Otras inquisiciones - Jorge Luis Borges

Resumo

"Outras Inquisições" é uma coletânea de ensaios de Jorge Luis Borges, publicada em 1952, que reflete sua vasta erudição e sua paixão por temas filosóficos, literários e metafísicos. O livro não possui uma trama linear no sentido tradicional de uma narrativa ficcional, mas sim uma série de investigações intelectuais profundas e digressivas. Borges explora a natureza do tempo, a eternidade, a identidade, a linguagem, o poder da literatura e a forma como a história e a cultura moldam nossa compreensão do universo. Através de análises de autores clássicos e obscuros, conceitos religiosos e filosóficos, e até mesmo de classificações improváveis, Borges questiona a realidade, a autoria, a natureza do conhecimento e a própria condição humana, convidando o leitor a uma reflexão sobre os limites da percepção e da razão. É um mergulho na tapeçaria infinita de ideias que caracterizam o universo borgiano.

Seções do livro

Seção: A esfera de Pascal
Borges explora a metáfora da "esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma", atribuída a Pascal, mas rastreia sua origem até a antiguidade grega e a Idade Média. O ensaio discute como essa imagem tem sido usada ao longo da história para representar a divindade, o universo e até mesmo a mente humana, revelando a persistência de certas ideias arquetípicas no pensamento ocidental.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Blaise Pascal Filósofo, matemático, físico, teólogo cristão, autor das "Pensées". Intelectual profundo, de inclinação mística e cética, preocupado com as questões da fé e da razão, melancólico.
Platão Filósofo grego clássico, fundador da Academia de Atenas. Pensador idealista, proponente do mundo das Ideias, influente na filosofia ocidental.
Parmênides Filósofo pré-socrático, considerado o pai da metafísica. Rigoroso, sistemático, defensor da unidade e imutabilidade do Ser.
Xenofonte Historiador, soldado e filósofo grego. Pragmático, observador, registra a vida e os ensinamentos de Sócrates.
Empédocles Filósofo pluralista, médico e poeta grego. Místico, proponente da teoria dos quatro elementos e das forças de Amor e Ódio.
Giordano Bruno Filósofo, astrônomo e matemático italiano do Renascimento. Visionário, herege, defensor de um universo infinito e múltiplo, dogmático.

Seção: A flor de Coleridge
Borges examina a ideia da invenção literária e da originalidade, partindo de uma observação de Coleridge sobre como certas obras parecem ter existido desde sempre. Ele explora a noção platônica de arquétipos, sugerindo que grandes criações literárias podem ser revelações de formas eternas e não meras invenções individuais. Discute como a repetição e a variação de temas e motivos essenciais são uma constante na literatura.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Samuel Taylor Coleridge Poeta, crítico literário e filósofo inglês, um dos fundadores do Romantismo na Inglaterra. Místico, visionário, profundo conhecedor de filosofia e literatura, com uma mente inquieta e imaginativa.
Plotino Filósofo helenístico, fundador do neoplatonismo. Sistemático, místico, preocupado com a ascensão da alma ao Um, influente na teologia cristã.

Seção: O enfoque de Cábala
O ensaio mergulha na Cabala judaica, especialmente em sua interpretação mística de textos sagrados. Borges explora a ideia de que cada palavra, letra e até a forma de um texto divino contém múltiplos níveis de significado oculto. Ele contrasta essa busca por sentidos infinitos com a leitura linear e literal, sugerindo que a Cabala é um exemplo extremo da crença na plurissignificação de textos e na capacidade de uma obra de arte conter infinitas interpretações.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Cabalistas Estudiosos e praticantes da Cabala, sistema místico judaico. Devotos, herméticos, buscam significados ocultos na Torá e na criação, com uma mentalidade analítica e simbólica.
Leitor Qualquer pessoa que lê um texto. Variável, mas no contexto do ensaio, pode ser tanto literal quanto interpretativo, buscando significado.

