Nove Ensaios Dantescos - Jorge Luis Borges
Resumo "Nueve ensayos dantescos" é uma coleção de nove ensaios críticos nos quais Jorge Luis Borges explora e reinterpreta diversos aspecto...
Resumo
"Nueve ensayos dantescos" é uma coleção de nove ensaios críticos nos quais Jorge Luis Borges explora e reinterpreta diversos aspectos da "Divina Comédia" de Dante Alighieri. Longe de ser uma análise meramente acadêmica, Borges utiliza sua erudição e sua peculiar visão filosófica e literária para desvendar camadas ocultas, contradições aparentes e a riqueza simbólica da obra-prima de Dante. Cada ensaio aborda um tema específico, desde a análise de personagens como Ulisses e Ugolino, passando pela figura de Virgílio, a natureza da heresia, o uso de símbolos, até a concepção do amor e da identidade individual na visão dantesca. Borges questiona interpretações tradicionais, propõe novas leituras e convida o leitor a uma reflexão mais profunda sobre a obra e o universo que ela representa, sempre com sua prosa característica, repleta de paradoxos e referências intertextuais. O livro é, em essência, uma homenagem e um diálogo contínuo entre dois dos maiores intelectuais da literatura universal.
Seções do livro
Seção 1: O último viaje de Ulises
Neste ensaio, Borges analisa a versão dantesca do último voo de Ulisses, que difere significativamente da narrativa homérica. Na "Divina Comédia" (Inferno, Canto XXVI), Ulisses é condenado ao inferno não por seus crimes de guerra, mas por sua insaciável sede de conhecimento e aventura, que o leva a ultrapassar os limites impostos por Deus. Borges destaca a audácia e a curiosidade intelectual de Ulisses, que, mesmo velho e cansado, incita seus companheiros a uma viagem para além das Colunas de Hércules, em busca de um mundo sem gente, impelido pela virtude e pelo conhecimento. Esta busca, no entanto, é vista por Dante como um ato de soberba e transgressão. Borges reflete sobre a dualidade entre a glória da busca humana e a condenação divina, e como Dante transforma um herói clássico em um símbolo da curiosidade desmedida.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Jorge Luis Borges | Ensaísta, erudito, crítico literário. | Analítico, perspicaz, provocador, com uma profunda compreensão da literatura e filosofia. |
| Dante Alighieri | Poeta florentino, autor da "Divina Comédia". | Visionário, teólogo, moralista, com uma complexa visão do universo e da moralidade. |
| Ulisses (Dante) | Herói grego, figura mitológica. | Inquieto, audacioso, insaciável em sua busca por conhecimento e novas experiências, transgressor dos limites divinos. |
Seção 2: O falso problema de Ugolino
Borges aborda a história de Conde Ugolino della Gherardesca, retratado no Inferno (Canto XXXIII) devorando o crânio de seu algoz, o Arcebispo Ruggieri. A questão central que Borges discute é a ambiguidade da famosa frase "poscia, più che il dolor, potè il digiuno" (depois, mais que a dor, pôde o jejum), que tem sido interpretada por séculos como Ugolino comendo a carne de seus próprios filhos após eles morrerem de fome. Borges argumenta que esta interpretação canibalística é um "falso problema", pois a frase pode ser lida de forma menos literal: o jejum (a fome extrema) o dominou, e não que ele os comeu. Ele sugere que a força da imaginação dos leitores e a própria intenção de Dante de chocar levaram a essa leitura mais horrível. Borges prefere a interpretação que Ugolino sofreu uma agonia insuportável de fome e desespero, que o levou à loucura e à morte, sem necessariamente implicar canibalismo.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Ugolino della Gherardesca | Nobre pisano, condenado ao inferno. | Orgulhoso, traído, atormentado, desesperado, símbolo da vingança e do sofrimento extremo. |
| Arcebispo Ruggieri | Adversário político de Ugolino, também condenado. | Traidor, cruel, simboliza a inimizade e a punição. |
Seção 3: O primeiro Vergil
