empatia, que odeia quase todos à sua volta, especialmente Caddy e sua filha, a quem ele chama "Miss Quentin". Jason vive atormentado pela sensação de ter sido roubado de sua herança e da posição na vida que ele acredita merecer. Ele planejou trabalhar em um banco, mas perdeu a vaga por causa do casamento de Caddy. Agora ele é gerente em uma loja de artigos agrícolas e secretamente desvia o dinheiro que Caddy envia para sua filha, Miss Quentin. Ele manipula sua mãe hipocondríaca e mantém Miss Quentin em cheque, explorando sua rebeldia. A sua narrativa é marcada por sarcasmo, monólogos internos de ódio e ressentimento, e a sua busca implacável por auto-satisfação financeira, mesmo que à custa da família. Esta seção, embora linear, é claustrofóbica devido à sua perspetiva estreita e mesquinha. Os eventos culminam com Miss Quentin fugindo com o dinheiro que Jason roubou dela.
Seção IV: 8 de abril de 1928 (Dilsey)
Esta seção, a única narrada em terceira pessoa, foca em Dilsey Gibson, a matriarca negra da família de empregados. É o domingo de Páscoa. Dilsey é a força moral e espiritual da casa Compson, contrastando fortemente com a desintegração e o desespero dos Compson. Ela cuida de Benjy com um amor inabalável e tenta manter a ordem na casa, apesar da disfuncionalidade crescente. Esta seção descreve o dia de Páscoa, com Dilsey e seus filhos (Frony e T.P.) levando Benjy à igreja de negros. O sermão do Reverendo Shegog, que prega sobre a ressurreição e o sofrimento, toca profundamente Dilsey e a plateia, mas Benjy é incapaz de compreendê-lo. No final do dia, depois que Jason descobre que Miss Quentin fugiu com seu amante e roubou o dinheiro que ele estava a desviar, o caos e a violência eclodem na casa. Dilsey testemunha a desintegração final dos Compson, mas permanece firme em sua fé e dignidade. A cena final mostra Benjy em sua rotina, momentaneamente pacificado pela ordem, mas que é abruptamente quebrada, revelando o caos latente.
Gênero literário
- Ficção Moderna
- Romance Psicológico
- Ficção Sulista Gótica
- Ficção Experimental / Fluxo de Consciência
Dados do autor
William Cuthbert Faulkner (1897–1962) foi um romancista e contista americano do Mississippi, amplamente considerado um dos maiores escritores da literatura americana. Conhecido por suas obras que se passam no sul dos Estados Unidos, especialmente no condado fictício de Yoknapatawpha, ele explorou temas como o declínio da aristocracia sulista, a decadência moral, o racismo e a persistência do passado. Faulkner era um mestre da prosa experimental, empregando técnicas como o fluxo de consciência, múltiplas perspetivas, narrativas não lineares e uma linguagem complexa e rica. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1949 por sua "poderosa e artisticamente única contribuição para o romance americano moderno". Algumas de suas outras obras notáveis incluem "Enquanto Morro", "Luz de Agosto" e "Absalão, Absalão!".
Moraleja e Curiosidades do livro
Moraleja (Temas):
- A Queda da Aristocracia Sulista: O livro é uma exploração profunda do declínio de uma família outrora proeminente do Sul dos Estados Unidos, simbolizando a perda de valores, honra e status social após a Guerra Civil Americana e a Reconstrução.
- O Peso do Passado: Cada personagem está aprisionado por suas memórias e pela história da família, incapaz de escapar das consequências dos eventos passados, especialmente a figura de Caddy.
- Tempo e Memória: Faulkner desafia a linearidade do tempo, mostrando como o passado e o presente se entrelaçam na mente dos personagens, especialmente Benjy e Quentin. A memória é seletiva, dolorosa e muitas vezes distorcida.
- A Perda da Inocência e a Sexualidade Feminina: Caddy é o catalisador da trama, e sua sexualidade e a subsequente "desonra" são percebidas como a causa da ruína familiar pelos irmãos. O livro explora como a sociedade (e, neste caso, a família) lida com a autonomia feminina e suas consequências.
- Amor e Compaixão vs. Ódio e Cinismo: A figura de Dilsey se destaca como um farol de amor incondicional, fé e resiliência, contrastando fortemente com o ódio, a amargura e a autodestruição dos Compson.
Curiosidades:
- Título: O título "O Som e a Fúria" é uma alusão a um famoso solilóquio de Macbeth, de Shakespeare: "É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, não significando nada" ("It is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing"). Esta citação reflete a narrativa de Benjy e o tema geral da futilidade e do desespero na vida dos Compson.
- Estrutura Narrativa: É uma das obras mais complexas da literatura moderna, notória por sua estrutura fragmentada e o uso intenso do fluxo de consciência. Faulkner intencionalmente tornou as primeiras seções desafiadoras para imergir o leitor na experiência mental dos personagens. Muitos leitores consideram a seção de Benjy a mais difícil de decifrar.
- Faulkner e sua "Mais Querida": Faulkner considerava Caddy Compson a personagem mais querida que ele havia criado. Ele expressou que sentia pena dela e que ela era "muito corajosa para o meio em que se encontrava".
- Cronologia: Faulkner, ciente da dificuldade de sua narrativa, chegou a criar um apêndice cronológico para o livro anos depois, a pedido de um editor, que ajuda a organizar os eventos da família Compson de forma linear. Este apêndice é frequentemente incluído em edições posteriores do romance.
- Impacto e Reconhecimento: Embora inicialmente não tenha sido um sucesso de vendas, o livro ganhou reconhecimento crítico ao longo do tempo, tornando-se uma peça fundamental da literatura modernista e do cânone literário americano. É frequentemente estudado por sua inovação estilística e profundidade psicológica.