Seção: A refutação da eternidade
Borges apresenta um argumento filosófico pessoal contra a ideia da eternidade do tempo linear, propondo em vez disso uma concepção de tempo como uma série de "presentes" idênticos e discretos. Ele se baseia em pensadores como Hume e Schopenhauer para sugerir que a experiência subjetiva do tempo pode abolir a ideia de um fluxo contínuo e irreversível, levando à noção de um presente eterno ou de múltiplos momentos que se repetem.

Personagem / Conceito Características Personalidade
David Hume Filósofo, historiador e ensaísta escocês, figura central do empirismo. Cético, rigoroso, analítico, defende que todo conhecimento provém da experiência, com uma mentalidade investigativa e questionadora.
Arthur Schopenhauer Filósofo alemão, conhecido por seu pessimismo filosófico. Profundo, melancólico, místico-ateísta, defende que a Vontade é a essência do mundo, com uma mente aguda e influenciada pelo budismo.
Zenão de Eleia Filósofo pré-socrático, conhecido por seus paradoxos. Lógico, provocador, desafia a intuição sobre movimento e pluralidade.

Seção: Kafka e seus precursores
Neste ensaio seminal, Borges argumenta que todo escritor "cria" seus próprios precursores. Ao ler a obra de Franz Kafka, percebe-se um fio condutor em autores anteriores (como Zenão, Kierkegaard, Browning, Bloy e Dunsany) que, antes de Kafka, não pareciam ter uma conexão clara entre si. Borges sugere que a singularidade de Kafka reside em ter revelado uma nova sensibilidade ou estética que retroativamente confere um sentido "kafkaesco" a textos que o antecederam.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Franz Kafka Escritor de ficção tcheco de língua alemã, suas obras exploram temas de alienação, culpa e absurdo. Mestre do absurdo e da angústia existencial, com uma escrita precisa, simbólica e visionária.
Søren Kierkegaard Filósofo dinamarquês, teólogo e crítico social, um dos primeiros existencialistas. Existencialista, religioso, irônico, introspectivo, focado na experiência individual e na fé.
Robert Browning Poeta e dramaturgo inglês da era vitoriana. Mestre do monólogo dramático, psicológico, complexo, explora as profundezas da mente humana.
Léon Bloy Escritor francês, ensaísta, romancista e crítico. Católico fervoroso, polemista, místico, suas obras são caracterizadas por uma intensa paixão e fervor.
Lord Dunsany Escritor e dramaturgo irlandês, conhecido por suas obras de fantasia. Imaginativo, criador de mundos mitológicos e fantásticos, com um estilo poético.

Seção: Tai Hsiang como escritor
Borges discute um livro chinês obscuro e hipotético chamado "Tai Hsiang", explorando a ideia de uma literatura que não busca a invenção da trama, mas a repetição e variação de um número limitado de histórias fundamentais. Ele contrasta essa abordagem oriental com a ênfase ocidental na originalidade e na novidade, sugerindo que a verdadeira arte pode residir na capacidade de reelaborar o familiar de maneiras infinitas.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Tai Hsiang (livro) Livro chinês hipotético, com narrativas repetitivas sobre 30 personagens. Simbólico da literatura oriental, que valoriza a repetição, a variação e o arquétipo sobre a originalidade na trama.

Seção: Nathaniel Hawthorne
Neste ensaio, Borges analisa a obra de Nathaniel Hawthorne, focando em sua habilidade em criar parábolas e alegorias morais. Ele explora os temas recorrentes de culpa, pecado original, herança e a complexidade da alma humana nos contos e romances de Hawthorne, destacando sua profundidade psicológica e seu uso do simbolismo.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Nathaniel Hawthorne Escritor americano do século XIX, mestre do romance histórico e do conto, com foco em temas puritanos e morais. Moroso, moralista, introspectivo, mestre do simbolismo e da alegoria, preocupado com o pecado e a redenção.

