El diablo y Dios - Jean-Paul Sartre

Resumo

"O Diabo e o Bom Deus" de Jean-Paul Sartre é uma peça existencialista que se passa na Alemanha do século XVI, durante a Guerra dos Camponeses. O protagonista, Goetz, é um líder militar e mercenário notoriamente cruel e sádico, que realiza atos de pura maldade, acreditando que Deus está observando e que ele está cumprindo um pacto com o mal. Num desafio ao seu meio-irmão, o padre Heinrich, e num jogo com a própria existência de Deus, Goetz decide apostar que tentará fazer o bem absoluto por um ano, esperando que, se conseguir, provará a existência de Deus.

Ele distribui terras aos camponeses, funda uma "Cidade do Sol" baseada no amor e na partilha, mas suas ações de "bem" abstrato e desinteressado levam ao caos, à miséria e à exploração, revelando a futilidade de uma bondade que não se engaja com a realidade humana e suas complexidades. Goetz falha miseravelmente em seu projeto de bondade e perde sua fé em um Deus que permanece em silêncio diante do sofrimento. No terceiro ato, desiludido com a ausência divina e a ineficácia de sua "bondade", Goetz declara que Deus não existe e, portanto, o homem está condenado a ser livre e responsável por si mesmo. Ele decide então abraçar a liderança da revolta camponesa, não por um mandato divino, mas por solidariedade humana e por uma escolha pessoal de engajamento na luta por justiça, aceitando a ambiguidade e a violência inerentes à ação no mundo. A peça é uma profunda reflexão sobre a liberdade, a responsabilidade, a existência de Deus e a natureza do bem e do mal na perspectiva existencialista de Sartre.

Seções do livro

Seção 1

A peça começa no acampamento de Goetz, o capitão mercenário, em Worms, Alemanha, durante a Guerra dos Camponeses. Goetz é um homem temido e odiado, conhecido por sua crueldade e pela destruição de cidades. Ele está prestes a queimar a cidade de Worms e massacrar seus habitantes. Seu meio-irmão, Heinrich, um padre, tenta dissuadi-lo de sua perversidade, mas Goetz parece se deleitar em sua maldade, acreditando que está fazendo o jogo de Deus, cumprindo o pacto com o Diabo. Ele justifica suas ações dizendo que ninguém pode ser absolutamente bom ou absolutamente mau, e ele escolheu o mal para ser único.

Goetz anuncia que irá trair os camponeses revoltosos, aos quais havia prometido apoio. Uma camponesa, Hilda, surge, representando o sofrimento do povo, e Goetz a convida a vê-lo cometer seus atos cruéis, como um desafio ao céu e à humanidade. Em um momento de epifania ou de um novo desafio a Deus, Goetz declara que, a partir daquele momento, ele tentará fazer o bem absoluto por um ano. Se conseguir, Deus existirá; se falhar, ele se condenará. Sua primeira ação de "bondade" é salvar a cidade de Worms, que ele planejava destruir, e doar todas as suas terras aos camponeses. Isso choca a todos, incluindo seus próprios soldados e o padre Heinrich.

Personagem Características Personalidade
Goetz Líder militar, mercenário, ateu/agnóstico em busca de prova divina. Cruel, sádico, cínico, orgulhoso, intelectual, impulsivo, egocêntrico, em busca de significado e absoluto.
Heinrich Sacerdote, meio-irmão de Goetz. Pio, moralista, conservador, preocupado com a salvação das almas, representa a moral e a fé tradicionais.
Hilda Camponesa, mulher comum. Sofrida, vulnerável, inocente, simboliza as vítimas da guerra e da injustiça, mais tarde idealista.
Conrad Tenente de Goetz. Leal, prático, obediente, confuso com as mudanças de Goetz.
Nasty Líder dos anabatistas, revoltoso. Fanático religioso, revolucionário social, idealista, representa a revolta radical.
Tetzel Monge dominicano. Ambicioso, astuto, representa a corrupção e a política eclesiástica.
Worms Banqueiro. Rico, oportunista, representa o poder econômico e a burguesia.

Seção 2

Goetz está agora envolvido em seu experimento de "bondade". Ele fundou uma comunidade, a "Cidade do Sol" ou "Cidade do Amor", onde todos os camponeses são iguais e compartilham a terra que ele lhes doou. Ele tenta impor uma moral de amor incondicional e não resistência ao mal. No entanto, suas boas intenções abstratas produzem resultados desastrosos. Os camponeses são incapazes de administrar a terra sem um sistema adequado, e os ricos, incluindo o banqueiro Worms e o monge Tetzel, aproveitam-se da situação, comprando as terras por preços baixos e explorando os camponeses novamente.

A "Cidade do Sol" se desintegra em caos, fome e disputas. Goetz se torna um pária, desprezado tanto pelos ricos quanto pelos camponeses, que o veem como um tolo ou um traidor. Heinrich o ridiculariza, apontando que sua "bondade" é estéril e ineficaz, pois ele não se engaja com a realidade e a malícia humana. Hilda, que inicialmente acreditava em Goetz, fica desiludida ao ver o sofrimento de seu povo.

