Almas Mortas - Nikolai Gogol
Resumo Pavel Ivanovich Chichikov, um funcionário público enigmático, chega à cidade provincial de N. com um plano audacioso para enriquecer....
Resumo
Pavel Ivanovich Chichikov, um funcionário público enigmático, chega à cidade provincial de N. com um plano audacioso para enriquecer. Seu objetivo é comprar "almas mortas" – servos que faleceram desde o último censo, mas que ainda estão legalmente registrados como vivos, e pelos quais os proprietários de terras continuam a pagar impostos. Chichikov pretende usar esses "documentos" para solicitar um empréstimo substancial e, assim, ascender socialmente como um suposto proprietário de vastas terras. Ele visita uma série de proprietários de terras rurais — o sentimental e fútil Manilov, a teimosa e mesquinha Korobochka, o fanfarrão e mentiroso Nozdryov, o rude e prático Sobakevich, e o miserável e decadente Plyushkin — cada um deles uma caricatura dos vícios e excentricidades da sociedade russa feudal. Embora Chichikov consiga acumular um grande número de "almas mortas", a estranheza de suas transações e os rumores espalhados por Nozdryov e Korobochka levam a uma onda de pânico e especulação entre os funcionários da cidade. Acusado de ser um espião, um sequestrador, ou até mesmo o Capitão Kopeikin disfarçado, Chichikov é forçado a fugir, deixando para trás um rastro de confusão e suspeita. A obra é uma sátira mordaz da burocracia, da corrupção e da futilidade da vida provincial russa, explorando a ideia de "almas mortas" não apenas nos camponeses falecidos, mas também nos personagens vivos da sociedade.
Seções do livro
Seção 1: A Chegada de Chichikov
Pavel Ivanovich Chichikov chega à cidade provincial de N. em sua britchka (uma carruagem), acompanhado por seu cocheiro Selifan e seu servo Petrushka. Ele se hospeda em uma pousada e, metodicamente, começa a fazer visitas sociais. Chichikov apresenta-se como um homem educado e de boas maneiras, rapidamente ganhando a simpatia dos principais oficiais da cidade, incluindo o governador, o chefe de polícia e o presidente da câmara. Ele demonstra grande habilidade em bajular e se adaptar a cada um, coletando informações sobre os costumes locais e, mais importante, sobre os proprietários de terras e suas propriedades. Seu comportamento calculista esconde um propósito misterioso, que ele mantém em segredo enquanto se insinua na sociedade local.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Pavel Ivanovich Chichikov | Protagonista, ex-funcionário público de meia-idade, com figura agradável, nem gordo nem magro. Viaja em uma carruagem com dois servos. | Cortês, astuto, calculista, observador, ambicioso, mestre da bajulação e da manipulação. Sua verdadeira natureza e passado são um mistério inicial. |
| Selifan | Cocheiro de Chichikov, robusto e com uma barba espessa. | Simples, leal, um pouco desajeitado e propenso a beber demais, mas dedicado ao seu mestre. |
| Petrushka | Servo de Chichikov, um jovem de corpo esguio e rosto sombrio. | Silencioso, discreto, um pouco sombrio, tem um cheiro peculiar e gosta de ler livros sem entender seu conteúdo. |
| Governador | Principal oficial da cidade, hospitaleiro. | Amigável, acolhedor, representativo da burocracia local, mas superficial. |
| Presidente da Câmara | Outro oficial influente da cidade. | Similar ao governador, faz parte da elite local e é um homem de família. |
| Chefe da Polícia | Oficial da ordem pública, sociável. | Sociável, faz parte do círculo social de Chichikov, apreciador de festividades. |
Seção 2: A Visita a Manilov
Chichikov faz sua primeira visita a um proprietário de terras, Manilov, cujo nome se tornou sinônimo de sentimentalismo vazio e ineficácia. Manilov é um homem belo e educado, mas vive em um estado de devaneio e romantismo improdutivo com sua esposa, que é igualmente fútil. Sua propriedade está em má gestão, e suas ideias são grandiosas, mas nunca realizadas. Chichikov, com sua habitual perspicácia, apresenta sua proposta: comprar as "almas mortas" (servos que morreram, mas ainda estão registrados). Manilov fica inicialmente confuso com a estranheza da oferta, mas em sua ingenuidade e desejo de agradar, ele concorda em transferir os nomes gratuitamente, vendo isso como um ato de generosidade e amizade.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Manilov | Proprietário de terras, de meia-idade, belo, educado, com um sorriso encantador, mas excessivamente sentimental e sonhador. | Idealista, fútil, ineficaz, sonhador, ingênuo, incapaz de administrar sua propriedade. Representa a sentimentalidade vazia e a falta de propósito. |