Seção: Valéry como símbolo
Borges reflete sobre Paul Valéry como um símbolo do intelectual moderno, que buscava a consciência total e a clareza máxima na criação artística. Ele discute a obsessão de Valéry pela forma, pelo processo criativo e pela mente que se autobserva, elevando-o a um modelo de lucidez e rigor que contrasta com a espontaneidade romântica. Valéry representa para Borges a figura do artista que é, acima de tudo, um pensador.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Paul Valéry Poeta, ensaísta e filósofo francês, conhecido por seu rigor intelectual e sua exploração do processo criativo. Racionalista, metódico, autoconsciente, obcecado pela forma e pela clareza da mente, com uma personalidade de intelectual puro.

Seção: Das alegorias aos romances
O ensaio traça uma evolução literária, argumentando que a literatura ocidental migrou de formas alegóricas, onde os personagens representam ideias abstratas (como na Divina Comédia), para o romance, onde a individualidade e a complexidade psicológica dos personagens se tornam centrais. Borges sugere que essa transição reflete uma mudança na forma como a humanidade entende a si mesma e a realidade.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Dante Alighieri Poeta italiano do século XIII, autor da "Divina Comédia". Mestre da alegoria, religioso, político, visionário, com uma personalidade imponente e influente.
Miguel de Cervantes Escritor espanhol, autor de "Dom Quixote", considerado o primeiro romance moderno. Inovador, humorístico, perspicaz, com uma personalidade que mescla a aventura com a reflexão.

Seção: A duração do inferno
Borges discute a doutrina teológica do inferno e, em particular, a ideia de sua duração eterna. Ele explora as diferentes concepções de tempo e punição na teologia cristã, questionando a lógica e a moralidade de uma punição sem fim. O ensaio revela a fascinação de Borges por paradoxos teológicos e suas implicações éticas.

Personagem / Conceito Características Personalidade
São Tomás de Aquino Teólogo e filósofo católico, um dos mais importantes da Idade Média. Sistemático, racionalista, busca harmonizar fé e razão, com uma personalidade intelectual e devota.
Santo Agostinho Teólogo e filósofo cristão, Bispo de Hipona, um dos Padres da Igreja. Profundo, introspectivo, influente, autor de "Confissões", com uma personalidade apaixonada e complexa.

Seção: O pudor da história
Neste ensaio, Borges critica a maneira como a história é frequentemente escrita, muitas vezes omitindo detalhes "inapropriados" ou inconvenientes para criar uma narrativa coesa e edificante. Ele argumenta que essa "pudeur" ou pudor da história distorce a verdade, ignorando o caos, a irracionalidade e os aspectos menos gloriosos da experiência humana. Borges defende uma história que abrace a complexidade e as contradições.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Historiadores (em geral) Registradores do passado. Variável, mas no contexto do ensaio, tendem a ser idealizadores ou censores, buscando ordem e moralidade.
Heródoto Historiador grego, considerado o "Pai da História". Curioso, viajante, narrador, busca registrar os feitos humanos e as causas das guerras.

Seção: Nova refutação do tempo
Esta seção é uma continuação ou aprofundamento da "Refutação da eternidade". Borges reitera seus argumentos contra o tempo como uma sucessão linear, insistindo na ideia de que o tempo é uma construção subjetiva e que todos os momentos, em sua essência, são idênticos. Ele reforça a noção de que o "Eu" é uma ilusão e que a experiência de um presente eterno é o que realmente existe.

Seção: O idioma analítico de John Wilkins
Um dos ensaios mais famosos de Borges, onde ele comenta um projeto do século XVII do intelectual inglês John Wilkins para criar uma linguagem universal e uma classificação exaustiva de todo o conhecimento. Borges descreve as categorias arbitrárias e fantásticas da enciclopédia chinesa fictícia de um autor alemão, F.H. Miza, que Foucault depois usaria como inspiração. O ensaio explora os limites da linguagem, da classificação e da lógica, revelando a arbitrariedade inerente a qualquer tentativa de ordenar o universo.

