Hedda Gabler - Henrik Ibsen

Resumo

Hedda Gabler narra a história de Hedda, recém-casada com o acadêmico Jørgen Tesman, que retorna de uma longa lua de mel com uma profunda sensação de tédio e aprisionamento em sua nova vida burguesa. Filha de um general, acostumada ao luxo e à liberdade, Hedda despreza a mediocridade de seu entorno e a falta de ambição de seu marido. Sua natureza manipuladora e destrutiva a leva a interferir cruelmente na vida das pessoas ao seu redor. A tensão aumenta com a chegada de Eilert Lövborg, um talentoso escritor com um passado turbulento e um antigo amor de Hedda, que agora está sob a influência positiva de Thea Elvsted, sua dedicada companheira e assistente.

Hedda sente um ciúme intenso da capacidade de Thea de inspirar Lövborg e o manipula para que ele retome seus antigos vícios. Após Lövborg perder o manuscrito de sua nova obra-prima, Hedda o queima em um ato de controle e crueldade. Ela então o instiga a cometer suicídio "com beleza", entregando-lhe uma das pistolas de seu pai. Quando a verdade sobre a morte de Lövborg e o envolvimento de Hedda vêm à tona através do Juiz Brack, que a chantageia, Hedda se vê completamente encurralada e sem controle sobre sua própria vida. Incapaz de suportar a perda de sua liberdade e a perspectiva de um escândalo, Hedda comete suicídio, finalizando sua tragédia pessoal. A peça é uma crítica contundente às restrições sociais, ao tédio existencial e à busca por poder em um mundo opressor.

Seções do livro

Seção 1 (Ato Primeiro)

A peça começa na sala de estar elegantemente, porém um tanto friamente, decorada na nova casa de Jørgen Tesman e Hedda Gabler, recém-casados e retornando de sua lua de mel de seis meses. A tia Juliana Tesman e a criada Berta estão arrumando a casa para a chegada do casal. Tia Juliana expressa sua alegria pelo casamento de Jørgen e sua esperança de que Hedda lhe dê um filho, apesar de Hedda ter demonstrado desdém por tal prospecto. Ela e Berta discutem os gastos da lua de mel e a dificuldade financeira que Tesman enfrentará para manter o estilo de vida que Hedda exige.

Jørgen Tesman, um acadêmico simpático, mas um tanto ingênuo e focado em sua tese, chega e expressa sua satisfação com a casa. Hedda o segue, mostrando-se entediada e insatisfeita com a casa e com a própria lua de mel, que ela achou monótona e sem brilho. Ela revela a Berta que sente a casa como um "lar de estábulo" e mostra sua frustração com as expectativas sociais impostas a ela.

A tia Juliana, antes de partir, deixa seu chapéu e Hedda, com um toque de crueldade dissimulada, o confunde com o da criada, causando constrangimento. A chegada de Thea Elvsted, uma velha conhecida de Hedda e Tesman, interrompe a cena. Thea, tímida e nervosa, confessa ter deixado seu marido e implora a ajuda de Jørgen para encontrar Eilert Lövborg, um antigo colega de Tesman e Hedda, que tem um passado de alcoolismo e escândalos, mas que agora se reabilitou sob a influência de Thea e escreveu um manuscrito promissor. Thea teme que Lövborg volte a seus antigos hábitos em Christiania. A revelação da presença de Lövborg na cidade instiga uma série de emoções em Hedda, que demonstra um interesse perturbador na situação. Ela questiona Thea sobre sua relação com Lövborg, exibindo um ciúme velado e uma necessidade de controle sobre os sentimentos alheios.

