El hacedor - Jorge Luis Borges

Resumo

"El hacedor" (1960) é uma coleção multifacetada de ensaios, poemas e contos curtos de Jorge Luis Borges. Em vez de uma trama linear, o livro explora temas recorrentes na obra de Borges, como a natureza do tempo, a identidade, a realidade e a ilusão, a literatura como labirinto e espelho, o papel do criador e a relação entre o sonhador e o sonho. Borges tece reflexões sobre figuras históricas e literárias, mitos e paradoxos filosóficos, frequentemente borrando as linhas entre a ficção e a não-ficção. É uma obra que se debruça sobre a própria arte de criar, sobre a cegueira que concede outros dons, e sobre a imortalidade alcançada através da palavra e do pensamento. Cada peça é uma joia individual, mas juntas formam um mosaico que reflete a vasta erudição e a profunda sensibilidade de seu autor.

Seções do livro

Seção: El Hacedor

Esta peça titular serve como uma meditação sobre a cegueira e a criação. Borges explora a ideia de que a privação de um sentido pode aguçar outros, ou mesmo abrir portas para um mundo interior mais rico. Ele imagina Homero, cego, mas o "fazedor" de mundos e epopeias, aquele que "viu" mais profundamente por não ver com os olhos físicos. A seção reflete sobre como a memória e a imaginação se tornam a fonte da realidade para o poeta.

Personagem Características Personalidade
Homero Poeta épico grego, cego. Criador de mundos, imaginativo, possuidor de uma visão interior profunda.
Narrador (Borges) Intelectual, reflexivo, consciente de sua própria cegueira crescente (na época da escrita do livro). Meditativo, introspectivo, filosófico, admirador da capacidade criativa humana.

Seção: Dreamtigers

Nesta breve e poética prosa, Borges reflete sobre a ineficácia da vontade em controlar os sonhos. Ele descreve o desejo de sonhar com tigres – formas brilhantes e listradas – mas invariavelmente os tigres que aparecem em seus sonhos são fracos, desbotados ou mal definidos. A peça explora a frustração do criador que não consegue replicar perfeitamente a imagem ideal em sua mente, e a natureza elusiva da imaginação e do subconsciente.

Personagem Características Personalidade
Narrador (Borges) Sonhador, observador, consciente da limitação da vontade sobre o inconsciente. Persistente em sua busca por imagens ideais, mas resignado à sua inatingibilidade no sonho.

Seção: La Trama

Um conto muito curto e enigmático que se debruça sobre a repetição da história e o destino. A trama descreve um homem na Patagônia que é traído e morto por um companheiro, ecoando a história de Júlio César e Brutus. A peça sugere que os eventos e os papéis humanos são repetitivos, e que o destino, ou a "trama", é uma força inescapável que se manifesta através de diferentes épocas e indivíduos.

Personagem Características Personalidade
Júlio César Imperador romano, histórico, foi assassinado por traição. Ambicioso, poderoso, figura central de um drama histórico.
Brutus Senador romano, histórico, participou do assassinato de César. Traidor, figura trágica, personifica a ingratidão.
Homem da Patagônia Anônimo, anacrônico, vítima de traição. Destinado a repetir um padrão histórico, fatalista.
Seu traidor Anônimo, anacrônico, executor de uma traição. Instrumento do destino, repetição de um papel universal.

Seção: Poema de los Dones

Este é um dos poemas mais conhecidos e pessoais de Borges. Nele, ele reflete sobre o paradoxo de ter sido nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires no momento em que sua cegueira se aprofundava. Ele vê isso como uma ironia divina, um "magnífico escárnio" onde lhe foram dados os livros e a noite. O poema é uma meditação sobre a luz e a escuridão, sobre a perda e a compensação, e sobre o amor imutável pelos livros e pelo conhecimento, mesmo sem a visão.

Personagem Características Personalidade
Narrador (Borges) Poeta, intelectual, diretor da Biblioteca Nacional, cego ou com a visão severamente comprometida. Contemplativo, resignado, mas com uma profunda gratidão e amor pela literatura e pelo conhecimento, apesar da ironia de sua condição.

Seção: Del rigor en la ciencia

Um conto extremamente curto e famoso, quase uma micro-história ou fábula. Narra a ambição de um Império que, para satisfazer seu desejo por precisão cartográfica, cria um mapa que é tão detalhado quanto o próprio território, e eventualmente, um mapa que é do tamanho do Império. A peça critica a busca incessante pela perfeição e a inutilidade de certas ambições intelectuais, sugerindo que a representação máxima leva à aniquilação do original ou à sua completa irrelevância. O mapa gigantesco acaba se deteriorando, esquecido no deserto.

Personagem Características Personalidade
Cartógrafos do Império Dedicados, obcecados pela precisão e perfeição. Extremistas em sua arte, cegos para as implicações práticas de sua busca.
Reis do Império Patrocinadores da arte cartográfica, impulsionados pela grandiosidade. Ambiciosos, talvez ingênuos em sua busca por uma representação totalit
Gerações futuras Esquecedoras, indiferentes. Desconectadas das ambições passadas, práticas, talvez mais sábias em sua negligência.

