Evaristo Carriego - Jorge Luis Borges

Resumo

"Evaristo Carriego" não é uma novela com uma trama linear, mas sim uma obra ensaística e biográfica de Jorge Luis Borges que explora a vida e a obra do poeta Evaristo Carriego (1883-1912), contextualizando-o na Buenos Aires do início do século XX, especialmente no bairro de Palermo. O livro é uma profunda reflexão sobre a formação da identidade argentina, a mitologia do arrabal (subúrbio pobre), a origem do tango, a figura do compadrito (tipo valente e fanfarrão), e a própria relação de Borges com sua cidade natal e seu passado. Borges usa Carriego como um pretexto para explorar temas como a memória, a criação de lendas, a efemeridade do tempo e o poder da poesia para eternizar o cotidiano. A obra mistura biografia, crítica literária, história social e autobiografia, tecendo um retrato multifacetado de uma época e de um homem que se tornou um símbolo.

Seções do livro

Seção 1: Evaristo Carriego

Esta seção apresenta Evaristo Carriego, o poeta do arrabal, e estabelece o tom do livro. Borges o descreve como uma figura quase mítica, um "poeta de bairro" que soube capturar a essência da periferia de Buenos Aires. Ele contrasta Carriego com outros poetas mais "eruditos", destacando a singularidade de sua voz, que se alimentava das histórias, dos dramas e das cores da vida simples e, por vezes, violenta do subúrbio. Borges expõe sua própria fascinação por Carriego, explicando como sua poesia o ajudou a decifrar e amar a Buenos Aires de sua infância.

Personagem Características Personalidade
Evaristo Carriego Poeta argentino, figura central do livro, falecido jovem. Sensível, observador, autêntico, capturou a alma do arrabal.
Jorge Luis Borges O autor e narrador, intelectual, amante de livros e da história de Buenos Aires. Reflexivo, nostálgico, analítico, busca a essência das coisas.

Seção 2: O bairro de Palermo

Aqui, Borges detalha o cenário onde Carriego viveu e encontrou inspiração: o bairro de Palermo. Ele descreve o Palermo do início do século XX como um lugar de ruas de terra, casas baixas, patios com laranjeiras, pulperías (tabernas rústicas) e a presença constante de compadritos. É um bairro que ainda guarda resquícios da vida rural e da selvageria da pampa, mas que já começa a se urbanizar. Borges pinta um quadro vívido desse ambiente, que é ao mesmo tempo rústico e cheio de uma mitologia própria, um palco para duelos, romances e a formação de identidades. A memória do bairro se entrelaça com a poesia de Carriego.

Seção 3: O compadrito

Esta seção é dedicada à figura do compadrito, um tipo social característico do arrabal portenho. Borges o descreve como um homem de coragem ostensiva, valente, adepto do duelo de facas, vaidoso em sua maneira de vestir e de andar, e frequentemente envolvido em brigas por honra ou por mulheres. O compadrito não é apenas um criminoso, mas uma figura com um código de conduta próprio, uma espécie de cavaleiro urbano da periferia. Borges argumenta que Carriego foi um dos primeiros a retratar essa figura com realismo e sem moralismo, elevando-o à categoria de personagem literário, e que o compadrito está intrinsecamente ligado à origem do tango.

Seção 4: A história do tango

Borges mergulha na origem e evolução do tango, desmistificando algumas de suas lendas. Ele argumenta que o tango não nasceu nos salões elegantes, mas sim nas casas de tolerância (prostíbulos) e nos conventillos (cortiços) do arrabal, associado aos compadritos e à marginalidade. Inicialmente, era uma dança de homens, expressando virilidade e desafio. O autor explora as letras primitivas do tango, muitas vezes obscenas ou trágicas, e como a música foi se transformando, ganhando aceitação social e perdendo parte de sua selvageria original. Carriego, com sua poesia, capturou essa fase inicial e visceral do tango.

Seção 5: Os poemas de Carriego

Aqui, Borges analisa a obra poética de Evaristo Carriego, destacando seus temas recorrentes e seu estilo. Ele comenta a capacidade de Carriego de transformar o trivial em poético, elevando cenas cotidianas do arrabal — como uma briga de compadritos, uma mulher esperando na janela, um homem jogando cartas — a um nível quase épico. Borges elogia a sinceridade e a melancolia de seus versos, que refletem a vida e os sentimentos de seu povo. Ele também aponta as limitações de Carriego, como a falta de uma erudição formal, mas ressalta que essas limitações são, paradoxalmente, a fonte de sua autenticidade.

