Boule de Suif - Guy de Maupassant

Resumo

"Boule de Suif" é uma novela de Guy de Maupassant que se passa durante a Guerra Franco-Prussiana em 1870. Um grupo de dez passageiros de diferentes classes sociais, fugindo da invasão prussiana em Rouen, compartilha uma diligência em direção a Dieppe. Entre eles estão três casais burgueses, duas freiras, um democrata e Élisabeth Rousset, uma prostituta conhecida como "Boule de Suif" (Bola de Sebo) devido à sua compleição. Inicialmente, há um claro desprezo pela prostituta por parte dos passageiros "respeitáveis". No entanto, quando todos ficam famintos e Boule de Suif compartilha generosamente sua provisão de comida, a atitude deles muda temporariamente para aceitação. A jornada é interrompida em Tôtes, onde um oficial prussiano se recusa a permitir que a diligência prossiga a menos que Boule de Suif ceda aos seus avanços sexuais. Os demais passageiros, desesperados para continuar a viagem, conspiram e manipulam Boule de Suif, explorando seu patriotismo e seu status social para convencê-la a sacrificar-se por eles. Após ela ceder, o oficial permite a partida. No dia seguinte, a atitude dos passageiros "respeitáveis" volta ao desprezo e ingratidão, deixando Boule de Suif isolada e chorando, enquanto eles desfrutam de seus próprios alimentos sem lhe oferecer nada. A novela é uma crítica mordaz à hipocrisia e à moralidade da burguesia francesa da época.

Seções do livro

Seção 1: A Fuga de Rouen e os Viajantes

A história começa em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana. A cidade de Rouen, na França, é ocupada pelas tropas prussianas. A população está aterrorizada, e muitos civis, especialmente os burgueses, buscam fugir da cidade. Uma diligência é organizada para levar dez passageiros para Dieppe. A partida é dificultada pela neve e pelas exigências dos prussianos.

Os dez passageiros representam diferentes estratos da sociedade francesa:

  • Três casais burgueses, que compõem a "sociedade decente": os Loiseau (mercadores de vinho, espertos e sem escrúpulos), os Carré-Lamadon (fabricantes de algodão ricos e respeitáveis) e os condes de Bréville (nobres e pilares da ordem).
  • Duas freiras da Ordem de São Vicente de Paula.
  • Um democrata radical, Cornudet, conhecido por suas ideias republicanas e anticlericais.
  • E, por último, Élisabeth Rousset, uma prostituta famosa em Rouen, apelidada de "Boule de Suif" (Bola de Sebo) por sua compleição redonda.

Desde o início, Boule de Suif é o alvo do desprezo e dos olhares de desaprovação dos outros passageiros. Os "respeitáveis" a evitam, cochicham sobre ela e mantêm uma distância ostensiva, ressaltando a rígida moralidade de sua classe social em contraste com a dela.

Personagem Características Personalidade
Boule de Suif Nome real: Élisabeth Rousset. Prostituta de Rouen, de compleição redonda e robusta. Genuína, generosa, direta, patriota. Apesar de sua profissão, demonstra mais integridade e bondade do que os "respeitáveis". É sensível e orgulhosa.
Monsieur Loiseau Mercador de vinhos de Rouen. Um homem de negócios astuto e desonesto. Cínico, interesseiro, devasso, oportunista. Sempre atento aos seus próprios ganhos.
Madame Loiseau Esposa de Monsieur Loiseau. Pequeno-burguesa, vulgar, fofoqueira, invejosa, hipócrita. Preocupa-se obsessivamente com a aparência social.
Monsieur Carré-Lamadon Rico fabricante de algodão, membro do conselho geral. Sólido, respeitável, hipócrita. Busca manter as aparências de sua posição social.
Madame Carré-Lamadon Esposa de Monsieur Carré-Lamadon. Elegante, recatada, mas igualmente hipócrita. Mantém uma distância artificial dos "inferiores".
Conde Hubert de Bréville Nobre, figura de destaque na sociedade. Aristocrata, conservador, defensor da ordem social estabelecida.
Condessa Hubert de Bréville Esposa do Conde, de maneiras refinadas. Sofisticada, controlada, elitista. Sua moralidade é superficial e conveniente.
Cornudet Democrata e republicano radical. Anti-clerical, ruidoso em suas convicções políticas, mas no fundo covarde e interesseiro. Representa a "esquerda" hipócrita.
Duas Freiras Irmãs da Ordem de São Vicente de Paula. Pias, humildes na aparência, mas também suscetíveis à influência social e à hipocrisia de grupo.