Personagem Características Personalidade
Hedda Gabler Tesman Jovem esposa de Jørgen Tesman. Filha do General Gabler. De classe aristocrática, bela, sofisticada e com um gosto caro. Entediada, manipuladora, cínica, cruel, temperamental e profundamente insatisfeita com sua vida. Sente-se aprisionada pelas convenções sociais e seu casamento. Busca controle e poder sobre os outros, mas carece de um propósito próprio. Admira a beleza e a liberdade, mas teme o escândalo e a vulgaridade. Possui tendências autodestrutivas e um ciúme disfarçado de quem vive com paixão.
Jørgen Tesman Marido de Hedda. Acadêmico de história da cultura, focado em sua tese sobre costumes domésticos na Idade Média. Simpático, afável e um tanto ingênuo. Bem-intencionado, trabalhador e dedicado, mas um tanto denso e sem ambição grandiosa. Apaixonado por Hedda, mas incapaz de compreender sua complexidade e profundidade de insatisfação. Preocupa-se com as finanças e com as convenções sociais.
Miss Juliana Tesman Tia de Jørgen Tesman. Solteira, dedicada à família e a cuidar dos outros, especialmente de Jørgen. Afetuosa, generosa, prática e um tanto fofoqueira. Representa os valores tradicionais e o ideal maternal. Deseja a felicidade de Jørgen e a formação de uma família, mas é um pouco intrusiva nas suas boas intenções.
Thea Elvsted Antiga colega de escola de Hedda. Jovem, tímida e frágil. Deixou seu marido, que a tratava mal, para seguir Eilert Lövborg. Gentil, doce, dedicada e com uma rara capacidade de inspirar os outros. Sua fragilidade esconde uma força interior e uma lealdade profunda, especialmente para com Lövborg. Ela é ingênua em relação à manipulação de Hedda e aos perigos do mundo exterior, mas é impulsionada por um amor e uma fé genuínos.
Eilert Lövborg Escritor talentoso e ex-acadêmico. Tem um passado de alcoolismo e escândalos. Antigo amor e confidente de Hedda. Brilhante, carismático, apaixonado e com uma mente criativa prodigiosa, mas também frágil, impulsivo e propenso à autodestruição. Possui um "demônio" interior que o leva a excessos. Busca a redenção através de sua obra e do apoio de Thea, mas é facilmente manipulado por Hedda para retornar aos seus velhos hábitos.
Juiz Brack Amigo da família Tesman. Juiz influente e homem de mundo. Astuto, cínico, observador e com um aguçado senso de poder e influência social. Representa a elite mundana e é um confidente perigoso. Procura uma "terceira pessoa" no casamento dos Tesman, referindo-se a si mesmo. É sedutor e manipulador, e se deleita em exercer controle sobre Hedda, percebendo sua vulnerabilidade e desejo de emoção.
Berta Criada dos Tesman. Leal, trabalhadora e um tanto medrosa. Representa a classe trabalhadora e a vida cotidiana que Hedda tanto despreza.

Seção 2 (Ato Segundo)

A cena se passa novamente na sala de estar. Hedda, entediada, brinca com as pistolas de seu pai. O Juiz Brack chega para uma visita, e eles conversam sobre a lua de mel de Hedda, que ela descreve como "tediosa". Brack, astuto, tenta se posicionar como um confidente e uma "terceira parte" conveniente na casa, sugerindo que um casamento a dois é enfadonho. Ele insinua seu interesse em Hedda, que demonstra uma atração perigosa por seu cinismo e conhecimento do mundo. Hedda confessa que casou-se com Tesman por não ter "nada para fazer", por seu status social e pela segurança que ele oferecia. Ela expressa seu desejo por "influência" e "poder" sobre o destino das pessoas.

Jørgen Tesman retorna, e os três conversam sobre a possibilidade de Tesman não conseguir sua cátedra devido a um possível concorrente: Eilert Lövborg. Tesman, apesar de chocado, demonstra lealdade ao antigo amigo. Lövborg chega, inicialmente sério e contido, acompanhado de Tesman. Ele informa que não competirá com Jørgen pela cátedra, pois está focado em seu novo livro. Lövborg insiste que não toca álcool há anos. Hedda observa a interação entre Lövborg e Thea, percebendo a influência positiva que Thea exerce sobre ele, o que a enche de um ciúme destrutivo.

Durante a conversa, Hedda manipula Lövborg para que ele beba xerez, duvidando de sua força de vontade e desafiando-o. Thea, horrorizada, tenta intervir, mas Lövborg cede. Hedda então o convence a ir a uma festa na casa de Brack, onde haverá outros homens e bebida. Lövborg, para provar sua força, concorda. Thea, angustiada, implora a Tesman que impeça Lövborg, mas Hedda assegura a todos que Lövborg "voltará para casa triunfante". Hedda parece deleitar-se com a perspectiva de destruir o "domínio" de Thea sobre Lövborg, imaginando que ele voltará para ela.