| Esposa de Manilov | Jovem e bela, compartilha as inclinações sentimentais do marido. | Fútil, dedicada à vida doméstica e ao romance com o marido, sem profundidade ou praticidade. |
Seção 3: A Visita a Korobochka
A próxima parada de Chichikov é na propriedade de Nastasya Petrovna Korobochka, uma viúva proprietária de terras. Ela é o oposto de Manilov: extremamente cautelosa, mesquinha e teimosa, com uma mente estreita e focada apenas no lucro material. Sua casa é um emaranhado de velharias e sua propriedade, embora bem administrada, reflete sua aversão a qualquer forma de mudança ou risco. Chichikov tem que empregar toda sua paciência e persuasão para convencê-la a vender as "almas mortas". Korobochka teme estar vendendo por um preço muito baixo e pergunta repetidamente se há outros compradores, preocupada em perder um lucro potencial, mesmo que o item de venda não tenha valor aparente.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Nastasya Petrovna Korobochka | Proprietária de terras idosa, viúva, com uma mente estreita e obstinada. | Teimosa, desconfiada, mesquinha, preocupada com pequenos detalhes e o valor material de tudo. Representa a mesquinhez e a estupidez provinciana. |
Seção 4: A Visita a Nozdryov
Chichikov, por engano, acaba encontrando Nozdryov em uma feira, um proprietário de terras jovem e robusto, conhecido por ser um fanfarrão, mentiroso compulsivo, jogador inveterado e causador de problemas. Nozdryov tenta forçar Chichikov a comprar itens inúteis, desde cavalos até um órgão de barril. Quando Chichikov finalmente revela sua proposta de comprar as "almas mortas", Nozdryov inicialmente acha divertido, mas depois fica irritado quando Chichikov se recusa a participar de suas apostas e beber. Ele tenta forçar Chichikov a jogar pelas almas e, em um acesso de raiva e bebedeira, quase o agride. Chichikov é forçado a fugir apressadamente para evitar um confronto físico.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Nozdryov | Proprietário de terras, jovem, robusto, com um bigode preto e face de saúde exuberante. | Fanfarrão, mentiroso compulsivo, irresponsável, impulsivo, enérgico, arruaceiro, jogador inveterado e beberrão. Ele é uma força de caos e destruição. |
Seção 5: A Visita a Sobakevich
A próxima parada é a propriedade de Mikhailo Semyonovich Sobakevich, um proprietário de terras corpulento e rude que se assemelha a um urso. Sobakevich é cínico, realista e prático. Ele não tem ilusões sobre a sociedade e critica abertamente todos os oficiais e proprietários de terras da cidade. Chichikov negocia as "almas mortas" com ele. Para a surpresa de Chichikov, Sobakevich imediatamente entende a lógica financeira da transação e não só concorda em vender, mas também regateia o preço, insistindo que seus servos mortos eram de "melhor qualidade" do que a maioria dos vivos, vendendo-os por um preço considerável.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Mikhailo Semyonovich Sobakevich | Proprietário de terras, corpulento, pesado, lembra um urso, com feições grosseiras e semblante sério. | Rude, cínico, realista, prático, materialista, honesto em sua rudeza e desconfiança. Ele é um crítico social implacável e valoriza a substância sobre a aparência. |
Seção 6: A Visita a Plyushkin
Chichikov chega à propriedade de Stepan Plyushkin, que representa o auge da avareza e decadência. Plyushkin é um homem tão miserável e negligente que é inicialmente confundido com uma velha camponesa. Sua propriedade está em ruínas, e ele acumula pilhas de lixo, enquanto suas riquezas reais se deterioram. Seus servos morreram ou fugiram, e sua família se desintegrou. Chichikov fica chocado com o estado de degradação, mas vê uma oportunidade. Ele consegue as "almas mortas" de Plyushkin por um valor quase irrisório, pois Plyushkin se alegra em se livrar de um "encargo" e ainda conseguir um mísero rublo. Plyushkin é o único proprietário que tem tanto "almas mortas" quanto "almas fugidas" (também consideradas mortas para efeitos do censo).