Seção 2: A Fome e a Generosidade Inesperada

A viagem na diligência é lenta e exaustiva devido ao mau tempo e às paradas forçadas. À medida que o dia avança, todos os passageiros começam a sentir uma fome terrível, mas, em sua pressa de fugir, ninguém pensou em levar provisões, exceto Boule de Suif. Ela, previdente, trouxe uma cesta cheia de comida: frango assado, pães, frutas, queijo e garrafas de vinho.

Inicialmente, os passageiros "respeitáveis" tentam ignorar a fome e a cesta de Boule de Suif. No entanto, o cheiro da comida se torna insuportável e o estômago de todos ronca. A tensão cresce. Finalmente, Boule de Suif, movida pela sua generosidade e sentindo o desconforto geral, oferece sua comida a todos. Após alguma hesitação e demonstração de falsa modéstia, os outros passageiros aceitam avidamente.

Durante o ato de compartilhar a refeição, a barreira social entre Boule de Suif e os outros diminui temporariamente. A conversa flui mais livremente, e a prostituta é vista sob uma luz mais humana. Ela mostra-se patriota, lamentando a invasão prussiana e defendendo a França, o que impressiona os demais. Por um breve período, ela é aceita, ou pelo menos tolerada, por sua utilidade e bondade.

Seção 3: A Parada Forçada em Tôtes

A diligência chega à cidade de Tôtes, onde os viajantes pretendem pernoitar. Contudo, são imediatamente confrontados pela presença de tropas prussianas. Um oficial prussiano, um homem alto e arrogante, exerce controle sobre o local. Ele ordena que a diligência não pode prosseguir. Os passageiros são forçados a ficar hospedados em uma estalagem.

Após o jantar, o oficial prussiano manda chamar Boule de Suif. Ela se recusa a ir. O oficial insiste e a manda buscar várias vezes. É então que a verdadeira exigência do oficial é revelada: ele não permitirá que a diligência siga viagem a menos que Boule de Suif ceda aos seus avanços sexuais e passe a noite com ele.

Boule de Suif, indignada, recusa categoricamente. Ela se considera uma patriota e jamais se submeteria a um inimigo. Ela retorna aos outros passageiros, chocada e revoltada, contando a eles a exigência. O grupo fica apreensivo, pois a recusa de Boule de Suif significa que todos estão retidos, e o atraso representa perigo e inconveniência.

Seção 4: A Conspiração e a Pressão

A notícia da exigência do oficial prussiano e da recusa de Boule de Suif causa grande consternação entre os passageiros. Inicialmente, há uma tentativa de indignação moralista, especialmente por parte das mulheres burguesas. Mas rapidamente, o egoísmo e o desejo de continuar a viagem prevalecem sobre qualquer princípio. Eles estão desesperados para partir.

Começa uma insidiosa campanha de pressão sobre Boule de Suif. Primeiro, eles tentam persuadi-la indiretamente, argumentando sobre a importância de "sacrificar-se pelo bem comum", de "cumprir um dever". Os homens, especialmente Monsieur Loiseau, Carré-Lamadon e o Conde, usam sua influência e argumentos "lógicos", apontando para a urgência da situação e o prejuízo que a todos os atingiria.

As mulheres, especialmente Madame Loiseau e Madame Carré-Lamadon, juntamente com as freiras, empregam táticas mais manipuladoras e religiosas. As freiras sugerem que um "pequeno pecado" pode ser perdoado quando o objetivo é "um bem maior", enquanto as burguesas argumentam que sua profissão a torna "qualificada" para tal sacrifício, insinuando que para ela não seria uma grande diferença. Eles exploram seu patriotismo, sua religiosidade e seu status social inferior para fazê-la sentir-se culpada e egoísta por sua recusa. Até Cornudet, que inicialmente defendeu sua liberdade, acaba cedendo à pressão do grupo e passa a vê-la como um obstáculo. Boule de Suif, exausta e isolada diante da pressão unânime do grupo, começa a vacilar.

Seção 5: O Sacrifício e a Continuação da Viagem

Após três dias de confinamento e de intensa pressão psicológica por parte dos seus companheiros de viagem, Boule de Suif finalmente cede. Exausta, humilhada e sentindo-se a única responsável pelo atraso de todos, ela concorda em passar a noite com o oficial prussiano. Ela o faz com um sentimento de profunda vergonha e sacrifício.

Na manhã seguinte, a atmosfera na estalagem é estranha. O oficial prussiano está de bom humor e permite que a diligência prossiga. Os passageiros, aliviados, preparam-se para a partida. A diligência retoma seu caminho.

