Assim É (Se Lhe Parece) - Luigi Pirandello
Resumo A peça de Luigi Pirandello, "Così è (se vi pare)", desenrola-se numa pequena cidade de província, onde a chegada do novo secretário ...
Resumo
A peça de Luigi Pirandello, "Così è (se vi pare)", desenrola-se numa pequena cidade de província, onde a chegada do novo secretário da prefeitura, o Signor Ponza, e da sua misteriosa família, instiga a intensa curiosidade da comunidade. Os vizinhos, liderados pelo Conselheiro Agazzi, ficam intrigados com o comportamento peculiar do Signor Ponza e da sua sogra, Signora Frola. Signora Frola afirma que a sua filha (esposa de Ponza) está gravemente doente e que Ponza, embora a ame, a mantém isolada e impede-a de ver a própria mãe. Contudo, Signor Ponza apresenta uma versão drasticamente diferente: a sua primeira esposa faleceu, e Signora Frola, incapaz de aceitar a perda, enlouqueceu. Ele mantém a sua segunda esposa isolada para protegê-la da loucura da sogra, que acredita ser a sua filha falecida. A cidade fica dividida entre as duas versões, ambas convincentes mas contraditórias. A incansável busca pela "verdade" culmina com a aparição da própria Signora Ponza, velada, que declara a frase emblemática: "Eu sou aquela que as pessoas querem que eu seja". Ela recusa-se a revelar a sua identidade "verdadeira", deixando a comunidade sem uma resposta definitiva e sublinhando a natureza subjetiva e relativa da verdade.
Seções do livro
Seção I
A peça começa na casa do Conselheiro Agazzi, onde a comunidade está em polvorosa com a chegada dos novos moradores: o Signor Ponza, secretário do prefeito, e sua sogra, Signora Frola. Observa-se que eles vivem em apartamentos separados, e Ponza raramente permite que sua esposa (filha de Frola) tenha contato com a mãe ou com o mundo exterior. Frola é vista frequentemente angustiada em público, enquanto Ponza exibe um comportamento estranho, isolando sua esposa. A intensa curiosidade leva os moradores, incluindo a irmã de Agazzi, Dina, a tentar desvendar o mistério.
Signora Frola, angustiada, visita a casa dos Agazzi e compartilha sua versão da história. Ela explica que sua filha, esposa de Ponza, está muito doente e que Ponza, embora a ame, é excessivamente protetor, mantendo-a isolada e limitando seu contato até mesmo com a própria mãe. Frola narra a complexa rotina de visitas e comunicação à distância que Ponza impôs, afirmando que ele a mudou para o andar térreo e a filha para o quarto andar para evitar o contágio de uma doença. A comunidade, emocionada com o relato, simpatiza com Frola e começa a ver Ponza como um tirano.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Conselheiro Agazzi | Anfitrião, funcionário público respeitável. | Curioso, metódico, representa a mentalidade da pequena burguesia que busca a verdade e a ordem a todo custo. |
| Amália Agazzi | Esposa do Conselheiro Agazzi. | Curiosa, prática, tenta mediar as situações sociais, mas é igualmente levada pela fofoca. |
| Dina Agazzi | Filha do Conselheiro Agazzi. | Jovem, impaciente, representa a curiosidade sem filtros e a ingenuidade na busca pela verdade. |
| Signor Laudisi | Cunhado do Conselheiro Agazzi, observador. | Filosófico, cético, relativista, atua como o alter ego de Pirandello, questionando a ideia de uma verdade única e objetiva. |
| Signora Frola | Mãe da suposta esposa de Ponza. | Frágil, aflita, maternal, convincente em sua narrativa de luto e separação forçada. Parece uma vítima. |
| Signor Ponza | Secretário do Prefeito, genro de Frola. | Misterioso, tenso, ansioso, isolado. Sua aparência e comportamento sugerem que ele é controlador e talvez cruel. |
| Prefeito | Autoridade máxima da cidade. | Preocupado com a ordem pública e a reputação, busca resolver o "caso" para restaurar a normalidade. |
| Vários Conselheiros/Cidadãos | Representantes da comunidade local (Signora Cini, Signor Sirelli, etc.). | Curiosos, fofoqueiros, facilmente influenciáveis, ávidos por um escândalo e por uma verdade clara. |
Seção II
Após a saída de Signora Frola, o Signor Ponza, indignado com os rumores e as queixas da sogra que chegaram aos seus ouvidos, vai à casa dos Agazzi para apresentar sua própria versão dos fatos. Ele revela uma história chocante e completamente oposta. Ponza afirma que sua primeira esposa faleceu há quatro anos e que Signora Frola, incapaz de aceitar a morte de sua filha, sofreu um colapso mental e passou a acreditar que a atual esposa de Ponza (sua segunda esposa) é, na verdade, sua filha falecida.