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Stepan Plyushkin | Proprietário de terras idoso, extremamente avarento e negligente, com roupas esfarrapadas e aparência de mendigo. | Miserável, recluso, obcecado em acumular e guardar lixo, completamente desprovido de qualquer laço social ou humano. Ele é a encarnação da decadência, da avareza e da desintegração humana. |
Seção 7: O Retorno à Cidade e o Baile
Chichikov retorna à cidade de N., satisfeito com suas aquisições. Ele se apressa em formalizar a compra das "almas mortas" no cartório, o que levanta algumas perguntas por parte dos funcionários, mas é finalmente concluído. A notícia de suas vastas "propriedades" se espalha pela cidade, e Chichikov é agora visto como um homem rico e influente. Ele é o centro das atenções em um baile, onde as senhoras da sociedade competem por sua atenção. No entanto, sua boa sorte é interrompida pelo reaparecimento inesperado de Nozdryov, que, bêbado e imprudente, começa a espalhar publicamente rumores sobre as "almas mortas" e a conduta de Chichikov, denunciando-o como um golpista.
Seção 8: O Início dos Rumores
Os comentários imprudentes de Nozdryov sobre as "almas mortas" e a compra de Chichikov começam a circular e se misturar com a fofoca da cidade. As senhoras, antes fascinadas por Chichikov, começam a questionar sua identidade e intenções. Para piorar a situação, a teimosa Korobochka, preocupada por ter vendido as almas a Chichikov por um preço muito baixo, chega à cidade para tentar descobrir o preço real das "almas mortas". Sua chegada, embora inocente, inadvertidamente confirma a estranha natureza das transações de Chichikov, alimentando ainda mais os rumores. As especulações se tornam cada vez mais fantásticas: Chichikov é um sequestrador, um espião, um falsário, o Capitão Kopeikin disfarçado, ou até mesmo o Anticristo.
Seção 9: O Pânico dos Oficiais
Os oficiais da cidade, que haviam acolhido Chichikov, entram em pânico ao confrontar a possibilidade de terem sido enganados ou de terem sido cúmplices de um crime. Eles se reúnem para investigar Chichikov, mas em sua ineficácia, ignorância e confusão, não conseguem chegar a uma conclusão lógica. Em vez disso, se perdem em teorias mirabolantes. Um deles conta a história do "Capitão Kopeikin" – um veterano de guerra aleijado que, não recebendo ajuda do governo, se torna um bandido. Essa história, embora sem ligação direta com Chichikov, serve para ilustrar a desilusão com o sistema e a possibilidade de um homem respeitável se tornar um criminoso, levando os oficiais a se perguntarem se Chichikov poderia ser Kopeikin.
Seção 10: A Reação da Cidade e a Doença de Chichikov
A cidade está em alvoroço total com as teorias sobre Chichikov. Ele é ostracizado e evitado, sua reputação completamente arruinada. Chichikov, sem saber dos detalhes específicos dos rumores, percebe a mudança no comportamento das pessoas. Ele tenta visitar os oficiais, mas é recebido com hostilidade, evasão ou desculpas esfarrapadas. O estresse e a confusão o deixam doente. Ele fica confinado em seu quarto, enquanto Selifan e Petrushka observam a situação perplexos. Ele reflete sobre o absurdo da situação e a mudança súbita de sua sorte.
Seção 11: A Revelação e a Fuga
Este capítulo final do livro revela o passado de Chichikov, que até então havia sido mantido em mistério. Descobre-se que ele vem de uma família pobre e, desde jovem, demonstrou uma astúcia inata e uma habilidade para a manipulação e a corrupção para ascender social e financeiramente. Sua carreira foi marcada por uma série de esquemas fraudulentos, envolvendo alfândegas e comissões governamentais, que sempre terminavam em desgraça e fuga, mas ele sempre conseguia acumular uma pequena fortuna. O plano das "almas mortas" era sua mais recente e ambiciosa empreitada para se estabelecer como um "respeitável" proprietário de terras e, talvez, se casar com uma herdeira. Ele planejava hipotecar as "almas mortas" a um banco, obtendo um empréstimo substancial e usufruindo da reputação de ser um grande proprietário. Percebendo que a situação na cidade é insustentável e sua reputação irremediavelmente arruinada, Chichikov se recupera rapidamente de sua doença e, sem mais delongas, prepara sua partida da cidade, deixando para trás o caos e a confusão que ele mesmo causou. O livro termina com ele fugindo novamente, seu futuro incerto, à procura de uma nova oportunidade para continuar seus esquemas.