No entanto, a atitude dos passageiros "respeitáveis" em relação a Boule de Suif muda drasticamente. Eles retomam imediatamente seu desprezo inicial, ainda mais acentuado. Agora que ela "cumpriu seu dever", eles não precisam mais dela e a veem como "suja" novamente. Ninguém a olha nos olhos, ninguém fala com ela. Eles evitam qualquer contato, temendo que a "impureza" dela possa contaminá-los.

Seção 6: O Retorno ao Desprezo

A viagem continua. Mais uma vez, os passageiros começam a sentir fome. Desta vez, todos os casais burgueses trouxeram provisões, antecipando a fome da viagem. Eles abrem suas cestas, tiram frangos, pães e vinho, e começam a comer ruidosamente, desfrutando de suas refeições.

Boule de Suif, por outro lado, está exausta, humilhada e não teve tempo nem disposição para comprar comida. Ela está novamente faminta, mas ninguém lhe oferece nada. Os passageiros fingem não vê-la, conversando entre si sobre trivialidades e fofocas, ignorando seu sofrimento.

Com o estômago vazio e o coração oprimido, Boule de Suif sente-se completamente isolada. As lágrimas começam a escorrer de seus olhos, e ela chora silenciosamente, percebendo a crueldade e a hipocrisia de seus companheiros de viagem. Ela, que foi generosa e se sacrificou por eles, é agora tratada com o mais absoluto desprezo, abandonada em sua dor e fome. A novela termina com Cornudet, o democrata, cantarolando "A Marselhesa" em um tom de triunfo sarcástico, enquanto Boule de Suif continua a chorar.


Gênero literário: Novela, Realismo, Naturalismo, Ficção.

Dados do autor:
Henri René Albert Guy de Maupassant (1850-1893) foi um renomado escritor francês, considerado um dos mestres do conto e da novela. Nascido na Normandia, foi um protegido de Gustave Flaubert, que o orientou em seus primeiros anos de escrita. Maupassant destacou-se por seu estilo claro, conciso e observador, com uma rara habilidade para capturar as nuances da vida cotidiana e a psicologia humana. Sua obra, fortemente influenciada pelo Naturalismo, frequentemente explorava a vida da burguesia, dos camponeses, a hipocrisia social, a futilidade da existência, a solidão e a sexualidade. Ele produziu cerca de 300 contos, 6 romances (incluindo "Bel Ami"), 3 livros de viagens e um volume de versos, tudo isso em uma carreira literária relativamente curta. Maupassant faleceu aos 42 anos, após anos de sofrimento físico e mental devido à sífilis.

Moral da história:
A moral principal de "Boule de Suif" reside na crítica feroz à hipocrisia da sociedade burguesa e à superficialidade de sua moralidade. A novela expõe como a "virtude" e o "respeito" são frequentemente meras convenções sociais, facilmente abandonadas em face do interesse próprio e da conveniência. Os personagens "respeitáveis" demonstram uma crueldade e egoísmo muito maiores do que a prostituta que tanto desprezam. A história mostra que a verdadeira generosidade, patriotismo e dignidade podem ser encontrados em lugares inesperados, enquanto a elite social é capaz de explorar e humilhar os vulneráveis para atingir seus próprios fins. É uma denúncia da falsidade das aparências e da desumanização inerente à rigidez das classes sociais.

Curiosidades do livro:

  • Primeiro Grande Sucesso: "Boule de Suif", publicada em 1880, foi o primeiro grande sucesso literário de Maupassant e a obra que o estabeleceu como um escritor proeminente na cena literária francesa.
  • As Noites de Médan: A novela foi incluída na coletânea "Les Soirées de Médan" (As Noites de Médan), uma antologia de seis contos naturalistas publicada em 1880, que contava com a participação de outros autores proeminentes como Émile Zola (o organizador), Joris-Karl Huysmans e Léon Hennique. Todos os contos da coletânea abordavam a Guerra Franco-Prussiana sob uma perspectiva realista e frequentemente brutal.
  • Elogio de Flaubert: Gustave Flaubert, mentor de Maupassant, elogiou "Boule de Suif" com entusiasmo, chegando a afirmar que era "uma obra-prima que ficará na literatura francesa". Este reconhecimento de um mestre do Realismo foi crucial para a reputação de Maupassant.
  • Contexto Histórico: A história é ambientada durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), um conflito que teve um profundo impacto na França e na sua literatura. Maupassant, que serviu no exército francês durante a guerra, utilizou suas experiências e observações para infundir realismo e um tom crítico em suas obras sobre o período.
  • Crítica Social Afiada: A novela é amplamente considerada uma das obras-primas do Naturalismo francês, com sua análise fria e impiedosa da natureza humana, especialmente da hipocrisia e do egoísmo da burguesia. Ela não oferece julgamentos morais explícitos, mas revela a verdade através do comportamento dos personagens.