O líder anabatista Nasty, que havia pregado a revolução e a justiça através da ação, confronta Goetz, mostrando-lhe que sua bondade passiva apenas perpetua a opressão. A praga assola a comunidade, e Goetz tenta curar Hilda, mas ela morre em seus braços, simbolizando o fracasso definitivo de sua tentativa de bondade. Em desespero, Goetz tenta ressuscitá-la, um ato que revela sua profunda crise de fé e seu fracasso em encontrar Deus através do bem. Ele se sente traído por um Deus que permanece em silêncio.

Personagem Características Personalidade
Catherine Seguidora de Nasty, camponesa. Leal, crente, idealista, representa a fé do povo nos movimentos revolucionários.
Karl Líder revolucionário. Pragmatico, líder do movimento de camponeses.

Seção 3

Goetz, completamente desiludido, abandona seu projeto de bondade e sua busca por Deus. Ele conclui que Deus não existe, ou se existe, é um Deus mudo e indiferente, irrelevante para a condição humana. Sem Deus, o homem está condenado a ser livre e deve assumir a responsabilidade total por suas ações. Ele percebe que o bem e o mal não são ditados por uma entidade divina, mas são construções humanas, produtos de escolhas livres.

Em um ato simbólico de renúncia à divindade e de abraço à humanidade, Goetz exige que suas mãos sejam cortadas (o que se torna uma metáfora para o abandono de sua busca por um bem puro e a aceitação da "sujeira" da ação humana). Ele decide se engajar na revolta camponesa, mas desta vez não como um líder divino ou um praticante do bem abstrato, mas como um homem entre os homens, aceitando a violência, o compromisso e a ambiguidade de lutar por uma causa terrena. Ele escolhe o "mal" da ação humana para lutar pelo que ele considera justo.

Goetz se torna o novo líder dos camponeses, um general, e aceita a solidão e o peso de sua liberdade e de suas escolhas. Heinrich, incapaz de aceitar a ausência de Deus e o humanismo ateu de Goetz, parte. Goetz declara que, como Deus está morto, ele é o único que pode dar ordens e que é sua responsabilidade forjar seu próprio caminho e o destino de seus companheiros, abraçando a condição de ser um homem livre em um mundo sem sentido predefinido.

Gênero literário

Drama existencialista, tragédia moderna.

Dados do autor

Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo, escritor, romancista, dramaturgo, ativista político e crítico literário francês. É uma das figuras centrais do existencialismo e da fenomenologia francesa, além de um proeminente pensador do século XX. Sua obra mais conhecida é o tratado filosófico "O Ser e o Nada". Foi também uma figura engajada politicamente, apoiando causas de esquerda e defendendo a liberdade individual e a responsabilidade social. Recusou o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, alegando que um escritor não deveria aceitar honrarias institucionais.

Moral da história

A moral central da peça, profundamente enraizada na filosofia existencialista de Sartre, é que Deus não existe ou é irrelevante para a ação humana, e, portanto, o homem está "condenado a ser livre". Essa liberdade impõe ao indivíduo a total responsabilidade por suas escolhas e ações. Não há um bem ou um mal pré-estabelecido por uma entidade divina; são os homens que os criam através de suas decisões. A verdadeira moralidade reside no engajamento ("engagement") com o mundo e com os outros, na escolha de agir e de tomar partido, mesmo que isso signifique aceitar a ambiguidade e a "sujeira" da ação. A peça argumenta que a bondade abstrata e desengajada é ineficaz e pode até ser prejudicial, enquanto a verdadeira justiça e significado são encontrados na luta concreta pela humanidade, sem a necessidade de uma justificativa divina.

Curiosidades

  • Duração e Escala: "O Diabo e o Bom Deus" é a peça mais longa de Sartre, tanto em termos de tempo de execução quanto de complexidade filosófica e número de personagens.
  • Contexto Pós-Guerra: Escrita em 1951, a peça reflete as intensas questões morais e políticas da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, incluindo dilemas sobre colaboração, resistência, engajamento político e a busca por significado em um mundo devastado.
  • Personagem Histórico: Goetz von Berlichingen, um cavaleiro mercenário do século XVI com uma mão de ferro, é uma inspiração para o nome e alguns aspectos do personagem Goetz, embora o personagem de Sartre seja uma criação filosófica original.
  • Existencialismo Dramatizado: A peça é um dos veículos mais potentes para a dramatização das ideias centrais do existencialismo de Sartre, especialmente a liberdade radical do homem, a responsabilidade, a angústia da escolha e a ausência de Deus.
  • Controvérsia: A peça foi altamente controversa por seu tema ateísta explícito e por questionar fundamentalmente as noções tradicionais de bem e mal, provocando debates acalorados na época de sua estreia.
  • Influência de Lutero: A reforma protestante e as guerras religiosas do século XVI servem como pano de fundo e metáfora para as lutas ideológicas e as escolhas morais do século XX. O personagem Heinrich, o padre, e Tetzel, o monge, remetem aos conflitos religiosos da época.