Gênero literário
Romance picaresco, sátira social, realismo (com elementos do grotesco e do fantástico), épico em prosa.
Dados do autor
Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852) foi um proeminente escritor russo de origem ucraniana. Considerado um dos maiores mestres da literatura russa, Gogol é conhecido por suas histórias curtas, peças de teatro e romances, que frequentemente misturam realismo com o grotesco e o fantástico. Seu estilo é caracterizado por um humor mordaz, sátira social, descrições vívidas e uma profunda exploração da psicologia humana e da alma russa. Além de "Almas Mortas", suas obras mais famosas incluem "O Capote", "O Nariz", "O Inspetor Geral" e "Viy". Gogol teve uma vida complexa, marcada por crises religiosas e espirituais, que o levaram a destruir a segunda parte de "Almas Mortas" pouco antes de sua morte.
Moral da história
"Almas Mortas" é uma crítica severa à corrupção, à hipocrisia e à ineficácia da burocracia russa do século XIX, bem como aos vícios da classe proprietária de terras. A moral reside na exposição da vacuidade e da falsidade social, onde a aparência de respeitabilidade pode esconder a mais profunda depravação e ganância. A história sugere que a "alma morta" não está apenas nos camponeses falecidos que Chichikov compra, mas também, e principalmente, nos proprietários de terras e nos funcionários públicos vivos, cujas vidas são vazias de propósito, moralidade e humanidade genuína. A obra reflete sobre a ideia de que a Rússia estava repleta de "almas mortas" vivas, que impediam o progresso e a verdadeira vitalidade da nação. É um retrato sombrio de uma sociedade estagnada e moralmente falida.
Curiosidades
- Título Incompleto: O título original do livro era "As Aventuras de Chichikov, ou Almas Mortas". A censura russa, para evitar a ideia teologicamente problemática de "almas mortas", forçou a inversão, mas o subtítulo "Almas Mortas" tornou-se o nome pelo qual a obra é amplamente conhecida.
- Trilogia Nunca Concluída: "Almas Mortas" foi concebido por Gogol como uma trilogia, nos moldes da "Divina Comédia" de Dante Alighieri. A primeira parte, a que lemos hoje, representaria o "Inferno" da Rússia. Gogol trabalhou na segunda parte por muitos anos, mas insatisfeito e atormentado por questões religiosas, a queimou em 1852, pouco antes de sua morte. Fragmentos da segunda parte foram resgatados postumamente, mas a terceira parte nunca foi escrita.
- Inspiração de Pushkin: A ideia central de comprar "almas mortas" foi supostamente sugerida a Gogol por seu amigo e colega escritor Alexander Pushkin, que havia ouvido falar de um golpe semelhante. Pushkin também é creditado por ter dado a Gogol a ideia para a peça "O Inspetor Geral".
- Reação Controversa: Quando publicado em 1842, o livro causou um enorme escândalo na Rússia. Enquanto alguns críticos o aclamaram como uma obra-prima de sátira social, outros o condenaram como uma representação grotesca e desrespeitosa da nação russa, incapaz de ver a crítica construtiva por trás da sátira.
- Crítica à Servidão: A obra é uma crítica velada, mas poderosa, ao sistema de servidão na Rússia. Ao desumanizar os servos (mesmo os mortos, que são tratados como meros bens para transação), Gogol expõe a barbárie e a arbitrariedade do sistema.
- Influência Duradoura: "Almas Mortas" é considerada uma das obras fundadoras da literatura russa moderna e influenciou profundamente muitos escritores posteriores, incluindo Fiódor Dostoiévski e Leon Tolstói, estabelecendo as bases para o realismo crítico na Rússia.