Personagem / Conceito Características Personalidade
John Wilkins Clérigo, filósofo natural e criptógrafo inglês do século XVII, fundador da Royal Society. Intelectual ambicioso, lógico, busca a ordem e a clareza na linguagem e no conhecimento.

Seção: O rouxinol de Keats
Borges analisa a "Ode a um Rouxinol" de John Keats, uma das mais célebres odes da literatura inglesa. Ele explora a capacidade do poema de evocar a imortalidade da beleza e da arte através da voz do pássaro, contrastando-a com a efemeridade da vida humana. Borges destaca a melancolia e o anseio por transcendência que perpassam a obra de Keats.

Personagem / Conceito Características Personalidade
John Keats Poeta romântico inglês, famoso por suas odes e lirismo. Sensível, melancólico, busca a beleza e a imortalidade na arte, com uma personalidade apaixonada e imaginativa.

Seção: Deutsches Requiem
Esta é uma das poucas peças de ficção na coletânea. É um monólogo de Otto Dietrich zur Linde, um oficial nazista condenado à morte, que reflete sobre sua vida, sua ideologia e o destino da Alemanha. Ele assume a derrota como uma forma de sacrifício necessário para um futuro de grandeza, revelando a complexidade perversa da mentalidade totalitária. É um estudo perturbador sobre o mal e a justificativa da violência.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Otto Dietrich zur Linde Oficial nazista ficcional, intelectual, idealista de seu regime. Frio, calculista, resignado, convencido da superioridade da causa nazista, com uma personalidade de fanático e mártir de uma ideologia perversa.

Seção: Magias parciais do Quixote
Borges analisa as meta-narrativas e os jogos de espelhos presentes em "Dom Quixote" de Cervantes, onde personagens leem e comentam o próprio livro que os contém. Ele explora como essas "magias parciais" borram as fronteiras entre a ficção e a realidade, questionando a natureza da autoria e da criação literária. É uma celebração da inventividade e da complexidade do romance de Cervantes.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Dom Quixote Protagonista do romance de Cervantes, um fidalgo enlouquecido por romances de cavalaria. Idealista, sonhador, valente, mas iludido, com uma personalidade que inspira tanto o ridículo quanto a admiração.
Sancho Pança Escudeiro de Dom Quixote, um camponês pragmático e comilão. Realista, leal, simples, com uma personalidade cômica e terrena, que contrasta com a de Quixote.

Seção: De alguém a ninguém
O ensaio explora a ideia de identidade pessoal e a sua dissolução filosófica. Borges discute a noção de que o "Eu" é uma construção, uma série de percepções e memórias que não constituem uma entidade fixa. Ele recorre a pensadores como Hume e Berkeley para argumentar que a individualidade é ilusória e que, em um sentido profundo, todos somos "ninguém" ou partes de uma consciência universal.

Personagem / Conceito Características Personalidade
George Berkeley Filósofo irlandês, bispo e idealista, proponente do imaterialismo. Visionário, questiona a existência da matéria independente da percepção, com uma mente focada na metafísica.

Seção: Sobre o Vathek de William Beckford
Borges analisa o romance gótico "Vathek" de William Beckford, uma obra exótica e sombria que explora temas de ambição, blasfêmia e o pacto com forças infernais. Ele destaca a atmosfera orientalista e o caráter excessivo da obra, bem como a originalidade de Beckford na criação de um mundo fantástico e perturbador.

Personagem / Conceito Características Personalidade
William Beckford Escritor, colecionador de arte, viajante e político inglês, famoso por seu romance gótico "Vathek". Excêntrico, rico, hedonista, com uma imaginação sombria e grandiosa.
Vathek (personagem) Califa ficcional, protagonista do romance de Beckford. Ambição ilimitada, cruel, blasfemo, busca conhecimento e poder proibidos.

Seção: O primeiro Hume
Borges concentra-se nos primeiros escritos de David Hume, particularmente no "Tratado da Natureza Humana", destacando a ousadia e o radicalismo de suas ideias juvenis. Ele explora como Hume, desde cedo, questionou a causalidade, a identidade pessoal e a certeza do conhecimento, lançando as bases de seu ceticismo filosófico.