Para poupar Frola de mais dor e para proteger sua segunda esposa dos delírios da sogra, Ponza mantém a farsa. Ele explica que a mantém isolada para evitar que Frola confronte a realidade de que sua filha está morta, o que a mergulharia novamente na loucura. Ponza alega que está realizando um ato de caridade e humanidade, sacrificando sua própria vida e a de sua esposa pela sanidade da sogra. A comunidade fica em total perplexidade, pois ambas as histórias são extremamente convincentes, mas mutuamente exclusivas. Laudisi, o cunhado de Agazzi, reitera a futilidade da busca por uma verdade única, enfatizando que a verdade é subjetiva: "Così è (se vi pare)". No entanto, os outros moradores se recusam a aceitar essa visão relativista e insistem em descobrir "a verdade".
Seção III
Ainda insatisfeitos, os moradores decidem forçar um encontro entre Ponza e Frola, na esperança de que um confronto direto revele quem está mentindo ou delirando. No entanto, o plano falha espetacularmente. Frola, ao ver Ponza, age como se ele fosse um louco a ser condescendido, expressando pena por ele e "fingindo" seguir seus delírios para proteger sua "filha". Ponza, por sua vez, trata Frola como uma louca, afirmando que deve ceder às suas fantasias para evitar que ela cause mal a si mesma ou a outros. Cada um, de forma sutil e "caridosa", mantém sua própria narrativa enquanto "refuta" a do outro, atribuindo a versão contrária à loucura do interlocutor. O impasse persiste, e a comunidade permanece na mais completa confusão.
Numa última e desesperada tentativa de resolver o enigma, o Prefeito exige que a própria Signora Ponza seja trazida para esclarecer sua identidade. Ela aparece, envolta num véu espesso e opaco, acompanhada por Ponza e Frola. Quando questionada diretamente sobre quem ela é, pronuncia a famosa frase da peça: "Eu sou aquela que as pessoas querem que eu seja. Para mim, não sou ninguém. Sou, sim, aquela que se presume que eu seja." Recusa-se a levantar o véu ou a dar mais detalhes, explicando que para Signora Frola, ela é a filha falecida que vive, e para Signor Ponza, ela é sua segunda esposa. Ambas as "verdades" são válidas do ponto de vista de cada um. Com essa declaração, a verdade absoluta permanece eternamente elusiva e incognoscível, deixando a comunidade perplexa e derrotada em sua busca por uma certeza.
Gênero literário:
Teatro, Drama filosófico, Peça teatral em três atos. É uma das obras-primas que explora o relativismo da verdade e a subjetividade da identidade, antecipando elementos do teatro do absurdo.
Dados do autor:
Luigi Pirandello (1867-1936) foi um proeminente dramaturgo, romancista e contista italiano, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Sua obra é central para a literatura italiana do século XX. Pirandello é conhecido por sua profunda exploração da natureza da ilusão, da verdade, da identidade e da realidade. Ele frequentemente questionava a existência de uma verdade única e objetiva, focando na subjetividade da percepção humana e nas "máscaras" sociais que as pessoas adotam. Além de "Così è (se vi pare)", suas peças mais célebres incluem "Seis Personagens à Procura de um Autor" e "Henrique IV".
A moral da história:
A peça explora a natureza subjetiva e multifacetada da verdade, e a impossibilidade de se conhecer uma verdade "absoluta" sobre os outros. A mensagem central é que "a verdade é como te parece" ("così è se vi pare"). Pirandello sugere que a realidade não é uma entidade objetiva e única, mas sim uma construção individual, moldada pela percepção, pelas crenças e pelas necessidades de cada pessoa. A peça critica a curiosidade intrusiva da sociedade e a sua ânsia em impor uma única versão da realidade, revelando que, muitas vezes, a verdade é complexa e até contraditória. Tentar defini-la rigidamente pode ser inútil, frustrante e até desumano. A identidade também é apresentada como algo fluido, construído e moldado pelas expectativas e percepções alheias.
Curiosidades do livro:
- Base literária: A peça é uma adaptação de uma novela anterior de Pirandello, intitulada "La signora Frola e il signor Ponza, suo genero" (A senhora Frola e o senhor Ponza, seu genro), publicada em 1915.
- Estreia: "Così è (se vi pare)" estreou em Milão em 1917, causando grande impacto pela sua inovação filosófica e dramática.
- Relevância Filosófica: É uma das obras mais emblemáticas do pensamento pirandelliano e um expoente do relativismo filosófico no teatro. Aborda temas que se tornariam centrais para o existencialismo e o teatro do absurdo, como a crise da identidade e a pluralidade da verdade.
- Expressão Popular: A frase "Così è (se vi pare)" tornou-se uma expressão popular na Itália para designar situações em que a verdade é ambígua e depende do ponto de vista de cada um.
- Símbolo do Véu: O véu da Signora Ponza é um poderoso símbolo visual da inacessibilidade da verdade e da identidade. Ela permanece uma figura abstrata, uma tela sobre a qual as outras personagens projetam suas próprias "verdades".