Seção 3 (Ato Terceiro)

É manhã cedo, e Hedda está na sala de estar, esperando. Thea, que passou a noite inteira esperando por Lövborg e Tesman, está aflita. Ela teme que Lövborg tenha voltado a beber. Quando Tesman finalmente retorna, ele está exausto e chateado. Ele revela que Lövborg fez um escândalo na festa de Brack, bebendo demais e fazendo um discurso provocativo. Ao voltar para casa, Lövborg acidentalmente perdeu o manuscrito de sua nova obra-prima, a qual Tesman encontrou e guardou. Tesman sente-se dividido entre o dever de devolver o manuscrito e a tentação de usá-lo para garantir sua própria posição acadêmica.

O Juiz Brack chega com notícias mais graves: Lövborg esteve envolvido em uma briga e foi detido. Mais tarde, Lövborg, em um estado de desespero e embriaguez, aparece na casa de Hedda e Tesman. Ele mente para Thea, dizendo que rasgou o manuscrito em pedaços. Thea fica inconsolável, sentindo que o trabalho era como o "filho" deles. Hedda assiste a tudo com uma frieza calculista. Quando Lövborg e Thea saem, Tesman tenta ir atrás de Lövborg para devolver o manuscrito. Hedda o impede, dizendo que vai cuidar do manuscrito.

Sozinha, Hedda pega o manuscrito de Lövborg e o joga na lareira, queimando-o página por página. Ela declara que está queimando "o filho de Thea e Eilert", um ato de vingança e ciúme contra a capacidade de Thea de criar e inspirar. Ela vê o manuscrito como um rival e sua destruição como uma forma de exercer poder e controlar o destino das pessoas.

Seção 4 (Ato Quarto)

Ato final na sala de estar, mais tarde naquele mesmo dia. Tia Juliana visita, trazendo notícias sobre a doença da tia Rina e a necessidade de Tesman acompanhá-la. Ela também faz insinuações sobre a gravidez de Hedda, que Hedda nega veementemente. O Juiz Brack chega com a terrível notícia da morte de Eilert Lövborg. Ele revela que Lövborg foi encontrado morto com um tiro no peito em um bordel, e a polícia está investigando. Tesman e Thea ficam chocados e devastados.

Thea e Tesman, na tentativa de dar um novo significado à vida de Lövborg, decidem tentar reconstruir seu livro a partir das anotações que Thea ainda possui. Eles se aproximam, compartilhando o propósito de resgatar a obra de Lövborg. Hedda observa a crescente intimidade entre Thea e Tesman com um misto de desprezo e ciúme.

Brack, então, revela a Hedda a verdade sobre a morte de Lövborg: a bala que o matou veio de uma das pistolas de Hedda. Ele a chantageia, explicando que, se essa informação se tornar pública, ela enfrentará um escândalo inevitável, implicando em seu envolvimento na morte de Lövborg. Hedda, que instigou Lövborg a ter uma "bela morte" e lhe entregou a arma, agora percebe que perdeu completamente o controle. O que ela considerava um ato de heroísmo e um sacrifício romântico tornou-se uma armadilha humilhante.

A ideia de ser dependente de Brack e de estar sujeita ao escândalo e à vulgaridade é insuportável para Hedda. Sentindo-se encurralada, sem nenhuma saída honrosa e incapaz de tolerar a perda total de sua liberdade e autonomia, Hedda retira-se para seu quarto. Pouco depois, ouve-se um tiro. Tesman e Brack correm para o quarto, onde encontram Hedda morta, tendo atirado na têmpora. A peça termina com Tesman e Brack em choque, enquanto a "bela morte" que Hedda idealizou se concretiza de uma forma trágica e brutal.

Gênero literário

Drama realista, Tragédia moderna, Peça psicológica.