Seção: Nota sobre (em) a "Ulysses"
Uma breve reflexão sobre o "Ulysses" de James Joyce. Borges reconhece a grandiosidade da obra, mas também expressa uma certa dificuldade ou saturação com sua complexidade e a imensidão de seus detalhes. Ele sugere que, talvez, a obra seja mais admirada por sua ambição e erudição do que por seu prazer de leitura direto.

Personagem / Conceito Características Personalidade
James Joyce Escritor irlandês, mestre do modernismo, autor de "Ulysses" e "Finnegans Wake". Revolucionário, experimental, erudito, com uma personalidade que desafia as convenções literárias.

Seção: O Wall Street Journal e Chesterton
Um ensaio curto que compara o jornalismo econômico (representado pelo Wall Street Journal) com a mente de G.K. Chesterton. Borges utiliza essa comparação para contrastar a objetividade e a seriedade da imprensa com a imaginação e o paradoxo de Chesterton, sugerindo que há mais poesia e verdade nas observações do segundo do que na factualidade do primeiro.

Personagem / Conceito Características Personalidade
G. K. Chesterton Escritor, jornalista e polemista inglês, apologista cristão e autor de contos de detetive. Paradoxal, humorístico, defensor do senso comum e da fé, com uma personalidade jovial e combativa.

Seção: Do culto dos livros
Borges medita sobre a sacralidade dos livros ao longo da história, desde a ideia de textos divinamente inspirados até a reverência moderna pela literatura. Ele explora a ideia de que os livros, mais do que simples objetos, são depósitos de memória, sabedoria e imaginação, capazes de transcender o tempo e conectar diferentes épocas e culturas. O ensaio é uma ode à importância cultural e espiritual dos livros.

Seção: O enigma de Edward FitzGerald
Borges investiga a figura de Edward FitzGerald, o tradutor inglês dos "Rubaiyat de Omar Khayyam". Ele questiona se FitzGerald foi um mero tradutor ou se, ao "recriar" a obra de Khayyam com tamanha liberdade e beleza, ele se tornou, de certa forma, o verdadeiro autor. O ensaio explora a natureza da tradução e da autoria, e os limites entre a fidelidade e a criação original.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Edward FitzGerald Escritor e tradutor inglês, conhecido por sua versão do "Rubaiyat de Omar Khayyam". Erudito, sensível, com uma forte veia poética própria, capaz de recriar a essência de uma obra em outra língua.
Omar Khayyam Poeta, matemático e astrônomo persa do século XI. Sábio, hedonista, cético, com uma poesia que celebra a vida e questiona a religião.

Seção: Sobre a tradução das "Mil e Uma Noites"
Borges analisa as diferentes traduções das "Mil e Uma Noites", comparando as versões de Galland, Burton e Mardrus. Ele discute como cada tradutor impõe sua própria sensibilidade e estilo à obra, alterando sua natureza e revelando diferentes facetas da complexa narrativa árabe. O ensaio é uma reflexão sobre a impossibilidade de uma tradução "definitiva" e a riqueza das múltiplas interpretações.

Personagem / Conceito Características Personalidade
Antoine Galland Orientalista francês, foi o primeiro a traduzir "As Mil e Uma Noites" para uma língua europeia. Pioneer, adapta as histórias para o gosto europeu, com uma personalidade de divulgador cultural.
Richard Francis Burton Explorador, tradutor e orientalista britânico, conhecido por sua tradução erudita e explícita das "Mil e Uma Noites". Aventureiro, erudito, controverso, busca a fidelidade e a complexidade cultural.
J. C. Mardrus Médico e orientalista francês, autor de uma tradução poética e sensual das "Mil e Uma Noites". Poético, sensual, busca a expressividade e a musicalidade do texto original.