Seção 6: O simulacro do passado

Nesta seção, Borges reflete sobre a natureza da memória e da construção do passado. Ele argumenta que as lembranças, tanto individuais quanto coletivas, são frequentemente recriações ou "simulacros" da realidade original. A poesia de Carriego, para Borges, age como um desses simulacros, preservando uma versão idealizada ou mitificada do Palermo antigo. O autor pondera sobre como a nostalgia e a arte podem moldar nossa percepção do que foi, criando um passado que é, ao mesmo tempo, real e imaginado. Carriego não apenas descreveu o passado, mas ajudou a construí-lo na mente dos leitores.

Seção 7: A morte de Carriego

Borges aborda a morte prematura de Carriego, que faleceu de tuberculose aos 29 anos. Ele contrasta a vida curta do poeta com o impacto duradouro de sua obra. A morte de Carriego é apresentada não como um fim trágico, mas como o momento em que ele se transformou definitivamente em uma lenda, um mártir da poesia do arrabal. A seção reforça a ideia de que a fama de Carriego cresceu postumamente, e que Borges, com este livro, contribui para consolidar essa lenda.

Seção 8: Uma vida e uma arte

A seção final amarra as reflexões de Borges sobre Carriego, o bairro, o tango e o compadrito. Ele reitera a importância de Carriego não apenas como poeta, mas como uma chave para compreender a alma de Buenos Aires. Borges conclui que a arte de Carriego é um testemunho da capacidade humana de encontrar beleza e significado nas circunstâncias mais humildes, e de como um homem pode, através de sua obra, transcender sua própria existência e moldar a memória coletiva de uma cidade e de uma cultura. A vida e a arte de Carriego se tornam indissociáveis, um espelho da própria identidade argentina.


Gênero literário: Ensaio biográfico, ensaio literário, crítica literária, memórias, história social e cultural. A obra transita entre esses gêneros, caracterizando-se pela profundidade reflexiva e pela mistura de factualidade com a subjetividade do autor.

Dados do autor:
Nome completo: Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo
Nascimento: 24 de agosto de 1899, Buenos Aires, Argentina
Falecimento: 14 de junho de 1986, Genebra, Suíça
Nacionalidade: Argentino
Ocupação: Escritor, poeta, ensaísta, contista, tradutor e bibliotecário.
Movimento literário: Vanguarda, modernismo. É considerado um dos maiores escritores do século XX, conhecido por sua prosa inovadora, seus contos filosóficos e suas reflexões sobre a metafísica, a identidade, o tempo e os labirintos.

Moral da história: A "moral" de "Evaristo Carriego" não é uma lição direta, mas uma série de reflexões profundas. O livro sugere que a verdade sobre o passado é complexa e muitas vezes construída pela memória e pela arte, mais do que por fatos puros. Destaca a importância de reconhecer e valorizar as vozes e as culturas que surgem das margens da sociedade. Além disso, mostra como a poesia e a literatura têm o poder de imortalizar o efêmero, de transformar o cotidiano em mito e de conferir significado e identidade a um povo e a um lugar.

Curiosidades do livro:

  • Primeira obra de Borges em prosa: Embora Borges já tivesse publicado livros de poemas, "Evaristo Carriego" (1930) é geralmente considerada sua primeira incursão significativa na prosa ensaística e biográfica, marcando uma transição importante em sua carreira literária.
  • Um reencontro com a infância: O livro é profundamente autobiográfico, pois Carriego foi um poeta da infância de Borges, cujos versos ele conheceu e memorizou antes mesmo de aprender a ler completamente. Escrevê-lo foi um modo de Borges revisitar suas raízes e a Buenos Aires que ele amava.
  • Desmistificação do tango: A análise de Borges sobre o tango foi revolucionária para a época, ao situar suas origens nos subúrbios e nos prostíbulos, contrariando a visão romântica e idealizada que se tinha da dança.
  • A crítica de Marechal: O escritor Leopoldo Marechal, contemporâneo de Borges, criticou este livro por considerar que Borges havia "inventado" um Carriego que não correspondia totalmente à realidade, criando uma figura mais próxima de seus próprios interesses literários. Borges, por sua vez, abraçava essa ideia de que a memória e a interpretação são também formas de criação.
  • Carriego como metáfora: Para Borges, Evaristo Carriego não é apenas um poeta, mas uma metáfora de uma Buenos Aires que estava desaparecendo, um símbolo da capacidade de a arte transformar a realidade humilde em algo sublime e eterno.