Neste ensaio, Borges explora a figura de Virgílio na "Divina Comédia", não como o autor romano de "Eneida", mas como o guia e mestre de Dante no Inferno e no Purgatório. Borges destaca a transformação de Virgílio de um poeta pagão a um símbolo da Razão e da Sabedoria que guia Dante. Ele enfatiza a paradoxal situação de Virgílio, que não pode entrar no Paraíso, pois viveu antes de Cristo e, portanto, não conheceu a verdadeira fé. Borges sugere que a figura de Virgílio é "o primeiro Virgílio" porque Dante o cria e o modela para suas próprias necessidades poéticas e teológicas, conferindo-lhe um papel que transcende sua identidade histórica. É um Virgílio que "sabe" o futuro e a teologia cristã, um anacronismo poético justificado pela função alegórica.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Virgílio (Dante) | Poeta romano, guia de Dante no Inferno e Purgatório. | Sábio, paciente, compassivo, autoritário, mas também melancólico por sua exclusão do Paraíso, símbolo da razão humana. |
Seção 4: O encontro em um sonho
Borges reflete sobre a natureza dos encontros na "Divina Comédia", especialmente aqueles que ocorrem em sonhos ou visões, e como eles se relacionam com a realidade ou a memória. Ele explora a ideia de que a "Divina Comédia" é ela mesma uma espécie de sonho ou viagem visionária, onde Dante encontra figuras do passado e do futuro. O ensaio discute a forma como Dante manipula o tempo e o espaço, criando encontros que desafiam a lógica linear. Borges pode estar se referindo a encontros como o de Dante com Beatrice, que se manifesta de forma transcendente, ou com outros personagens que aparecem em contextos sobrenaturais, ressaltando a capacidade do poema de construir uma realidade própria, mais vívida que a vida.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Beatrice Portinari | Amada de Dante, sua guia no Paraíso. | Pura, celestial, compassiva, símbolo da fé, da graça divina e do amor idealizado. |
Seção 5: O pior dos herejes
Este ensaio mergulha na questão da heresia e como Dante a representa, especialmente no contexto do Inferno. Borges examina os hereges, particularmente Farinata degli Uberti e Cavalcante de' Cavalcanti, confinados em túmulos em chamas. Ele argumenta que para Dante, o "pior" dos herejes não é aquele que nega dogmas específicos, mas sim aquele que se recusa a reconhecer a realidade da vida após a morte e a providência divina, vivendo como se a alma morresse com o corpo. Borges sugere que a verdadeira heresia para Dante é o materialismo ou o epicurismo, a negação da eternidade da alma, que é a base da fé cristã e do sistema de recompensas e punições divinas. Ele explora como Dante infere as verdades teológicas através de suas próprias intuições e como os hereges são punidos com a negação do que eles mesmos negaram em vida.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Farinata degli Uberti | Líder gibelino florentino, condenado como herege. | Orgulhoso, desafiador, nobre em seu sofrimento, patriota ferrenho de Florença. |
| Cavalcante de' Cavalcanti | Nobre florentino, pai de Guido Cavalcanti, condenado como herege. | Angustiado, preocupado com o destino de seu filho, símbolo da dor paterna. |
Seção 6: Nossos pobres individualismos
Borges explora a concepção de individualidade na "Divina Comédia" e a contrasta com a noção moderna de individualismo. Ele argumenta que Dante, sendo um homem medieval, não possuía a mesma ideia romântica ou egocêntrica de "eu" que se desenvolveria mais tarde. Os personagens de Dante, embora distintos, são muitas vezes definidos por seus pecados, virtudes ou seu lugar na ordem divina, mais do que por uma complexidade psicológica única. Borges sugere que os sofrimentos e as particularidades de cada alma servem para ilustrar verdades universais e o sistema moral de Deus, em vez de celebrar a singularidade intrínseca de cada indivíduo. Ele contrasta isso com a obsessão moderna pelo eu, que ele ironicamente chama de "nossos pobres individualismos".
Seção 7: De los símbolos
Neste ensaio, Borges analisa o profundo uso de símbolos na "Divina Comédia", enfatizando como Dante não apenas emprega símbolos, mas também cria um universo simbólico complexo e interconectado. Ele discute a distinção entre alegoria e símbolo, sugerindo que em Dante os símbolos são muitas vezes mais ambíguos e ressonantes do que meras representações alegóricas. Borges explora como objetos, cores, números e até mesmo os próprios personagens adquirem múltiplos significados, operando em níveis literal, alegórico, moral e anagógico. Ele destaca a capacidade de Dante de infundir o mundo material com significado espiritual, tornando a "Divina Comédia" um vasto mapa de verdades celestiais e terrenas, onde tudo aponta para algo além de si mesmo.