Dados do autor

Henrik Ibsen (1828-1906) foi um dramaturgo e poeta norueguês, amplamente reconhecido como um dos fundadores do drama moderno e uma figura central no realismo teatral. Nascido em Skien, Noruega, Ibsen passou grande parte de sua vida adulta exilado voluntariamente na Itália e na Alemanha, de onde escreveu a maioria de suas obras mais conhecidas. Ele revolucionou o teatro de sua época, afastando-se do melodrama romântico e introduzindo um estilo mais psicológico e socialmente engajado, que examinava as hipocrisias e as tensões da sociedade burguesa. Suas peças frequentemente desafiavam as convenções sociais e morais, explorando temas como a liberdade individual, o papel da mulher, a corrupção política e os segredos familiares.

Entre suas obras mais famosas estão "Casa de Bonecas" (1879), que critica abertamente as restrições impostas às mulheres; "Um Inimigo do Povo" (1882), que questiona a verdade e a maioria; "O Pato Selvagem" (1884), uma exploração da verdade e da ilusão; e "Peer Gynt" (1867), um poema dramático épico. Ibsen é considerado o dramaturgo norueguês mais importante e um dos mais influentes de todos os tempos, tendo um impacto duradouro no teatro ocidental.

Moral da história

A moral da história de Hedda Gabler é complexa e multifacetada. A peça sugere que a busca por uma liberdade individual e um ideal de vida que não se alinha com a realidade, ou a incapacidade de se adaptar a ela, pode levar à autodestruição. Hedda representa a mulher aprisionada pelas rígidas convenções sociais da sua época e pelo seu próprio tédio existencial, que, em vez de se conformar ou se rebelar de forma construtiva, escolhe a manipulação, a crueldade e a destruição como forma de exercer poder e sentir-se viva, culminando em sua própria aniquilação.

A peça também critica a superficialidade e a hipocrisia da sociedade burguesa, que, apesar de aparentemente estável e moral, pode sufocar o espírito e levar ao desespero. A falta de propósito genuíno e a busca por emoções vazias podem ter consequências devastadoras. Hedda é uma vítima e uma algoz; sua tragédia reside em sua incapacidade de encontrar um lugar para sua energia e ambição em um mundo que não lhe oferece saídas satisfatórias além do casamento e da maternidade, os quais ela abomina. Em última análise, a peça é um estudo sobre a autodestruição de uma alma complexa e atormentada, que prefere a morte à perda de sua autonomia e à vida que considera vulgar.

Curiosidades do livro

  • O Título "Hedda Gabler": A decisão de Ibsen de manter o sobrenome de solteira de Hedda no título da peça é crucial. Apesar de ela ser casada com Jørgen Tesman, o título "Hedda Gabler" – e não "Hedda Tesman" – sugere que Hedda se vê mais como a filha do General Gabler, com a liberdade, o status e a autoridade associados a essa linhagem, do que como a esposa de Tesman, uma identidade que ela despreza e que a aprisiona. É uma afirmação de sua identidade aristocrática e sua resistência em se conformar ao papel de esposa burguesa.
  • Recepção Inicial Controvertida: Quando Hedda Gabler estreou em 1891, a peça foi recebida com incompreensão e choque por muitos críticos e público. A personagem de Hedda era considerada "monstruosa", "repugnante" e suas motivações foram amplamente debatidas, com alguns a vendo como um mistério impenetrável. No entanto, ao longo do tempo, a peça foi reavaliada e hoje é considerada uma das obras-primas de Ibsen e um marco na dramaturgia moderna, notável pela profundidade psicológica e complexidade moral de sua protagonista.
  • As Pistolas do General: As pistolas do General Gabler não são meros adereços; são símbolos poderosos do desejo de Hedda por poder, controle e uma forma de "beleza" em sua vida mundana. Elas representam sua conexão com um passado militar e aristocrático, sua masculinidade velada e, finalmente, os meios de sua autodestruição. Elas são a ferramenta que ela usa para manipular Lövborg para uma "bela morte" e, finalmente, para a sua própria.
  • Influência no Feminismo: Embora Hedda não seja uma heroína feminista tradicional – ela não busca a emancipação feminina de forma construtiva como Nora em Casa de Bonecas –, a peça é frequentemente estudada no contexto dos estudos de gênero. Hedda é uma mulher inteligente e ambiciosa sufocada por uma sociedade patriarcal que não lhe oferece saídas para sua energia e inteligência, levando-a a uma manifestação destrutiva e niilista de sua vontade. Ela representa o tédio e a frustração de mulheres talentosas presas em papéis sociais limitados.