Seção: Dois livros
Breves notas sobre dois livros específicos, geralmente obscuros ou pouco conhecidos, nos quais Borges encontra pontos de interesse para suas reflexões sobre tempo, identidade ou a natureza da realidade. Esta seção serve como um microcosmo da sua metodologia ensaística, onde mesmo obras menores podem servir de ponto de partida para profundas investigações filosóficas.

Seção: O primeiro dos Urales
Neste ensaio, Borges se refere a uma figura literária ou um texto de origem remota, possivelmente russa ou de uma cultura mais exótica, para explorar temas de origem, ancestralidade e as raízes míticas da literatura e do pensamento. A precisão do "personagem" pode ser menos importante do que a ideia que ele representa sobre a universalidade de certos temas.


Gênero literário
Ensaio filosófico, ensaio literário, crítica literária, metaficção, contos (um deles, "Deutsches Requiem").

Dados do autor
Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899-1986) foi um escritor, poeta, ensaísta e bibliotecário argentino. Nascido em Buenos Aires, foi uma figura central na literatura hispano-americana e um dos maiores escritores do século XX. Conhecido por sua prosa concisa e erudita, Borges explorou temas como o tempo, o infinito, labirintos, espelhos, sonhos e a natureza da realidade. Embora nunca tenha ganho o Prêmio Nobel de Literatura, sua influência é imensa, sendo considerado um mestre da ficção curta e do ensaio filosófico. Sua obra é caracterizada por uma mistura de fantasia, metafísica e erudição, criando um universo literário único.

Moral e Curiosidades

Moral:
A "moral" de "Outras Inquisições" não é uma lição única ou um código de conduta, mas sim um convite à reflexão crítica sobre a própria realidade, a literatura e o conhecimento. Borges sugere que o universo é infinitamente mais complexo e paradoxal do que nossas categorias mentais nos fazem crer. Ele nos ensina a questionar a originalidade, a autoria, a natureza do tempo e até mesmo a nossa própria identidade. A verdadeira sabedoria reside em abraçar a incerteza e a infinitude de interpretações, reconhecendo que a ficção e a realidade podem ser indistinguíveis e que a beleza reside na intrincada teia de referências e significados. O livro nos impele a uma "leitura" mais profunda do mundo, não apenas dos textos.

Curiosidades:

  • Nome Incomum: O título "Outras Inquisições" (Otras Inquisiciones) é deliberadamente enigmático. As "inquisições" de Borges não são tribunais religiosos, mas sim investigações intelectuais profundas e muitas vezes heterodoxas sobre os grandes temas da humanidade.
  • Aparato Erudito: Borges tinha o hábito de citar livros e autores obscuros, muitos dos quais eram invenções suas. Isso criava um efeito de meta-literatura, borrando as fronteiras entre o que era real e o que era ficção dentro de seus ensaios.
  • Ensaio como Ficção: Algumas das "invenções" mais famosas de Borges estão neste livro, como a enciclopédia chinesa fictícia em "O idioma analítico de John Wilkins", que inspirou Michel Foucault. "Deutsches Requiem" é um conto completo, disfarçado em uma coletânea de ensaios.
  • Influência Filosófica: Este livro é uma das maiores expressões do "filósofo" Borges. Ele explora o idealismo de Berkeley, o ceticismo de Hume e as ideias de Schopenhauer, não de forma acadêmica, mas de um modo que as transforma em matéria-prima para sua própria visão de mundo.
  • Temas Recorrentes: Muitos dos temas que se tornariam marcas registradas da obra de Borges – labirintos, espelhos, bibliotecas, tempo circular, a ilusão da identidade e o universo como um livro – já estão presentes ou são aprofundados neste livro de ensaios.
  • O "Borges Cego": Quando este livro foi publicado em 1952, a visão de Borges já estava significativamente comprometida, e ele eventualmente ficaria completamente cego. Curiosamente, essa cegueira parece ter aguçado ainda mais sua memória prodigiosa e sua capacidade de construir complexos universos mentais.