Seção 8: O nobre castelo do canto quarto
Borges se concentra no "Nobre Castelo" do Limbo (Inferno, Canto IV), onde residem os espíritos não batizados e virtuosos da Antiguidade, como os poetas, filósofos e heróis pagãos. Ele questiona a lógica teológica e poética de Dante em criar um lugar de "não punição" para aqueles que não pecaram, mas também não alcançaram a salvação. Borges vê neste castelo um reflexo da própria admiração de Dante pela cultura clássica, um reconhecimento da grandeza humana fora dos domínios do cristianismo. No entanto, o "Castelo" também é um lugar de tristeza, de "desejo sem esperança", um limbo onde a ausência de Deus é a eterna pena. Borges medita sobre essa ambiguidade e sobre a genialidade de Dante em conciliar sua fé com seu amor pela sabedoria pagã.
| Personagem | Características | Personalidade |
|---|---|---|
| Homero | Poeta grego, autor da "Ilíada" e "Odisseia". | Venerado, sábio, representa a fundação da poesia épica e da cultura clássica. |
| Horácio | Poeta romano. | Distinto, refinado, representa a poesia lírica e satírica latina. |
| Ovídio | Poeta romano, autor das "Metamorfoses". | Elocuente, imaginativo, representa a mitologia e a poesia narrativa. |
| Lucano | Poeta romano, autor da "Farsália". | Épico, histórico, representa a poesia heroica romana. |
| Aristóteles | Filósofo grego. | Mestre dos que sabem, intelecto supremo, representa a filosofia e o raciocínio humano. |
| Platão | Filósofo grego. | Idealista, profundo, representa a filosofia metafísica. |
| Sócrates | Filósofo grego. | Questionador, ético, representa a busca pela verdade. |
Seção 9: O que a lua viu
Este ensaio final é uma meditação mais ampla e poética sobre a "Divina Comédia" como um todo, talvez como uma obra que abrange a totalidade da experiência humana e divina, vista "da perspectiva da lua" – uma visão elevada e quase cósmica. Borges pode estar refletindo sobre a imortalidade da obra, sua capacidade de transcender o tempo e as culturas, e como ela continua a fascinar e provocar novas interpretações. O título sugere uma perspectiva universal e atemporal, como se a própria lua, testemunha silenciosa da história, pudesse atestar a grandiosidade e a abrangência do poema de Dante. O ensaio provavelmente culmina na celebração da "Divina Comédia" como um dos maiores feitos da imaginação humana, um espelho do universo.
Gênero literário
Ensaio, Crítica literária, Filosofia.
Dados do autor
Jorge Luis Borges (1899-1986) foi um escritor argentino, um dos mais importantes da literatura do século XX. Poeta, contista e ensaísta, é conhecido por sua prosa inovadora, labiríntica e metafísica, que explora temas como o tempo, o infinito, os espelhos, os sonhos e os livros. Sua obra influenciou profundamente a literatura ocidental. Recebeu inúmeros prêmios e honrarias, sendo frequentemente considerado um eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, que nunca ganhou.
Moral da história
Não há uma "moral" no sentido tradicional de uma fábula, mas sim várias reflexões e provocações intelectuais. A principal mensagem que Borges transmite é a de que as grandes obras literárias são inesgotáveis em seu significado e que a leitura crítica e interpretativa é um ato contínuo de criação. Ele nos ensina que, mesmo em textos consagrados, há sempre espaço para novas perguntas, novos ângulos e novas compreensões, e que a literatura é um diálogo eterno entre o autor, o texto e o leitor. A "Divina Comédia" não é um monumento estático, mas um universo vivo a ser constantemente explorado.
Curiosidades do livro
- Borges era um grande admirador de Dante e da "Divina Comédia", a quem considerava "o maior poema que a humanidade produziu". Ele leu a obra incontáveis vezes, inclusive em italiano, e a recitava de memória.
- Os ensaios foram escritos ao longo de vários anos e compilados nesta coleção, mostrando a evolução e a consistência do pensamento de Borges sobre Dante.
- Borges, conhecido por sua cegueira progressiva, muitas vezes confiava em sua memória prodigiosa e na leitura de outros para se aprofundar em suas análises, o que torna sua erudição ainda mais impressionante.
- A abordagem de Borges não é apenas literária, mas também filosófica e teológica, questionando as implicações morais e metafísicas das escolhas narrativas de Dante.
- Em vez de apenas resumir ou explicar Dante, Borges usa a "Divina Comédia" como um ponto de partida para suas próprias especulações sobre a literatura, a identidade, a moralidade e o conhecimento, transformando a crítica literária em uma forma de arte por si mesma.