Seção: Un problema

Este ensaio curto retoma um dos famosos paradoxos de Zenão de Eleia: o paradoxo de Aquiles e a tartaruga. Borges explora a ideia de que Aquiles, o guerreiro veloz, nunca conseguiria alcançar a tartaruga em uma corrida, pois para cada distância que Aquiles percorre, a tartaruga também avança uma fração menor, criando uma série infinita de distâncias a serem cobertas. A peça reflete sobre a natureza do tempo, do movimento e da lógica, questionando a validade da percepção humana e da razão na face de problemas metafísicos.

Personagem Características Personalidade
Zenão de Eleia Filósofo grego, criador dos paradoxos. Lógico, questionador, proponente de desafios à percepção sensorial e à razão.
Aquiles Herói mítico grego, o mais veloz dos guerreiros. Rápido, mas simbólico da incapacidade da lógica de sempre acompanhar a realidade.
Tartaruga Animal lento. Símbolo da constância e da maneira como a lógica pode "vencer" a velocidade aparente.

Seção: El testigo

Um conto filosófico sobre a memória e a continuidade da cultura. Borges imagina um homem que, por viver uma vida longa e isolada, torna-se o último a ter testemunhado certas coisas ou a ter praticado certos ritos que remontam a tempos ancestrais. Quando este homem morre, uma linha de continuidade com o passado é irremediavelmente quebrada. A peça explora a fragilidade da memória humana como guardiã da história e a importância de cada indivíduo como um elo na cadeia do conhecimento e da tradição.

Personagem Características Personalidade
Último Testigo Um homem anônimo, possuidor de memórias únicas de ritos e costumes antigos. Guardião inconsciente do passado, solitário, terminal para uma linha de tradição.

Seção: Todo y nada

Esta seção é uma meditação sobre William Shakespeare, imaginando-o como um homem que era "todos e nenhum". Borges sugere que Shakespeare, em sua capacidade de criar inúmeros personagens e mundos, não possuía uma identidade central própria, mas sim era um vazio que se preenchia com as vidas de suas criações. A peça explora a ideia do artista como um recipiente, um espelho que reflete as inúmeras facetas da humanidade, mas que, paradoxalmente, carece de uma essência própria.

Personagem Características Personalidade
William Shakespeare Dramaturgo e poeta inglês, criador de inúmeras obras. Vazio existencial, capaz de se preencher com a vida de seus personagens, genial em sua capacidade de mimetismo.

Gênero literário: Coleção de contos, ensaios e poemas (prosa curta, poesia, ensaio filosófico). Pode ser classificado como literatura fantástica, filosófica, metaficção.

Dados do autor:

  • Nome Completo: Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo
  • Nascimento: 24 de agosto de 1899, Buenos Aires, Argentina
  • Falecimento: 14 de junho de 1986, Genebra, Suíça
  • Nacionalidade: Argentino
  • Principais Temas: Labirintos, espelhos, sonhos, tempo, infinito, biblioteca, identidade, realidade e ilusão, metafísica, o papel do escritor.
  • Estilo: Prosa concisa e erudita, cheia de referências literárias e filosóficas, que muitas vezes confunde os limites entre a ficção e o ensaio. Foi um dos maiores expoentes da literatura do século XX e um mestre da ficção curta.

Moral da história: "El hacedor" não possui uma única moral, mas oferece várias reflexões profundas:

  • A criatividade como compensação: A perda de um sentido (como a cegueira de Borges/Homero) pode abrir as portas para uma riqueza interior e criativa ainda maior.
  • A natureza ilusória da realidade: A realidade é frequentemente construída pela percepção, pela memória e pela literatura, e suas fronteiras são porosas.
  • O papel do criador: O artista é um hacedor de mundos, mas também pode ser um mero recipiente para a criação, ou mesmo uma identidade fragmentada por suas próprias invenções.
  • A repetição e o destino: A história e os padrões humanos tendem a se repetir, sugerindo um destino que transcende o indivíduo.
  • A busca pelo conhecimento e seus limites: A erudição e a busca pela exatidão podem levar a paradoxos ou à inutilidade, mas o amor pelo saber é um dom inestimável.

Curiosidades do livro:

  • Título e Homero: O título "El hacedor" é uma referência direta a Homero, que na tradição grega era chamado de "o Poeta" ou "o Fazedor", destacando sua capacidade de criar. A peça que dá nome ao livro explora a cegueira de Homero e sua capacidade de criar mundos.
  • Autobiográfico: Muitas das peças são profundamente pessoais, refletindo as experiências de Borges, especialmente sua cegueira progressiva, que é um tema central em "Poema de los dones" e no próprio conceito de "hacedor".
  • Mistura de Gêneros: O livro é um exemplo da maestria de Borges em misturar poesia, prosa, ensaio e ficção. Ele rompe com as categorias tradicionais, criando um estilo próprio que se tornaria sua marca registrada.
  • Del rigor en la ciencia: A micro-história "Del rigor en la ciencia" é um dos textos mais citados de Borges e serve como uma parábola sobre o perigo da busca obsessiva pela perfeição e a inutilidade da representação absoluta. Inspirou obras e reflexões em diversas áreas.
  • Homenagem e Diálogo: O livro é uma vasta teia de homenagens e diálogos com outros autores (Shakespeare, Zenão, Quevedo, etc.) e conceitos filosóficos. Borges usa essas referências para construir suas próprias reflexões originais, mais do que simplesmente citá-las.
  • Escrito na maturidade: Publicado em 1960, "El hacedor" foi escrito em um período de grande reconhecimento para Borges, já com sua cegueira avançada, o que confere às suas meditações sobre a luz, a escuridão e a visão interior um peso particular.